Antropologia poética: O documentário 'Rosa de Aroeira' foi selecionado para participar do Los Angeles Brazilian Film Festival

Publicação: 2020-10-22 00:00:00
Tádzio França
Repórter

A Comunidade do Reduto, em São Miguel do Gostoso, oferece bem mais que as belezas de um típico ambiente litorâneo. Foi o que a produtora cultural Mônica MacDowell sentiu e registrou no documentário “Rosa de Aroeira”, a sua primeira incursão no audiovisual. O curta foi selecionado para participar do renomado Los Angeles Brazilian Film Festival, dentro da mostra competitiva BWIE. A 13ª edição do evento já começou e seguirá até o dia 25/10 (domingo) em formato online, tendo na programação o filme em que Mônica exibe as histórias de vida e luta de quatro mulheres da comunidade potiguar. 

Créditos: Fotos: DivulgaçãoDocumentário de 20 minutos fala sobre o cotidiano das personagens Dona Neuza, Dona Deuzuite, Dona Gracinha e RobériaDocumentário de 20 minutos fala sobre o cotidiano das personagens Dona Neuza, Dona Deuzuite, Dona Gracinha e Robéria

“Rosa de Aroeira” é um registro poético e antropológico de 20 minutos sobre o cotidiano das personagens Dona Neuza, Dona Deuzuite, Dona Gracinha e Robéria, quatro mulheres diferentes com muitas coisas em comum. São pessoas que passaram a fazer parte da vida de Mônica MacDowell há cinco anos, desde que ela conheceu e se apaixonou por esse pedaço de São Miguel do Gostoso. A produtora adquiriu um terreno na comunidade e passou a se envolver cada vez mais com a vida do lugar. 

Reduto feminino
Reduto é uma mistura de sítio com praia. Tem o encanto bucólico dos dois. “E tem as pessoas, que ainda sentam na calçada pra conversar, bordar, rir, passar o tempo. Assim comecei minha amizade com elas”, diz Mônica à Tribuna do Norte. Numa dessas idas à comunidade, ela conheceu a casa de farinha, um lugar onde todo o trabalho é feito pelas mulheres. “Eu fiquei muito impressionada. Quinze mulheres descascando mandioca, fazendo todo o processo. Foi ali que tive o 'insight', vi que estava numa comunidade de trabalhadoras. Eu tinha que registrar isso”, diz. 

De forma despretensiosa, Mônica começou a filmar com a câmera de seu celular. A ideia inicial era apenas fazer um vídeo para mostrar à comunidade. A produtora escolheu as quatro personagens, registrando suas falas, e o processo foi ganhando corpo. “Estava ficando muito bonito. Os relatos eram vibrantes. Senti que aquilo tinha potencial para mais”, afirma. 

O cotidiano das quatro mulheres logo ganhou um tema, “Rosa de Aroeira”, composto pela cantora Valéria Oliveira, a pedido de Mônica. Para a montagem, a produtora pediu o auxílio profissional de Larinha Dantas. “Foi a Larinha, enquanto editava, que fez a sugestão de que aquele material renderia um bom documentário”, diz. Ganhando uma roupagem mais profissional, “Rosa de Aroeira” foi finalizado após dois anos de processo. O curta/documentário foi lançado no Festival Macambira, em Natal, em março de 2020. 

A professora e jornalista Andréa Mousinho escreveu que “o documentário é um texto visual composto de metáforas em que os enquadramentos e as angulações das personagens e do ambiente retratado, elaboram e produzem imagens vastamente impregnadas de poesia e sensorialidade”. Segundo ela, a afabilidade com que Mônica MacDowell captou e bordeou as imagens, revela uma escrita iminentemente feminina. “Escritura estética que dialoga didaticamente com a paisagem feminal do lugar, com as personagens retratadas, e com a força de trabalho presente no dia a dia árduo dessas mulheres potiguares”, completou. 

Mônica confessa que foi uma grande surpresa seu material, nascido de forma tão despretensiosa, ter sido selecionado para integrar a programação daquele que é considerado atualmente o maior festival de cinema brasileiro nos Estados Unidos. “Eu inscrevi o filme em alguns festivais, mas ter sido selecionada para o LABRFF foi incrível. Sei que está concorrendo numa mostra, mas não guardei expectativas quanto a isso. Só de ter sido selecionada já considero uma vitória”, ressalta. 

A diretora afirma que sua maior vontade no momento é exibir o filme em São Miguel do Gostoso. Algo que só acontecerá após a pandemia. Além do festival em Los Angeles, “Rosa de Aroeira” também teve seleções para outros festivais como:  I Mostra Latino-americana de Filmes Etnográficos da Semana de Antropologia da UFRN em outubro de 2020; Mostra SESC Ceará de Cultura; e o Festival Internacional de Curtas no Rio de Janeiro (1º FIC RIO) - concorrendo na categoria de Melhor Documentário - com datas de exibição a serem definidas.