Análise: "Dois Papas" e Vargas Llosa

Publicação: 2020-01-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Ney Lopes
Jornalista, ex-deputado federal e advogado

Ressalvada a escalada de crise no Oriente Médio, o ano começou bem. Edificantes “exemplos e estímulos” podem ser extraídos de dois fatos recentes. O lançamento do filme “Dois Papas”, baseado no livro do produtor e roteirista neozelandês, Anthony McCarten, dirigido pelo paulista Fernando Meirelles (Netflix). A lúcida entrevista do laureado escritor peruano Vargas Llosa (prêmio Nobel 2010), concedida ao “Estado”. A propósito, cabem algumas análises pontuais.

O drama biográfico “Dois Papas” envolve os Papas Bento XVI e Francisco. Exalta as virtudes da tolerância, perdão e auto perdão. O árduo desafio do filme foi a busca, pelos dois papas, de um bem maior, a respeito do qual pudessem concordar.  O alemão e o argentino colocam-se como sacerdotes em polos opostos, representantes de duas alas distintas, de uma Igreja em conflito,

Bento XVI acredita que a Igreja é uma instituição para conectar o homem com Deus e conduzir as pessoas no plano espiritual como autenticas testemunhas da fé. Francisco, com formação jesuíta e progressista, encarna os sentimentos do Papa Leão XIII, que em 1891 escreveu a Encíclica “Rerum Novarum”, o primeiro passo na construção da Doutrina Social da Igreja, que favoreceu movimentos católicos comprometidos com a evolução da sociedade. Em 1991, João XXIII, com a “Mater et Magistra”, consolidou esse compromisso da Igreja com o social.

O filme narra concepções dramatizadas e imaginárias entre os dois Papas, mas que refletem o verdadeiro pensamento deles. O “grande momento” é o diálogo humano na Capela Sistina, quando os Pontífices fazem confissões recíprocas. O alemão se penitencia da omissão nos casos denunciados de pedofilia. O argentino admite ter se aproximado da ditadura argentina para salvar sacerdotes das torturas, sem ter sido conivente com os déspotas. O diálogo resulta na busca do convencimento mútuo, através da construção de “pontes”, numa hora em que muitos pensam em construir muros.

Outro momento edificante é Bento XVI anunciando à Francisco o seu afastamento do Papado. Em mais de dois mil anos de história da Igreja, apenas três Papas haviam renunciado. A grandeza humana é revelada na frase de Bento XVI, ao dirigir-se a Francisco (então o cardeal Bergoglio):  “Não concordo com nada do que você diz, mas você é aquilo de que a Igreja precisa agora”.

Também na largada do ano de 2020, a grande lição de fé nas liberdades humanas veio na entrevista concedida ao “Estado” pelo escritor Mario Vargas Llosa, ganhador do prêmio Nobel em 2010, jornalista, dramaturgo, ensaísta, crítico literário e escritor consagrado internacionalmente. Com a autoridade de quem já foi militante comunista, ao lado de Gabriel García Márquez, Júlio Cortázar, Carlos Fuentes, as posições atuais de Llosa traduzem crença incondicional na Democracia.

Llosa declara que “É muito melhor ter democracias imperfeitas, até corrompidas, do que ditaduras que não são eficientes por fomentar a delinquência, o roubo, a manipulação da realidade... Temos democracias imperfeitas, mas que podem ser corrigidas por meio de denúncias de roubos e das políticas mafiosas dos governos”.

Sobre o Chile afirma com lucidez: “O caso mais notável é o do Chile, que primeiro optou por acabar com uma ditadura feroz, sanguinária, que foi a de Pinochet... Mas algo falhou. A impaciência da classe média que se descobre limitada e impossibilitada de alcançar o progresso por causa de um sistema de privilégios é uma explicação”.

Ainda acerca dos protestos atuais no Chile diz Llosa: “são movimentos claramente populares, sobretudo de classes médias que veem um limite em suas aspirações”. Vargas Llosa não esqueceu da indispensável liberdade da imprensa: “É muito importante, para os cidadãos responsáveis, ter coragem de defender a verdade, de não aceitar a censura e muito menos a autocensura. Isso é o princípio do fim em uma democracia. É essencial que os meios de comunicação mantenham sua independência diante do poder”.

A lucidez de Bento XVI, Francisco e Llosa renovam a crença em um mundo comprometido com a Paz, o Humanismo e o Diálogo, mesmo com as ameaças iminentes de truculência e insanidade, defendidas por desvairadas lideranças políticas, aprisionadas ao belicismo, autoritarismo, sectarismo e intolerância.





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