Ampulheta

Publicação: 2020-11-29 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Não deixou de causar um certo frisson, no campo político, principalmente nos limites do PSDB, a tese levantada por esta coluna quando admitiu que 2022 pode ser o instante de uma decisão fundamental do político Álvaro Dias. Mantidas as circunstâncias e a alta intensidade de convergências, ainda que pareça muito cedo a previsão, pode residir naquela data as condições únicas para que o prefeito reeleito agora venha a ser o candidato a governador. Não é absurdo.
Créditos: Reprodução

É natural que o próprio Álvaro reafirme sua decisão de governar Natal nos quatro anos do mandato conquistado nas urnas. Como é esperado que alguns dos principais nomes do partido afirmem ser muito cedo para esse tipo de definição. É do maneirismo da política não antecipar o que poderá se construir ou não. Mas, não é do jornalismo perder de vista as verossimilhanças que a política muitas vezes é capaz de engendrar. Nem são tão escassos os exemplos, ontem e hoje.

Em 1960, quando o jovem deputado federal Aluízio Alves teve seu nome preterido por seu próprio grupo, então liderado por Dinarte Mariz, recaindo a preferência em Djalma Marinho, nem a mais ousada lógica recomendava a reação de Alves. Mas, contraditoriamente, estavam ali as circunstâncias que sugeriam a tomada de decisão: um estado mergulhado na falta absoluta de arrojo administrativo e longe da gestão moderna, mesmo governado por um líder respeitado.

Recentemente, nenhum juramento foi mais eloquente do que aquele pronunciado pelo atual governador de São Paulo quando assegurou que governaria a maior metrópole brasileira nos quatro anos para os quais fora eleito. Nem por isso, também cumpriu. O inconformismo de Aluízio e a renúncia de Dória, convenhamos, se feriram as palavras ditas, não foram além da trama de que é feita a política e. se de antenas sensíveis, eles, os políticos, sabem a vez e a hora.

A especulação, quer no grau elevado da erudição filosófica, ou no chão comum da vida feita dos fatos comuns e até banais, não perde substância a não ser quando fere, em demasia, a plausibilidade e chega ao território insustentável do absurdo. Não é o caso. A política se faz sob o céu do universo do provável. Nesse sentido, no atrito de suas esferas, nada é impossível, nem mesmo o improvável. As circunstâncias engendram novas circunstâncias, se nada é impossível.

É esperado que o prefeito, reeleito há tão poucos dias, e seus companheiros tucanos, todos digam não ter sentido projetar o que vai levar quase dois anos para ocorrer. Ou não. A posição é incontestável, se posta assim, no contra plano dos muitos segundos, minutos e horas que separam o hoje de 2022.  E este cronista também concorda. Só não acredita que a distância é obrigada a construir um não. Na ampulheta da política, a areia do tempo é feita de grãos. Do sim e do não.

SILÊNCIO
Segundo informa uma fonte bem plantada junto a Felipe Camarão, e apesar do silêncio: serão substituídos de quatro a cinco nomes na equipe da Prefeitura de Natal. Nada antes de janeiro chegar.

LUTA
A livraria do Campus, na UFRN, vítima inevitável da concorrência das vendas via on line neste período de pandemia, não teve como adotar descontos mais generosos. Daí ter ficado entre 15% e 20%.

CACASO
Morto em 1987, aos 43 anos, sai agora a edição completa da Poesia de Antônio Carlos de Brito numa edição bem cuidada da Companhia das Letras. Foi o grande nome da poesia dos anos setenta.

MESA
A professora Maria da Graça Viveiros espera lançar dia 21 de dezembro seu belo livro ‘Mesas de Maria’. Além de todo seu requinte, o que é da sua tradição, informações sobre a mesa e as suas histórias.

OMISSÃO
Vai findando este ano, entre vírus e medos, sem que as instituições locais, exceto a UFRN, tenham tomado conhecimento dos centenários de João Cabral e Clarice Lispector. Somos uns medievos!  

FLORADAS
Além dos amarelos tardios que ainda iluminam os morros aqui e ali, as acácias mimosas ainda floram na solidão do Campus. E, de vez quando, os amarelos humildes da jurema e da canafístula.   

UFA!
Fica, e mais uma vez, para o ano que vem, o funcionamento do Teatro Alberto Maranhão e da Biblioteca Pública Câmara Cascudo. Esta já cursando quase duas décadas com as suas portas fechadas.

ELAS
Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, pergunta ao velho amigo boêmio: “Peçanha, as mulheres lhe tratam bem?”. Peçanha, solteiro inveterado, machista e mulherengo: “Quando bem pagas”.

LEGADO
A revista Forbes foi perfeita e não deixou passar sem registro o grande legado dos primos Francisco e Ricardo Brennand com seus museus valiosíssimos e acervos na Várzea do Recife, engenhos e cerâmica antigos. Ricardo deixou a coleção de vinte óleos de Frans Post, de um valor hoje inestimável. 

POESIA
Este dois mil e vinte marca os quarenta anos de lançamento do livro ‘Corpo Breve’, (Fundação José Augusto, Natal, 1980), livro de poemas de Diógenes da Cunha Lima, capa e ilustrações de Dorian Gray. E versos assim: “Não é justo consumir tua beleza tão sozinha / pois a tarde cairá sobre teu corpo”.

SÉCULO
Amanhã, segunda-feira, dia 30, às 19h, o YouTube do ADURN.Sindicato vai transmitir ao vivo o bate-papo das professores Rosanne Araújo e Tânia Lima, UFRN, sobre a poesia de João Cabral de Melo Neto neste ano do seu centenário. Rosanne Araújo tem um belo estudo sobre a poesia de Cabral.