Política
Amor à vida e ao jornalismo
Publicado: 15:38:00 - 21/06/2015 Atualizado: 21:38:18 - 21/06/2015
"Sou um milagre da ciência. Hoje tenho apenas metade de mim. A outra metade os médicos já retiraram. Mas fiz um pacto com o Senhor Deus. Mesmo querendo ficar mais um pouco, apreciar suas belezas, curtir suas virtudes, serei o último a sair e a apagar a luz".

Era assim, de forma bem humorada, que o jornalista Agnelo Alves gostava de celebrar a maior de todas as suas paixões: a vida. "Eu amo viver" foi a frase escolhida por ele para realçar o perfil de sua conta no WhatsApp, aberta no dia 18 de junho de 2014, provavelmente por algum assessor, uma vez que ele, mesmo tendo acesso às mais modernas tecnologias da comunicação, em casa e no trabalho, ainda preferia escrever na velha máquina de datilografia que adorna seu apartamento, na praia de Areia Preta.
Agnelo exercitou no jornalismo a arte das entrevistas, da análise política e do texto curto
Nascido em Ceará-Mirim no dia 16 de julho de 1932, ano em que foi instituído o voto feminino, Agnelo cresceu respirando política. O pai era prefeito de Angicos quando ele nasceu; o irmão Aluízio Alves foi deputado constituinte em 1946 e fez carreira política no Rio Grande do Norte, sendo eleito governador em 1960. Agnelo seguiu os passos do irmão. Foi prefeito de Natal, cassado pela ditadura militar, elegeu-se duas vezes prefeito de Parnamirim, suplente de Senador e por duas legislaturas foi uma das vozes atuantes na Assembleia Legislativa do RN.

De saúde frágil, raquítico, mas com uma inteligência privilegiada, o menino Agnelo foi obrigado a abandonar os estudos no Colégio Marista. E de uma forma dolorosa para qualquer adolescente. Numa entrevista para a revista Palumbo, ele contou como foi: "Logo no primeiro ano de Marista fui acometido de tuberculose. Fiquei nove anos afastado de qualquer aglomeração. Não podia estudar em nenhum colégio. Naquela época, a tuberculose era uma sentença de morte. Mas eu sobrevivi".

Leia Mais

Passou quase dois anos respirando os ares de montanha de Belo Horizonte, para onde foi enviado a pedido do médico que o tratava. Em 1955, aos 23 anos de idade, conheceu a estagiária de serviço social, Celina Aparecida Nunes, com quem se casou numa cerimônia simples na Capela Santa Mônica, no Leblon, Rio de Janeiro,cidade onde nasceram dois de seus três filhos - Agnelo Filho e Carlos Eduardo.

Foi repórter político na Tribuna da Imprensa, trabalhou no Jornal do Brasil e no Diário Carioca. Depois de anos morando numa "república" no Rio de Janeiro, foi indicado por José Aparecido de Oliveira para atuar na assessoria de imprensa do presidente Jânio Quadros, juntamente com um amigo da pauta política que também estava de mudança para Brasília: o jornalista Carlos Castelo Branco.

De volta a Natal, engajou-se nas lutas políticas e no dia a dia do jornal – a Tribuna do Norte -, fundado pelo irmão Aluízio Alves, a exemplo do que fizera Carlos Lacerda no Rio de Janeiro, para fortalecer a luta democrática. Sócio da empresa, Agnelo sempre disse que no jornalismo nunca almejou ser mais do que “um repórter”. Tanto que, durante anos, o título de uma das colunas semanais que assinou na TN foi “Agnelo Alves, o repórter”.

Detentor de uma linguagem clara, estilo acurado e irreverente, Agnelo exercitou no jornalismo a arte das entrevistas, da análise política e do texto curto. Criou e imortalizou, durante as décadas de 1970 e 1980, a figura do “Neco”, personagem que assinava as “Cartas ao Humano”, textos de crítica de costumes, política e social com os quais exponha suas análises, ideais e também desnudava a hipocrisia e o autoritarismo da ditadura militar e dos governos estaduais nomeados por ela, driblando a censura e a truculência do regime de exceção vigente no Brasil.

Ao ser entrevistado para a edição especial do 65º aniversário de fundação da Tribuna do Norte, em março deste ano, Agnelo lembrou, emocionado, a motivação inicial para o jornalismo político. "Carlos Lacerda tinha a Tribuna de Imprensa no Rio de Janeiro e convidou Aluízio Alves para ser redator-chefe. Certo dia ele perguntou a Aluízio por que nós não fundávamos um jornal no Rio Grande do Norte. Fizemos uma sondagem junto a algumas pessoas. Consultamos Aristófanes Fernandes e envolvemos a UDN. Aí entraram, além de Aristófanes, Dinarte Mariz, José Xavier da Cunha, Jocelin Villar e vários outros que não quiseram aparecer, mas ajudaram." E acrescentou: "Se fosse fazer um artigo sobre a Tribuna do Norte eu diria: A Tribuna e eu fazemos hoje 65 anos de vida, de luta, de resistência. Valeu a pena”.

Leia também