Ana Beatriz Barbosa: Por trás das mentes ansiosas

Publicação: 2019-06-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

É difícil não sentir ansiedade nos dias de hoje. Os estímulos são muitos, chegando a tornar inevitável esse estado emocional. O problema é quando a ansiedade extrapola o nível habitual e passa  a interferir negativamente na vida das pessoas, podendo chegar a problemas de saúde e até situações extremas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos de ansiedade estão entre as doenças mentais mais comuns, superando a depressão. A análise desse fenômeno cotidiano levou a professora, psiquiatra e escritora Ana Beatriz Barbosa Silva a escrever “Mentes Ansiosas: o medo e a ansiedade além dos limites”, que inspirou o tema da palestra que ela apresentará em Natal dia 18 de junho, no Teatro Riachuelo — que é “O medo e a ansiedade nossos de cada dia”.

Autora de best-sellers, psiquiatra e escritora Ana Beatriz Barbosa diz é preciso promover comportamentos simples desde cedo
Autora de best-sellers, psiquiatra e escritora Ana Beatriz Barbosa diz é preciso promover comportamentos simples desde cedo

“Mentes Ansiosas” foi escrito em 2011, tornou-se um best-seller, e o debate que promove até hoje mostra que a ansiedade é um problema que ainda está bem presente na sociedade brasileira. O livro surgiu da interação real e virtual entre Ana Beatriz e o público. Por meio de conversas por redes sociais, e-mails ou durante palestras e em livrarias, a autora reuniu os principais anseios e questionamentos das pessoas sobre o assunto.

“As solicitações do mundo moderno são muito maiores e quanto mais as pessoas tentam dar contar de tudo, mais elas ficam ansiosas”, disse ela, em entrevista ao TN FAMÍLIA. Ana Beatriz falou sobre como a ansiedade é estimulada por diversas vias da existência cotidiana, e como ela se relaciona com uma série de comportamentos que as pessoas vivem no dia a dia, como trabalho, relacionamentos, política, e redes sociais. É quase impossível ficar imune. “O medo e a ansiedade são dois lados da mesma moeda”, ressalta. Apaixonada pelo cérebro e pelo ser humano - “Um bichinho esquisito mas absolutamente fascinante” -, a psiquiatra carioca acredita no conhecimento e no autoconhecimento para enfrentar barreiras. Leia:

Você ouve as pessoas não só no consultório, mas também nas redes sociais, nas ruas, em suas palestras. O que mais tem causado ansiedade nos brasileiros atualmente?
Cada um vive a ansiedade de um jeito, mas tenho reparado pontos em comum. Problemas do cotidiano, da política, estão afetando muito os brasileiros. Há gente preocupada com o não crescimento da economia, o aumento do desemprego, a falta do básico, como saúde e educação. Já quem tem mais recursos, pensa em ir para fora do  país. Vejo pessoas ansiosas com as incertezas em relação ao futuro. O radicalismo em questões ideológicas também é uma fonte atual de ansiedade – e nem me refiro só às polarizações de esquerda e direita. O radicalismo afeta as relações entre as pessoas e leva a uma violência social. O crescimento da violência, que atinge especialmente as minorias, gera danos físicos e também mentais. Eu vejo as pessoas com medo de sair, se divertir, interagir. E medo e ansiedade são duas faces da mesma moeda. Uma outra faceta da ansiedade é a obsessão de ver e ser visto que as redes sociais causaram nas pessoas. Antigamente a discrição era a regra, mas agora é exceção. Todo mundo quer aparecer, e aparecer bem. Querem se mostrar bacanas, bonitas, bem sucedidas, descoladas. A compulsão de postar gera a ansiedade de ter resposta, de ser aprovado pelos seguidores. A agitação interior é causada pelo desejo em satisfazer um padrão que é impossível atingir.

Quais os sinais de que a ansiedade está se tornando um distúrbio patológico?
Antes é preciso dizer que há um nível normal de ansiedade, e que é até necessário. É aquele receio que protege, que faz pensar antes de agir, que estimula a precaução. O grande problema é quando a ansiedade ultrapassa o limite protetor e passa a ser prejudicial. É quando a ansiedade passa a causar limitações na vida profissional, afetiva, e social. Por exemplo quando eu começo a ter medo de me expor, de falar em público (fobia social), e me paraliso. É o que diferencia a ansiedade protetora da adoecedora, que a gente chama de transtornos de ansiedade.

O que costuma agravar a ansiedade? Quais são as doenças relacionadas?
O que agrava a ansiedade é o estresse, esse acúmulo de coisas negativas em nossa vida. Ele também faz parte de um processo bioquímico, pois o estresse descarrega substâncias que aumentam os níveis de adrenalina e cortisol no organismo, fazendo com que a gente fique pronto para enfrentar um determinado desafio. O problema é que o excesso dessas substâncias acabam adoecendo as pessoas. É o que dá origem a transtornos como o da ansiedade generalizada, que deixa a pessoa num estado de alerta total; o transtorno do pânico, que é o mais paralisante e leva as pessoas a buscar ajuda; as fobias gerais, de avião, altura, dentista,  sangue, etc; o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), e suas repetições de ações e pensamentos compulsivos; o TEPT (Transtorno do Estresse Pós-traumático), liberado após a exposição a uma situação traumática muito grande; além de fobias gerais, como os medos de avião, altura, dentista, sangue, etc. Como eu já disse, medo e ansiedade são lados da mesma moeda.

As pessoas estão especialmente mais ansiosas nos dias de hoje?
Sim, primeiro porque a velocidade das coisas é muito maior. Anos atrás diziam que as máquinas iam aliviar a vida do ser humano, que as pessoas teriam mais tempo pra si. Mas não foi isso que aconteceu, porque por trás de toda máquina tem um ser humano. A revolução tecnológica trouxe mais solicitações e a gente tem que estar muito mais atento. Hoje você trabalha o dia inteiro porque a máquina faz com que seu trabalho chegue a você em tempo real. A gente sabe o que acontece no mundo o tempo inteiro. Para quem tem empatia isso causa mais ansiedade, causa mais sofrimento. As solicitações do mundo moderno são muito maiores e quanto mais as pessoas tentam dar contar de tudo, mais elas ficam ansiosas.  Eu fiz um capítulo no “Mentes Ansiosas” chamado “Super Humanos”, que na realidade não existem, estamos produzindo os “super adoecidos”.

Você costuma analisar a ansiedade a partir de alguns recortes, como idade, classe social e raça? Esses fatores influenciam e geram "ansiedades" diferentes? 
Sim, e isso é básico para se analisar qualquer comportamento humano. Nós somos organizados em sociedades, com grupos que seguem padrões culturais e de valores. Então, por exemplo, é um fato que as mulheres adoecem mais de ansiedade porque coube  a ela nos últimos anos a revolução de sair de um papel do lar para outros mais amplos, mas não houve uma equiparação justa na divisão de tarefas do lar, não houve uma divisão justa no mercado de trabalho onde ela ganha menos. Há ansiedades compatíveis com a idade, como a do adolescente, de ser aceito, o adulto jovem de enfrentar o mercado de trabalho, do mais velho com a solidão e a proximidade do fim, ansiedade de pessoas que sofrem algum tipo de preconceito por sua cor, religião, orientação sexual, etc. Tudo isso conta e faz parte dos medos.

A ansiedade também se relaciona com questões ligadas ao suicídio?
A ansiedade é sim um fator de risco. O suicídio é muito atrelado à depressão, mas as pessoas não se deprimem do nada, há um processo. A ansiedade gera alterações bioquímicas no organismo que podem levar à taquicardia e aumento de pressão, mas também gera uma alteração no padrão de pensamento. O ansioso sempre pensa negativamente, e o pensamento negativo é extremamente tóxico pro cérebro. Ansiedade e depressão estão sempre no mesmo contexto de situação, e podem sim culminar numa situação de suicídio.

Como a saúde pública poderia atuar melhor em relação a questões de saúde mental?
Há um vácuo nas políticas públicas em relação aos transtornos mentais. Não é à toa que ansiedade e depressão são epidemias mundiais. O que poderia ser feito? Campanhas mais direcionadas, como aquelas feitas conta o tabagismo, que realmente reduziu o consumo e as doenças. Mas foi preciso uns 30 anos para isso acontecer. Também seria ótimo a promoção de comportamentos mais simples, como o ensino de relaxamento e meditação em escolas públicas desde a infância. A gente teria muito menos estresse se houvesse disciplinas ligadas à educação emocional, à inteligencia socioafetiva, de como a gente se relaciona com a sociedade e com outros, através de valores melhores de empatia. Acho que haveria uma mudança a longo prazo de qualidade de vida. Acredito que não há mudança sem conhecimento e sem autoconhecimento.

Colaborou: Cinthia Lopes/Editora





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