Antologia põe potiguares no panteão do choro

Publicação: 2012-06-08 00:00:00 | Comentários: 1
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Yuno Silva - repórter

Inspirada no antológico “O Choro: reminiscências dos chorões antigos”, livro do cantor e cavaquinista carioca Alexandre Gonçalves Pinto (1870-1940) publicado em 1936, a flautista norte-americana Julie Koidin mergulha no universo da mais erudita das vertentes populares da música brasileira e apresenta “Os sorrisos do Choro: uma jornada musical através de caminhos cruzados”, obra que traz um registro significativo de toda uma geração de instrumentistas, compositores e personagens do quilate de Altamiro Carrilho, Hermeto Pascoal, Guinga, Sivuca, Yamandu Costa, Henrique Cazes, Paulo Moura e Carlos Malta.
Canindé SoaresO potiguar Carlos Zens foi um dos nomes incluídos na obra de Julie Koidin, cuja pesquisa durou quase uma décadaO potiguar Carlos Zens foi um dos nomes incluídos na obra de Julie Koidin, cuja pesquisa durou quase uma década

A pesquisa de Julie levou quase uma década ser concluída, reúne 52 entrevistas (transcrições na íntegra) e destaca nomes do Rio de Janeiro, Brasília, Fortaleza, Recife, São Paulo e Natal. “Foi tudo muito por acaso: em junho de 2002, ela estava de passagem por Natal para descansar e, ouvindo o programa Chorinhos e Canções da rádio FM Universitária, quis conhecer quem estava tocando”, lembrou o flautista, cantor e compositor natalense Carlos Zens, que ao lado do instrumentista e compositor João Juvanklin representam os músicos do Rio Grande do Norte no livro de 514 páginas.

“Na época questionaram os motivos dela só ter conversado conosco, mas há dez anos não havia tantos discos lançados na praça e vários nomes que hoje atuam como compositores ainda se destacavam apenas como intérpretes”, justificou Juvanklin. O músico de Serra Caiada, que em 2002 tinha CD e song book lançados, contou que chegou a citar, durante a entrevista que concedeu à Julie Koidin, o irmão Franklin e o sobrinho Alexandre Moreira como outros representantes do choro potiguar. “Mas ela queria focar a pesquisa em compositores com trabalho lançado. Se fosse hoje, teríamos muito mais gente para indicar como Diogo Guanabara entre outros ótimos nomes”, garante o músico.

João Juvanklin prepara segundo song book e seu quarto disco de músicas autoraisPara ambos, o reconhecimento e a oportunidade de figurar ao lado de grandes personalidades da música nacional é a grande recompensa de ter participado do projeto. “Não quero chamar atenção, nem tenho mais idade pra isso e cheguei a pensar que o livro nem seria publicado, mas fiquei extremamente gratificado de estar ao lado nomes como Hamilton de Holanda, que na minha opinião está entre os grandes cavaquinistas da atualidade. Acredito que nossa presença no livro, minha e de Zens, serve para mostrar ao resto do país que aqui em Natal tem boa música sendo feita. Somos apenas a ponta do iceberg”, garante.

Aos 74 anos, João Juvanklin já lançou três discos inteiramente autorais e está fechando a produção do quarto álbum e de seu segundo song book (livro com partituras). Em 1998, editou o song book “Trinta e uma peças musicais” e gravou o CD “Bandolim, Cavaquinho e Violão”. “Estou na fase de documentar e deixar minhas composições registradas para as futuras gerações, é a minha contribuição com a cultura musical”.

DISCO DE ALTAMIRO CARRILHO, ACHADO EM SEBO NOS EUA, DEU INÍCIO AO INTERESSE PELO CHORO

Para Carlos Zens, o livro de Julie Koidin é um documento histórico, não só pela abrangência da pesquisa como também pela presença de músicos consagrados e muitos já falecidos como Sivuca e Paulo Moura. “É um trabalho incrível, ela juntou os maiores nomes do choro no Brasil e teve o cuidado de não se limitar aos grandes centros. Acredito que a obra oferece um ótimo material para quem se preocupa com a pesquisa do choro”.

Pesquisa para o livro "Os sorrisos do Choro: uma jornada musical através de caminhos cruzados" levou dez anos para ser concluída O flautista disse ser “muito legal” estar junto com grandes músicos do gênero, reconhecidos internacionalmente: “Isso dá boa visibilidade aqui pra nós do RN e reforça laços de amizade que já existiam”, verificou Carlos Zens, que apelidou a pesquisadora norte-americana de ‘Julie Cajá’ - “Ela simplesmente ficou fascinada com as frutas daqui do Nordeste, e virou fã do suco de cajá. Em todo lugar era só o que pedia”, diverte-se o músico.

Zens contou que Julie conheceu o choro brasileiro através de um disco do flautista Altamiro Carrilho, 87, encontrado em um sebo nos Estados Unidos. “Carrilho é um dos mestres do choro, nome obrigatório para flautistas de qualquer parte do mundo”, ressaltou Zens, explicando que a base do chorinho é formada pela dupla bandolim e flauta. Quando Julie esteve em Natal, Carlos Zens levou a norte-americana naquela primeira primeira roda de chorinho do Beco da Lama, bem antes de existir o Buraco da Catita. “Ficou encantada e, claro, pediu mais um copo de suco de cajá para acompanhar a galera na flauta”, recorda.

Segundo Zens e Juvanklin, Julie Koidin planeja vir a Natal no próximo mês de julho para lançar oficialmente o livro “Os sorrisos do Choro: uma jornada musical através de caminhos cruzados” (Global Choro Music) – disponível para compra em páginas eletrônicas de livrarias por preço médio de R$ 45 (o título também pode ser encomendado na livraria Saraiva).

MODA E RECEIO
Sobre o fato do samba e do choro estarem passando por uma nova onda de modismo no país, Zens acha válida a valorização, mas vê com ressalvas e receio a possibilidade da tradição ser enfraquecida com a mercantilização exagerada do gênero. “É muito amor, muita paixão, quando começo a ouvir entro até em depressão com a choradeira. Minha preocupação é essa vulgarização. O samba e o choro são muito mais que isso, vide as crônicas sociais e urbanas de Noel Rosa. Mas uma coisa é certa, eles nunca vão morrer, podem até agonizar, mas morrer não”.

Carlos Zens explicou que o choro é base instrumental da música brasileira, é a partir dele que se desdobraram o samba, o baião e o sertanejo raiz. “O choro é referência fundamental para a música brasileira, foi a maneira que encontramos para traduzir a música erudita europeia que desembarcou junto com a família real no início do século 19”.

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Comentários

  • ndapaiva

    Motivo para ser orgulho para todos natalenses/potiguares, essa informação deveria estar em todos os meios de comunicação do estado e ser estampada em cartazes e faixas em toda cidade, entretanto poucas pessoas conhecem essas preciosidades tão nossas. Conheço professores universitários com mais de meio século de vida, graduados e estudantes universitários que nunca ouviram falar nesses nomes. Ignorância associada à falta de divulgação dos valores da terra.