Antes de escolher candidato eleitor cuida é de sobreviver

Publicação: 2021-02-24 00:00:00
Cassiano Arruda Câmara

Vivendo os efeitos de uma Pandemia já há um ano, o RN venceu o período em que a sua grande classe média tem maior convivência com a classe dominante (e também com as maiores expressões políticas), no tempo que vai até o carnaval nas inúmeras praias de veraneio, em 400 quilômetros de litoral. É quando, normalmente, surgia a antecipação de tendências de grupos e nomes para a eleição do ano seguinte. Mesmo sem obedecer a nenhuma lógica, na maioria das vezes.

Fevereiro está terminando domingo, o Carnaval passou, e os observadores não contarão com os elementos capazes de estimular o lançamento dos balões de ensaio que estimulavam de alguma forma a discussão dos assuntos, pelos próprios grupos políticos.

Na verdade, se conversou muito pouco no veraneio desse começo de ano, sobre assuntos de interesse ao pessoal do ramo da política.

E o próprio quadro político está ainda mais confuso do que na eleição anterior, quando foi registrado a maior renovação e as principais lideranças foram quase todas escanteadas.

TEMPO DE MUDANÇA
Depois da eleição de 2014, todos os ex-governadores do Estado – que representaram sempre as maiores lideranças políticas estaduais - terminaram sem mandato. Inclusive o eleito naquele 2014, Robinson Faria, que, surpreendentemente havia derrotado a união dos partidos e maiores lideranças estaduais, que haviam se unido para apoiar o deputado Henrique Alves, único norte-rio-grandense a presidir a Câmara Federal. Henrique, sem mandato, terminou preso 11 meses pelos investigadores da Operação Lava Jato, mesmo sem ter nenhuma condenação. Isso, depois de ter sido Ministro de dois governos depois da eleição governamental.

Derrotada pela atual governadora Fátima Bezerra para o Senado em 2014, a ex-governadora Wilma de Faria, morreu três anos depois, quando exercia mandato de Vereadora em Natal, vítima de um câncer. Sua morte marcou o início do desencadeamento de um efeito dominó que atingiu todos os ex-governadores do Estado (Garibaldi Alves, José Agripino, Geraldo Melo, Lavoisier Maia, Rosalba Ciarlini, Robinson Faria).

Enquanto isso, os partidos políticos foram implodindo; criando-se aqui uma situação única no País. Os oito deputados federais do RN representam oito legendas diferentes, num jeito de fazer política que a mudança na atual legislação eleitoral inviabiliza para 2022.

SITUAÇÃO ASSINTOMÁTICA
Não é só o Covid-19 que tem situações assintomáticas. A política também pode ter. É assim que o quadro atual pode ser definido. Prova disso é que não existem nomes, nem partidos, para uma campanha de Governador, daqui a 15 meses (exceto quem exerce o poder).

É verdade que a pandemia tem seu peso. – Como fazer política sem aglomerar pessoas?

Isso pode explicar que no fim do Veraneio deste ano, não se pode identificar uma tendência expressa nas conversas à beira mar, que perderam sua antiga importância e abrangência.

Num país onde os institutos de pesquisas perderam sua capacidade profética não serão conversas de quem não tem o que fazer que podem substituí-los... Mas, no ano anterior, quem for buscar esse efeito, quando não havia restrição às conversas, o máximo que se pode destacar, é que o se dizia de mais otimista sobre o prefeito Álvaro Dias profetizando que ele chegaria a um Segundo Turno. Elegeu-se logo no primeiro, muito provavelmente em razão de sua atuação no combate ao Covid (que só apareceu em março) reconhecida pelo eleitorado, enquanto uma dúzia de adversários fez campanha só o atacando.

SEM LÍDER E SEM PARTIDO
Tendo, até então, o PT como único partido atuando como tal, o Rio Grande do Norte em 2018 votou em Bolsonaro aqui sem ter contado  com nenhum apoio de expressão, o que significa dizer que votou contra o PT. Mas, contraditoriamente, elegeu a candidata petista ao Governo do Estado, Fátima Bezerra. - Fátima venceu mas levou pouca gente com ela.

No Geral, o RN deu um voto “solteiro e promíscuo”, segundo um cientista político, dos que abundam por aqui.

Optando pelo voto de direita para Presidente da República, o RN elegeu ainda a senadora Zenaide Maia que foi uma deputada esquerdista, e o capitão da PM Styverson Valentim, que quase não fez campanha (sem presença na tv nem distribuir cartazes), depois de ter comandando uma operação de combate ao consumo de álcool por automobilistas. Atuação que lhe abriu muito espaço na mídia. Fez campanha contando basicamente com a própria movimentação e pelas redes sociais, mesmo num volume considerado modesto

Dois anos depois, os eleitos em 2018, não conseguiram demonstrar capacidade de transferir votos. Styverson, o maior fenômeno recente, apresentou um candidato a Prefeito de Natal que só teve três por cento dos votos.

PROGNÓSTICOS COMPLICADOS
Como Partido do Governo (que vinha sendo sempre o maior do RN), o PT teve resultado pífio na eleição municipal. Seu candidato a Prefeito de Natal, o senador Jean Paul Prates (suplente de Fátima) teve a melhor performance, ficou em segundo lugar. E no interior manteve as antigas posições, menos de cinco prefeituras em 167 municípios.

Quem melhor se estruturou no vácuo que foi sendo criado na política potiguar foi o Partido da Assembleia: o PSDB, comandado pelo deputado Ezequiel Ferreira, um dos poucos que tem feito política em tempo integral (dentro do velho princípio de que Política é Conversa). Seu maior feito foi conquistar a filiação do prefeito Álvaro Dias, que havia sido candidato a Vice de Carlos Eduardo, pelo MDB.

Correndo por fora, estão dois Ministros de Bolsonaro (Rogério Marinho, Desenvolvimento Regional, e Fábio Faria, Comunicação). E cada um deles com programas de muita visibilidade. Marinho comanda a transposição das águas do São Francisco ao RN; e Faria a implantação do sistema 5G de telefonia móvel.

A confusão é tão ampla que nem os especialistas são capazes de escalar, hoje, quem no RN joga no time do Governo ou no time da Oposição.

Num quadro tão complicado, o primeiro desafio está sendo fazer o eleitor vir a se interessar por política, quando a luta de cada um está sendo a própria sobrevivência.  Política só pode começar a interessar ao eleitor quando a pandemia for vencida...








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