Antes que eu me esqueça

Publicação: 2018-04-17 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Valério Mesquita
Escritor

01) Em Brasília, o gabinete do então deputado Ney Lopes de Souza recebeu a visita do desembargador potiguar Rafael Godeiro para um papo descontraído. Conversa vai, conversa vem, Ney pergunta pelo advogado Otoni Tomaz e salienta que gostaria de endereçar-lhe alguns livros sobre a sua atuação parlamentar. E, de pronto, consulta ao desembargador se o causídico escreve o seu nome com “i” ou com “y”. O doutor Rafael com aquela voz grave e arrastada pontua solenemente: “Com “i” mesmo deputado. Ele continua pobre, além de baixinho...”.

02) Transcorria em Ponta do Mel uma festa para os colonos, sob a direção do prefeito Cortez Pereira. A Superintendência da Petrobrás foi convidada, pois falava-se na possibilidade de petróleo naquela área. Uma moça muito bonita, filha de um vereador, dava as boas vindas a todos. Ao ser apresentada a um engenheiro bonitão, a moça sentiu-se atraída pelo rapaz. “Muito prazer, senhorita”, disse o profissional. “Quanta beleza numa só pessoa. Muito prazer, mesmo”, fechou o cumprimento beijando a mão da jovem embevecida. A moça, encantada e inebriada soltou essa pérola de orgasmo: “O gozo é todo meu”.

03) Raimundo Pereira era prefeito do município  de Grossos e concorria à reeleição. Era líder inconteste na chamada Salinésia. A oposição, ávida para derrotá-lo, lançou o seu filho Duquinha. Aí não precisa dizer que a campanha foi baixa e incendiária. O filho sabia que o pai era honesto, mas explosivo. Tudo fazia para provocá-lo. Contratava pinguços e desocupados para “melar” os comícios, inclusive acusando o prefeito de desviar o dinheiro público. Raimundo rebatia chamando-o de “filho ingrato” e caluniador. Certa noite, em movimentada concentração pública, sentindo-se atingido na honra, o prefeito revirou os bolsos e exclamou colérico: “Aqui nunca entrou dinheiro público!”. Da multidão um gaiato exclamou: “Tá de calça nova, heim, Raimundo?”. Aí o tempo fechou com o prefeito correndo no meio do povo para agredir o galhofeiro.

04) O perito João Tavares trabalhou trinta anos no Detran. Hoje, aposentado, reside em Ceará-Mirim.  Era bacurau “cinco estrelas”. Batizou a filha duas vezes para tomar Aluízio Alves como padrinho, passando-o a chamá-lo, “compadre governador”. Certa vez, fez-lhe um pedido de transferência para Nova Cruz. Na ótica dos circunstantes, Aluízio não poderia faltar ao compadre. E assim, prometeu estudar o caso. Quinze dias depois, a nomeação saiu. João Tavares voltou ao compadre e cobrou, agora, sua ida para Nova Cruz. Nesse ínterim, a prefeita do município, Joanita Arruda Câmara, sabedora do caso, veio ao governador e vetou a transferência de João Tavares por julgá-la inconveniente politicamente. Voltando a cobrar, o compadre Aluízio, agiu com sabedoria política incomparável. Chamou-o a um lugar reservado e confessou de maneira salomônica e patética que “não poderia abrir mão de sua presença no Detran e por isso “suplicava” esse sacrifício do compadre em benefício da reconstrução do novo Rio Grande do Norte”. Só o cigano Aluízio poderia convencer. Era um inigualável encantador de serpentes.

05) O município de João Câmara vivia a era áurea de Chico da Bomba, o mais folclórico prefeito de todos os tempos. O governo do estado mandou construir uma caixa d’água para o abastecimento da cidade. O arquiteto da construtora caprichou tanto no projeto ao ponto de chamar a atenção da população. Inclusive, a do próprio Chico da Bomba que logo procurou o escritório da empresa. “‘Dotô”, essa caixa tá torta”, observou o prefeito. E, de repente, dezenas de populares dia e noite dividiam palpites sobre a edificação. Preocupado, os técnicos levaram o assunto à Caern. Numa visita do então governador Aluízio Alves, Chico da Bomba foi taxativo: “Governador, o engenheiro disse que a caixa d’água não desafia a lei da gravidade como estão pensando. Mas, o senhor pode espiar que ela tá torta”. Aluízio olhou e riu disfarçadamente. E, como nada respondeu, um vereador adiantou-se: “Acho que a solução é ‘nóis’ os vereadores ‘derrubar’ essa tal lei da gravidade para salvar a caixa”. Aí Chico da Bomba passou-lhe uma bronca: “Vocês sabem que não podem, pois essa lei é federal!!!”. Aluízio esboçou um largo sorriso, desagravando a lei e a “inocência” do correligionário.


continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários