Economia
Analfabetismo dificulta acesso ao mercado de trabalho
Publicado: 01:00:00 - 21/10/2018 Atualizado: 10:42:57 - 21/10/2018
Ricardo Araújo
Editor de Economia

Aos 62 anos, o contra-mestre de obras Pedro Bernardo realizará um sonho da juventude: ingressar no Ensino Médio. Ao longo de aproximadamente seis décadas de vida, ele foi um analfabeto funcional, que minimamente conseguia ler e realizar contas matemáticas básicas. Pedro Bernardo deixou para trás, depois de 15 anos sem entrar numa sala de aula, uma realidade que hoje atinge cerca de 3 em cada 10 trabalhadores brasileiros conforme Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf 2018).

Ricardo Araújo
Pedro Bernardo deixou para trás o peso do analfabetismo e ingressará, em breve, no Ensino Médio

Pedro Bernardo deixou para trás o peso do analfabetismo e ingressará, em breve, no Ensino Médio

Pedro Bernardo deixou para trás o peso do analfabetismo e ingressará, em breve, no Ensino Médio

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No Rio Grande do Norte, a realidade é ainda mais dura. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) expõem que 13,5% da população a partir dos 15 anos não sabe ler e escrever, o que corresponde a aproximadamente 376 mil potiguares. Os reflexos da falta de letramento são inúmeros.  “O analfabetismo adulto representa um grande entrave ao desenvolvimento do Estado e da região Nordeste e o motivo para esse problema decorre da falta de oportunidades de acesso a escolas e creches das gerações nascidas no século passado. Além disso, existe uma carência histórica de política efetiva para redução do analfabetismo adulto”, analisa Flávio Queiroz, supervisor de Disseminação de Informações do IBGE/RN.

Ao analisar a quantidade de analfabetos no Estado, ele identifica que dos 376 mil potiguares analfabetos, 371 mil têm mais de 25 anos de idade e, nesse grupo, estão 326 mil com idade maior que 40 anos. A taxa de analfabetismo no Rio Grande do Norte é quase o dobro da nacional, de 7%, conforme o IBGE. O Plano Nacional de Educação (PNE) estabeleceu como meta que deveria ter sido cumprida em 2015, reduzir o índice nacional a 6,5%.  “Para alcançar a meta do PNE ou chegar pelo menos próximo da taxa média de analfabetismo do Brasil, o Rio Grande do Norte terá de alfabetizar aproximadamente 180 mil pessoas, quase todas fora da idade escolar. Isso é um problema grave cuja solução depende de uma consistente política de alfabetização de adultos”, destaca Queiroz.

De acordo com a coordenadora pedagógica do Sesi/RN, Mirtes Triguiero, a maioria dos trabalhadores sem letramento se encontra na construção civil. “O índice maior é nesse setor, em decorrência do perfil do trabalho, que não requer conhecimento específico para a atividade mais rudimentar”, afirma a pedagoga. Ela comenta, ainda, que um canteiro de obras com um elevado número de analfabetos ou analfabetos funcionais acaba se tornando um risco para a empresa. “O risco de acidente de trabalho é maior, pois a maioria dos trabalhadores não compreendem as normas, as placas e os quesitos de segurança dispostos na obra. Tem trabalhador que não reconhece o próprio nome no cartão de ponto, o que é lamentável”, ressalta Mirtes Trigueiro.

Na tentativa de mudar realidades e proporcionar melhorias na vida dos trabalhadores, empresas do setor investem em escolas dentro dos canteiros de obras. Foi numa delas que Pedro Bernardo ingressou e conseguiu concluir os Ensinos Básico e Fundamental.

“Eu começava a estudar e parava. Da última vez que parei,  passei 15 anos longe da sala de aula”, relembra o trabalhador e complementa. “Quando a gente tem ensino, tem mais possibilidade de melhorar de vida.  Eu tinha dificuldades de encontrar trabalho porque não entendia o que tinha num projeto, não sabia ler e entender. Hoje, eu já digo aos meus netos que, sem estudo, a gente não vai muito longe”, declara Pedro Bernardo. Ele faz parte de um projeto de erradicação do analfabetismo promovido pela construtora Constel nos seus canteiros de obras. Desde 2009, cerca de 150 trabalhadores/alunos foram formados nos Ensino Básico, Fundamental e Médio.

A empresa mantém, através de uma parceria com o Sesi/RN, aulas de segunda a quinta-feira, sempre ao final da jornada de trabalho, com material didático, instrutor e espaço fornecidos gratuitamente aos trabalhadores interessados. Para os que cursam o Ensino Médio, as disciplinas são ministradas à distâncias e, uma vez por semana, um instrutor vai ao canteiro de obras tirar dúvidas dos estudantes. “O projeto foi iniciado em 2009 com o objetivo de ampliar o conhecimento dos trabalhadores e contribuir para o crescimento pessoal e profissional”, enfatiza Thaiza Reinaldo, assistente de Recursos Humanos da empresa.


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