Anais folclóricos da política

Publicação: 2020-08-04 00:00:00
Valério Mesquita
Escritor

O dr. Manoel Teixeira de Araújo fazendo um exame oftalmológico, tempos atrás, no longínquo São João do Sabugi, dentro daquelas primitivas condições, convidou a cliente para pronunciar as letras segurando uma tabuleta: “Por favor, leia?”. A paciente, na sua ingenuidade sertaneja respondeu com calma e convicção: “Doutor, ler mesmo eu não sei não, mas essa menina que tá aqui pode fazer isso por mim. O que eu quero “mermo” é os óculo”.

02) Entediante e enfadonha é a vida do médico candidato. Da receita nunca foge. Longas e intermináveis filas com a mesma monotonia e repetição. Certa vez, o pediatra Dari de Assis Dantas, já exausto, contempla no corredor um imenso “caracol” de gente. Sem pestanejar achou uma fórmula inteligente de abreviar aquela servidão imposta pelo juramento de Hypocrátes. Quando uma mulher se aproximou com seis filhos menores anêmicos e barrigudinhos receitou de pronto: “Para dona Maria Alexandre e filhos, 06 vidros de Pantelmim”. Era verme demais. Grosso e varejo. 

03) Último dia de sessão, o plenário estava repleto de beldades. Bem no centro uma loura chamava atenção pela sua beleza ao lado de outra “bem feinha”. Do plenário da Assembleia um conhecido parlamentar chamou um colega e confidenciou: “Tá vendo na galeria aquela lourinha bem bonitinha?”. “Estou”, respondeu o outro deputado todo curioso. “Eu estou “faturando” a outra ao lado dela”, explicou dolorosamente.

04) Certa vez, à tarde, entra apressado para cobrir os trabalhos legislativos, o jornalista Joaquim Pinheiro e no corredor vai logo perguntando ao garçom Guedes se a sessão já havia começado. O servidor, entre solene e compenetrado dispara: “Tá, tá, faltando “cloro”!”. Joaquim riu e compreendeu que às 16 e 30 a Assembleia nunca realmente atingiu o quorum regimental.

05) Recente pesquisa de qualidade, patrocinada pelos contraventores do jogo do bicho, procurou detectar o grau de privacidade dos motéis com relação ao seus frequentadores. Os resultados não foram tão animadores assim. Um conhecido parlamentar, após todos os cuidados preliminares foi reconhecido por um neófito porteiro ao ultrapassar os umbrais de uma casa do amor. Sisudo, ao receber a chave, surpreendeu-se com a interpelação do funcionário: “Deputado, foi bom o senhor vir aqui!!”. Um frio de morte desceu da cabeça até as vísceras legislativas. “Ta lembrado de mim, seu eleitor?”. A essa altura nem o viagra reanimava mais o libido parlamentar. Devolveu a chave e numa ré de cantar pneu perdeu-se no naufrágio daquela noite escura de megasena adiada.

06)  Parece que a onda de minuto de silêncio pegou nos candidatos a vereador. O objetivo é claro: não perder os votos da família do desaparecido. Numa manifestação fúnebre na Vila São José, bairro periférico de Macaíba, o ex-vereador e então candidato Moacir Gomes, ao usar a palavra, inicia o discurso rogando aos assistentes um minuto de silêncio pelo falecimento de uma pessoa do bairro. O seu assessor e cabo eleitoral, ao lado, imaginando o tamanho da família do falecido, sopra imediatamente no ouvido de Moacir: “Um minuto é pouco. Peça cinco! Tem muito voto lá!”.

07) Numa campanha política, Caicó viveu momentos memoráveis. O candidato Vivaldo Costa quando discursava dizia verdadeiras parábolas, sermões com aquela voz cheia, reforçada pelo gosto de coalhada com rapadura da fazenda Trapiá. Explicava no palanque: “Irami Araújo quando era do nosso lado, a Oposição o taxava de ladrão de farinha. Aderiu, foi pro outro lado, agora é santo. Silvio Santos quando era do meu lado, era chamado de ladrão do SUS, agora virou santo duas vezes” e virando-se para Nilson Cabecinha, triste e cabisbaixo, o “papa” foi cruel no convite: “Ô Nilson, por que você também não vai logo para o outro lado!”.



Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.