Amor em tempos radicais

Publicação: 2016-10-07 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Um jovem se apaixona por uma mulher quinze anos mais velha e casada. Sem poder viver esse amor, ele parte confuso em uma jornada de autoconhecimento que envolve religião, fé e política. Em “Enigmas da Primavera”, romance mais recente do escritor e diplomata potiguar João Almino, publicado em 2015 pela editora Record, a tradicional história de amor da literatura árabe entre Majnun e Laila é transposta para o século 21, cujo pano de fundo é a onda de protestos que eclodiu no mundo a partir de 2011, como a Primavera Árabe, o movimento indignados na Espanha e as Jornadas de Junho de 2013 no Brasil.
Enigmas da Primavera
A obra está entre as dez finalistas da nona edição do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria “Melhor Livro do Ano”. O anúncio do vencedor será no dia 10 de outubro. Promovido pelo Governo do Estado de SP, e focado especificamente em romances, o Prêmio é um dos mais importantes do país. “É uma ótima seleção de livros. É gratificante estar ao lado deles. Todos os autores são merecedores”, diz João Almino sobre nomes como Marcelo Rubens Paiva, Mia Couto, Raimundo Carrero, Noemi Jaffe e Beatriz Bracher. O autor do melhor livro do ano vai faturar R$ 200 mil. Em 2015, essa categoria foi vencida por outro potiguar, Estevão Azevedo, com o romance “Tempo de Espalhar Pedras” (Cosac Naify).

“Em 'Enigmas da Primavera' construí uma história de jovens, que também é uma história de amor. No entanto, conta com esses temas contemporâneos, as manifestações políticas de 2011 a 2013. Majnun é um personagem muito ligado nas redes sociais, mas um pouco perdido, vivendo num momento instável, descontente com a passividade do mundo atual. Ele é meio nostálgico de uma época que não conhecia, mas que era de seus avós, uma época de luta política contra a Ditadura e dos protestos de Maio de 68 na França”, comenta o autor.

Para ele, um dos temas centrais do romance é ressurgimento de algumas ideologias radicais. “É um novo totalitarismo do século 21, que surge no meio de grupos radicais islâmicos”.

João Almino é autor do Quinteto de Brasília, série de cinco livros com a capital federal de pano de fundo - “Ideias para Onde Passar o Fim do Mundo” (1987), “Samba-Enredo” (1994), “As Cinco Estações do Amor” (2001), “O Livro das Emoções” (2008) e “Cidade Livre” (2010). Com exceção de “Samba Enredo”, todos os outros foram finalistas ou receberam importantes prêmios literários.

O escritor conversou por telefone com o Viver sobre seu livro, o mundo contemporâneo, a cultura árabe, os protestos de junho de 2013 no Brasil, além de adiantar um pouco sobre seu sétimo romance, que se passará no Rio Grande do Norte, sobre um personagem que deixa sua casa para morar um tempo Brasília e depois retorna à terra natal. “A maior parte da história se passa no Rio Grande do Norte. É algo diferente dos outros livros, quando os personagens traziam suas memórias do nordeste”, adianta o autor.

Entrevista com  João Almino, escritor e diplomata

Como você chegou a história de “Enigmas da Primavera”?
Comecei a escrever o livro em 2009, morando em Chicago. Parti do personagem, um jovem de 20 anos, ligado nas redes sociais, retraído, meio tímido, desajeitado, crescendo numa família disfuncional. Em 2011, quando cheguei na Espanha, acompanhei os movimentos políticos daquele ano, sobretudo o dos Indignados de Madrid. Depois aconteceu aquela onda de manifestações mundo afora, no Oriente Médio, nos Estados Unidos, Chile, no Brasil. Quis usar isso na ficção.
“As pessoas não se dão conta do quão importante esses temas são”, disse o escritor
E a questão árabe, como entrou na história?
O personagem é um descendente de árabes. Sua avó é uma muçulmana que veio para o país. Mas ele foi criado por outros avós, que moram em Brasília. Não chegou a ter formação religiosa, mas sempre teve fascínio pela outra avó, que mora em São Paulo. Através dela ele começa a se interessar pelo Islã e pela cultura árabe antiga, da época medieval, da ocupação árabe da península ibérica. Quando ele tem a oportunidade de ir para Espanha, ele retoma esse interesse e faz uma espécie de imersão nessa cultura. É um período de manifestações no mundo, ele acaba se envolvendo, tendo contato com grupos radicais islâmicos.

Por que esse interesse pela cultura árabe?
Morei no Líbano na época da Guerra Civil Libanesa, entre 1980 e 1982. Tive um certo contato com essa cultura, o que gerou uma curiosidade em conhecer melhor as questões que levam aos conflitos internos do Islã. No romance, o personagem está interessado na tradição da tolerância do islã. Que é uma tradição que existe de fato. Fiz uma pesquisa nesse sentido, com leituras do Alcorão, de autores árabes, para entender não só aspectos religiosos, mas ideológicos. Pude identificar essa questão da tolerância, que é bem antiga no islã. Mas procurei ver também aspectos contrários, dos radicais.

Há muita falta de informação sobre essas questões, não?
As pessoas não se dão conta do quão importante esses temas são. São questões cruciais do mundo hoje. Como em outras épocas foram cruciais temas radicais como o nazismo na Alemanha do início do século 20, que atingiu o mundo inteiro. Então essa nova ideologia totalitária que vivemos é algo que envolve o mundo inteiro.

Manifestações políticas, radicalismo islã, você trabalha com temas muito recentes. Como é levar para ficção questões atuais no calor do momento?
O romance não toma partido, não faz uma análise. O que ele procura é retratar, da maneira mais fiel possível, o sentimento de alguns dos jovens que estão envolvidos naquelas manifestações. É um retrato de uma certa época, que pode ajudar a se entender melhor o que se estava acontecendo naquele momento, mas a partir do envolvimento emocional dos personagens, e não de uma análise feita pelo narrador.

Alguns livros ou autores lhe serviram de inspiração?
Me serviu de inspiração o que o Flaubert fez na “A Educação Sentimental”, colocando como pano de fundo a revolução de 1848. Não é um trabalho de historiador, nem de jornalista, como ficcionista o que ele faz é retratar os personagens dele no meio daqueles movimentos, mostrando-os a partir das suas próprias visões de mundo e envolvimento emocional. A ficção consegue trabalhar esses assuntos de uma maneira tal  que mesmo depois de um tempo ainda é possível se relacionar com os personagens e suas histórias.

Como você acompanhou os protestos de junho de 2013 no Brasil?
Acompanhei de fora, pelo noticiário, lendo muito. Não havia uma direção clara daquelas manifestações. Elas revelavam uma insatisfação difusa. Cada um ia às ruas com a sua própria plataforma. Havia alguns pontos em comum, como a pauta que deu início, a do aumento das tarifas dos transportes públicos. Mostrou-se que o poder público não estava dando conta de atender a altura a demanda pelos serviços público no geral. Foi algo realmente difuso. Nesse sentido as manifestações se assemelhavam com as manifestações do passado, que foram muito importantes, como Maio de 68, na França. Começou com uma coisa muito difusa, a exemplo do lema Imaginação no Poder, até se tentar atingir o próprio poder central. No Brasil, nem isso estava muito claro.

São seis romances publicados, a maioria foi finalistas ou venceu os mais importante prêmios literário do país. Como é isso para você?
É um instrumento importante para o livro, para a sua divulgação e para o escritor também, pois é um reconhecimento para o seu trabalho. O escritor passa muito tempo se dedicando a um tema, a uma história, portanto é gratificante ver que o seu trabalho foi reconhecido. Eu tenho um público fiel e entusiasta. Meus livros são acessíveis para todas as pessoas. Eles não tem uma linguagem complicada. “Enigma da Primavera” está em sua segunda edição. Mas sei que não sou um escritor de grande público. Nunca tive best sellers.

Você passou a infância em Mossoró. Alguma coisa do nordeste você leva para sua literatura?
Memórias do Nordeste eu guardo muitas. Nem todas vão para a minha literatura. O nordeste aparece mais por meio de personagens, isso desde o meu primeiro romance, de 1987.

Pensa em escrever alguma coisa que envolva o Rio Grande do Norte?
Estou trabalhando no meu sétimo romance. A maior parte da história se passa no Rio Grande do Norte. É algo diferente dos outros livros, quando os personagens traziam suas memórias do nordeste. É sobre um personagem que sai de Brasília e volta. Está praticamente pronto, mas não posso dizer o nome até concluí-lo.

Brasília é um lugar sempre presente em seus romances. A cidade ainda te interessa?
Brasília é um marco do Brasil independente. Em torno da cidade existia toda aquela utopia modernista. Eu achava que podia contrastar essa carga simbólica com uma Brasília real, uma cidade com muita desigualdade social, que é o retrato do Brasil. Em Brasília você tem um plano racionalista, quase matemático, e nos arredores, um monte de seitas místicas surgindo, de total irracionalismo. Esses contrastes me eram muito interessantes. Outro aspecto é o fato de ser uma cidade migrante, com pessoas vindas de muitos lugares. Os que eram de Brasília eram muito jovens, alguns ainda bebês. Eu achava que isso me permitiria falar do Brasil de uma maneira mais ampla, dos vários Brasis, que ali se encontravam. No total de anos, moro em Brasília quase o mesmo tempo que vive em Mossoró: 12 anos. São os dois lugares onde vivi mais tempo

Conversando contigo se vê que você tem um interesse muito grande pelo contemporâneo, pelo atual. É sempre assim?
Essa questão sobre o presente é algo que me interessa. O instante presente. Eu tenho um livrinho publicado de filosofia chamado “A idade do presente”. Mas proponho uma discussão sobre o presente, com uma perspectiva histórica e com uma preocupação de utilizar uma linguagem que permita que essa visão do presente não se esgote nele.

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