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Análise: o giro que vira jirau
Publicado: 00:00:00 - 19/01/2022 Atualizado: 22:11:26 - 18/01/2022
Ney Lopes
Jornalista, ex-deputado federal e advogado

Adversários tradicionais, o ex-presidente Lula e o ex-governador paulista Geraldo Alckmin dão sinais de “aliança”, com o petista candidato a presidente e o ex-tucano a vice. No RN, o mesmo fenômeno político se repete, quando se anuncia “acordo” da governadora Fátima Bezerra (PT) com o senador Garibaldi Alves Filho (MDB), ambos historicamente em posições antagônicas.

No caso de Lula e Alckmin sempre foi tenso o relacionamento passado entre os dois. O ex-governador de São Paulo chegou a associar o PT à facção criminosa PCC. Por outro lado, o petismo levantou assunto indigesto para os tucanos em 2002, vinculando recursos desviados da empresa pública paulista DERSA ao financiamento das campanhas de José Serra a presidente e Alckmin a governador de SP.

O quadro político no RN se prenuncia igualmente complexo. O desfecho dependerá da conveniência pessoal do ex-presidente Lula, a quem a governadora Fátima Bezerra guarda total lealdade. A orientação nacional do PT é abrir diálogo com todos, mas já surgem reações internas no bloco governista estadual.
Quanto a chapa Lula vs Alckmin, a primeira pesquisa de avaliação colheu 48% de rejeição popular. Certamente, esse índice aumentou, após o ex-governador demonstrar preocupação com o anuncio de Lula, de que revogará, se eleito, a reforma trabalhista, aprovada em 2017, a qual Alckmin defendeu. Incontinenti, a presidente do PT não deixou por menos e retrucou: “já temos o caminho, que será a revogação”.

Sempre imprevisíveis, as alianças têm sido práticas usadas pelas lideranças na velha e nova república. Algumas deram certos, outras errado. No RN recorde-se uma das mais antigas, no ano de 1955, no famoso “acordão”, sugerido pelo então vice-presidente da República, João Café Filho, que juntou no mesmo palanque, pessedistas, udenistas e pessepistas, elegendo Dinarte Mariz, governador; Georgino Avelino, senador e os suplentes cafeístas, Reginaldo Fernandes e Sérgio Marinho. O adversário de Dinarte foi o deputado udenista, Jocelyn Villar, que aderira ao PSD de Theodorico Bezerra, o PR dos Rosados e o PTB de João Francisco da Motta e do seu filho, então deputado estadual, Clovis Motta.

Exemplo fracassado de aliança no plano nacional, ocorreu entre Getúlio Vargas e o secretário-geral do Partido Comunista do Brasil, Luís Carlos Prestes. Ambos dividiram o palanque em eleição no estado de SP, apoiando o candidato Carlos Cirilo Júnior, que competia contra  Novelli Júnior, genro do presidente Eurico Dutra. O acordo causou estranheza, pelo fato de que, na ditadura de Vargas, Prestes tenha sido preso por nove anos e sua esposa, Olga Benário, entregue grávida à Alemanha nazista. A aliança deu errado. Os eleitores não assimilaram e elegeram Novelli Júnior.

Para a eleição de 2022 estão na vitrine as possíveis alianças de Lula e Alckmin; Fátima e Garibaldi. Pelo andar da carruagem, a previsão é que o ex-governador de SP tente fazer um giro, mas faz um jirau. O deputado federal Rui Falcão, ex-presidente do PT e um dos articuladores das campanhas de Lula, afirmou que o ex-tucano representa uma contradição a tudo o que o partido fez e quer fazer. Foi mais adiante: “Lula não precisa de uma muleta eleitoral”. Até Dilma já preveniu Lula, ao dizer-lhe: “O Geraldo Alckmin será o seu Michel Temer. Quando você mais precisar, ele ficará à disposição da oposição para tomar seu lugar”.

Por outro lado, a indagação é se o acordo de Garibaldi com Fátima corre o mesmo risco. A deputada federal Natália Bonavides (PT) é firmemente contra. O vice governador Antenor Roberto não escondeu palavras, ao declarar na 98 FM, que “não seria uma aliança eleitoral acertada”. Ele prosseguiu, lembrando que o PT terá de explicar porque estará aliado ao MDB, se em 2018 levantou o discurso de “combate às oligarquias”, representadas por figuras como o ex-governador Garibaldi Alves, que comanda o partido no Estado. “As oligarquias por muito tempo governaram o RN e foram as responsáveis por fazer o Estado chegar às condições em que chegou” - concluiu.

Na verdade, com aliados deste tipo, nem Alckmin, nem Garibaldi precisam temer adversários políticos.

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