ANTONIO FRANCISCO, “Quatro léguas e meia de cordel” (2019, Imeph, 120 p.)

Publicação: 2020-02-19 00:00:00
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Um dos propagados cordelistas brasileiros da atualidade retorna com nova obra contendo uma dúzia de textos inéditos após mais de meia década sem publicar no estilo que lhe consagrou. Recentemente, o mossoroense apostou no verso livro escrevendo poemas a quatro mãos junto a outros nomes, mas o resultado foi trivial. Nesta nova obra, como diz o eu lírico em um dos cordéis: “E assim vivo batendo/ nas teclas do mesmo tema/ procurando uma brechinha/ pra escrever meu poema”. Realmente, não esperem novidades, pois o autor do fantástico enredo ecológico de “Os animais tem razão” (2005) apresenta breves narrativas sobre as injustiças do mundo (pobreza, desigualdade social e violência entre elas). Aqui e ali há referências metalinguísticas, caso de “A botija de Luiz Campos” – cordelista mossoroense falecido em data recente – e “O poema que ainda não fiz”, porém o que chama a atenção continua sendo a tonalidade margeando o conto às vezes fantástico, às vezes quase de fadas, mas com retoques tropicais. Exemplos disto são os ecológicos “Um planeta sem alma” e “O pássaro sem nome”. O surreal “O milagre do voto” envolve discos voadores (!) e uma utópica civilização narrada pela já folclórica figura do pescador contando uma daquelas estórias. Também se destaca a “A greve dos três ladrões”, expondo a irônica existência de uma cidade chamada Segurança e cuja atividade principal passa pela produção em série de itens de segurança (cadeados, algemas, cerca elétricas, tornozeleiras), mas que para existir precisava de ladrões, trazendo séria reflexão do que está errado na sociedade atual. E que o pacifista Antonio Francisco ainda tenha muitas léguas para gastar.

HILDA MACHADO, “Nuvens” (2018, Editora 34, 96 p.)
Cineasta de curtas-metragens e Professora de Cinema na UFF, falecida em 2007 da mesma causa de Ana Cristina César, a carioca somente publicou uma dupla de poemas em vida, embora tivesse registrado estas “Nuvens” na Biblioteca Nacional ainda nos anos de 1990 (sinal que desejava publicar a obra algum dia). Foram encontrados 32 poemas para a edição final deste livro e nos versos – a maioria trazido na linha curta, com apenas seis deles ultrapassando a página única – há uma dicção que se desdobra entre uma breve herança da Poesia Marginal (esta quase uma sombra na recente poesia brasileira) e a multiplicidade da lírica contemporânea, fazendo de qualquer tema o fato gerador do poema (por sua vez, uma herança modernista). Nos textos mais exemplares da obra, as tintas recaem na fragmentação do prosaico, como nos quebradiços “O nariz contra a vidraça” e “O cineasta do Leblon”, além da narrativa drummondiana em “Um homem no chão da minha sala”. Em outros casos, há poemas de linha única, a exemplo de “Paneiras V”, ou o dístico “O homem rico”, ambos plenamente esquecíveis. Na lembrança final após a leitura – e após a curteza da grande parcela dos versos –, sobram na memória as imagens contendo realidades estranhas, a exemplo de “Sagitariana” (Parar/ de fazer mil coisas ao mesmo tempo/ de bater de encontro às coisas/ de encontrar elefantes dentro das lojas/ Sou de porcelana). Se Hilda teria mais outras nuvens poéticas a dissipar seus desenhos, a gravidade e a fragilidade da vida acabaram por não deixar isto acontecer.


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