Análise: existirão “subversivos” em Davos?

Publicação: 2020-01-22 00:00:00 | Comentários: 0
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Ney Lopes
Jornalista, ex-deputado federal e advogado

Em 1924, o livro “Montanha Mágica”, de Thomas Mann abordou reflexões de um jovem, isolado nas montanhas geladas de Davos, pequena cidade na Suíça, acerca da fragilidade humana, subjetividade do tempo, choques políticos e culturais típicos de sua época. Esse mesmo cenário alpino, após quarenta e sete anos (1971), foi escolhido por representantes do capitalismo internacional, para realização anual de encontros denominados “Fórum de Davos”, com o objetivo de reunir líderes mundiais, grandes economistas, investidores e empresários, visando analisar e compreender os impactos da globalização sobre o mundo.

No início do século XXI, o “Fórum” passou a sofrer intensos protestos, que culminaram com a depredação de uma lanchonete do Mcdonalds (2003). Ontem, começou a 50ª reunião anual, cujo tema de debates será “Grupos de interesse para um mundo coeso e sustentável”.

Este ano, o Fórum empresarial é colocado de “cabeça para baixo”. O seu fundador, Klaus Schwab, alemão, hoje com 81 anos, lançou o “Manifesto de Davos 2020”, que tem como coautores os presidentes do Bank of America e da gigante holandesa Royal DSM. A proposta reconhece a extrema concentração de renda no planeta, em consequência, as falhas do capitalismo (não se trata de extinção) e propõe a sua reinvenção. Chegaram a Davos os protestos dos “gilets jaunes” (França) e dos grupos populares chilenos, que cantam e bailam nas ruas a música “El Baile de Los Que Sobran”, da banda Los Prisioneos. Aqueles que acolhem o “alerta” de Klaus Schwab, não condenam a riqueza legítima, mas se preocupam com os estudos que apontam um grupo de apenas 2.153 indivíduos no mundo, com patrimônio superior a US$ 1 bilhão, detendo mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas, o equivalente a 60% da população global.

 Klaus Schwab, ícone do capitalismo, defende a desconcentração da renda, o pagamento “justo” de impostos, tolerância zero com a corrupção, proteção do meio ambiente, estímulo à qualificação dos empregados, uso ético das informações privadas na era digital, vigilância dos direitos humanos em toda a cadeia de fornecedores e alerta executivos e investidores, para compreenderem que o sucesso das empresas no longo prazo, também depende do êxito de seus clientes, empregados e fornecedores.

Até o final da semana subirá a temperatura na gélida Davos, quando milionários, inscritos no Fórum para debates (George Soros, as herdeiras Regan Pritzker e Abigail Disney e o cofundador do Facebook Chris Hughes) levantarem “vozes” de apoio à Klaus Schwab, ao ratificarem a proposta que já defendem, de taxação de grandes fortunas, a fim de ajudar a diminuir a desigualdade de renda e financiar investimentos para enfrentar as questões da mudança climática, educação e saúde pública.

O ajuste proposto ao capitalismo não significará a negação da importância do mercado no funcionamento estável da economia. Porém, o estado é chamado a assumir papel ativo de coordenação, sem que isso implique intervencionismo indevido nas liberdades econômicas.  O século XXI já mostra que o mercado sem regulação expõe a sociedade a situações de crise. Todas essas preocupações desaguam na absoluta necessidade da economia global preparar-se para a “quarta revolução industrial”, fenômeno que atingirá todos os países do mundo e transformará a forma de viver, trabalhar e de relacionamento social. No início do século XXI, a eletrônica e a tecnologia da informação permitiram a automatização da produção e propiciaram grande transformação digital. A “quarta revolução industrial”, que chega a passos largos, ensejará fusão de tecnologias, em áreas como armazenamento energético, inteligência artificial, robótica, internet das coisas, veículos autônomos, impressão 4D, nanotecnologia, biotecnologia e computação quântica, o que poderá mudar até conceitos da física, digital e biológica.

Essa nova realidade obriga o Estado modernizar-se para exercer a sua imprescindível função de “regulador social” e as empresas reexaminarem a forma como fazem seus negócios. Tem razão o economista britânico, Paul Collier, professor convidado em Oxford, ao também propor a reinvenção do capitalismo contemporâneo, através de formas pragmáticas, que permitam oferecer a prosperidade para todos e não só para alguns. Certamente, para alguns “ideólogos” contemporâneos, o Manifesto de Davos seja considerado obra “subversiva”, ou “comunista” (!!!), o que significa verdadeira aberração. A tese de Klaus Schwab traduz apelo à lucidez do capitalismo internacional. Não há dúvidas de que a estatização dos meios de produção é maléfica. Mas, o “liberou geral (laissez-faire) também é.





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