Aos 26 anos, Eugênio Gomes é o treinador mais jovem da história do futebol do RN

Publicação: 2020-09-27 00:00:00
Anthony Medeiros
Repórter

Santa Cruz e Potiguar entraram em campo no dia 10 de fevereiro de 2020 pelo Campeonato Potiguar. Aquela partida, disputada na tarde de uma segunda-feira no estádio Frasqueirão, foi vencida pelo clube mossoroense por 2x1, o que não influenciou de forma direta os rumos finais do certame. No entanto, para um elemento específico do confronto, o duelo teve importância singular, que gravou seu nome na história do futebol do RN.

Eugênio Gomes, comandante do Santa Cruz na ocasião e que naquele dia tinha 26 anos e 98 dias de idade, se tornou o mais jovem treinador a comandar uma equipe profissional da modalidade no estado. Apesar do insucesso ao final dos 90 minutos, aquele foi um importante degrau para o jovem profissional, que sonha alto e tem em seu histórico participação direta na formação de Gabriel Veron, maior joia do futebol potiguar nos dias atuais.

Créditos: José Carlos BorgesEugênio Gomes é membro fixo da comissão técnica do elenco profissional do Santa Cruz desde 2018Eugênio Gomes é membro fixo da comissão técnica do elenco profissional do Santa Cruz desde 2018

Natural de Natal, Eugênio é membro fixo da comissão técnica do elenco profissional do Santa Cruz desde 2018, quando recebeu a chance de comandar o clube após o então comandante do Santa, Léo Goiano, ter deixado o clube para aceitar uma proposta mais atrativa do futebol do Norte do país.  “As conversas que eu tinha com a direção do clube era que esse dia [estreia como técnico] estava chegando, então vinha me preparando. Mas fiquei surpreso, sim, por ser tão jovem. No entanto, apesar de novo, já estou no futebol há algum tempo e estive esperando por esse momento preparado para quando isso fosse acontecer”, comentou.

Quando se recorda do que o motivou para um caminho tão específico, o treinador aponta para 2004, quando tinha apenas 9 anos, e viu, do outro lado do continente, um treinador que não tinha o padrão ao qual o futebol estava acostumado para um profissional da função. Era o português José Mourinho, naquela altura em sua quarta temporada como treinador e aos 41 anos, que levava o Porto ao título da Liga dos Campeões, principal competição continental da Europa. Sem uma trajetória notável enquanto jogador profissional, assim como Eugênio que jogou nas categorias de base de clubes do RN, Mourinho decidiu ser treinador e se capacitou para isso.

Em 2010, novo triunfo do mesmo torneio, desta vez com a Internazionale/ITA, para o currículo do português. Pronto. O menino potiguar, que acompanha à distância, agora com 17 anos, decidiu que queria ser treinador de futebol. Ao passo que já sonhava aonde queria chegar, sabia que a trajetória não seria fácil. “Sabia que tudo era difícil. Meus pais passaram dificuldades para sustentar meus irmãos e eu, então eu sabia que teria que ralar para conseguir chegar aonde eu queria, que era ser treinador de futebol. Esse meio é fechado, então eu tinha que me esforçar ainda mais pra poder entrar, aprender e mostrar o que era capaz”, avaliou.

Após concluir o ensino médio, deu início à sua primeira formação, no curso de jornalismo. Conciliava os estudos com o trabalho em uma sorveteria da família em Ponta Negra, mas faltava o start em seu sonho. Em 2013, após seis meses de insistência com a direção do ABC, começou como técnico da escolinha de futebol do clube. Não era, oficialmente, parte das categorias de base, mas ele sabia que aquela seria uma oportunidade para entrar no universo que sonhava estar.

Foram dois anos na função, sempre nas manhãs dos domingos, sem que fosse remunerado por isso. Era uma forma de auxiliar na formação de crianças que sonhavam a dar seus primeiros passos na modalidade e engatinhar junto com elas no mundo da bola. Após isso, acumulou passagens pelas bases do Visão Celeste e Globo, sempre como auxiliar técnico ou preparador físico das categorias inferiores. Já era uma ascensão profissional, ainda que não rendesse vencimento algum no final do mês. "Muita gente questionava se valia a pena, mas eu sabia muito bem aonde queria chegar", revela.

Na passagem pelo clube de Ceará-Mirim, conheceu o técnico Higor César, peça fundamental para que o técnico esteja, atualmente, no Santa Cruz. Em 2016, foi o próprio Higor que levou Eugênio para ser seu auxiliar no profissional do clube, na disputa da 2ª divisão do profissional. “Pensei no que poderia ser pra mim. Já sabia quem era João Quebra Osso e Lupércio Segundo, conhecia o trabalho deles com jovens. Inicialmente ía ser analista, mas Higor me levou pra ser auxiliar. Lembro até hoje, do segundo dia de pré-temporada, me apresentando para todos, tenho o uniforme até hoje”, comenta.

Em 2017, assumiu as categorias de base do Santa, clube o qual obteve bons resultados que o credenciaram para a estreia como técnico apenas aos 26 anos. Após o desafio neste ano, os próximo passos ainda são incertos, mas Eugênio garante estar preparado para dar sequência ao comando do profissional se a direção do Santa Cruz decidir. “Essa definição [sobre a permanência] ainda não foi feita. Mas estou pronto e tenho que estar. Caso seja a opção, o foco é único: fazer uma grande jornada em 2021”, finaliza.

Marca
Eugênio Gomes assumiu o posto de mais jovem técnico de uma partida oficial do futebol profissional do RN ao comandar o Santa Cruz aos 26 anos e 98 dias, superando nomes como Pedrinho 40 e Ferdinando Teixeira, dois dos principais técnicos da historia do futebol do estado.

A estreia de Teixeira, de acordo com o pesquisador do futebol do Rio Grande do Norte, Marcos Trindade, foi no dia 11 de agosto de 1974, na derrota do Alecrim contra o Riachuelo. Naquela altura, o lendário treinador tinha apenas 28 anos e 4 meses e não tinha faturado nenhum dos onze títulos potiguares que possui em seu currículo (5 pelo ABC, dois pelo próprio Alecrim e 4 pelo América).

Já no caso de Pedrinho 40, nascido em 1931, teve sua estreia como técnico no início da década de 60, com pouco mais de 30 anos. O treinador participou da conquista de 1963, além de comandar o Alviverde nos títulos de 1964 e 1968, esse último de forma inédita.

Sem o mesmo currículo dos dois citados anteriormente, Dado Cavalcanti também chamou atenção pela pouca idade quando foi anunciado como técnico do América no segundo semestre de 2010, com 28 anos até então. Ficou no cargo até 2011e hoje é comandante da Ferroviária/SP.

Por fim, o atual detentor da marca: Hugo Chacon, atual treinador das categorias de base do Palmeira do Agreste e que comandou o clube no estadual deste ano, estreou no profissional em setembro do ano passado, com 26 anos e 9 meses, na vitória do Alecrim contra o Parnamirim por 3x1. “Nunca me deparei com um técnico mais jovem treinando uma equipe no Rio Grande do Norte. Normalmente são sujeitos mais velhos, até ex-jogadores que exercem essa função depois que param de jogar futebol. A marca dele chama atenção por esses fatores”, comenta Trindade.

Relação com Veron
Outro fator que chama atenção na trajetória do treinador é sua relação com a principal joia do futebol do RN no momento. Gabriel Verón, de 18 anos, é atualmente o jogador mais valorizado do futebol brasileiro e tem multa de quase R$ 400 milhões. Se hoje ele desfila seu talento com a camisa do Palmeiras, para chegar lá, precisou ser descoberto no interior do RN, até ser levado ao Santa Cruz, onde conheceu Eugênio Gomes.

Créditos: DivulgaçãoGabriel Veron e Eugênio Gomes trabalharam juntos no Santa Cruz até meados de 2017Gabriel Veron e Eugênio Gomes trabalharam juntos no Santa Cruz até meados de 2017

Desde então, foi firmada uma relação que transcendeu as quatro linhas, sendo o até então auxiliar técnico do elenco profissional e comandante das categorias de base um dos fatores que ajudaram na adaptação de Veron no Santa Cruz e integração com o elenco profissional. “Ele chegou muito jovem, mas o talento que ele tinha já era absurdo. Então, [João] Quebra Osso teve a ideia de colocá-lo para treinar com o profissional. Imagina, um garoto de 14 anos treinando com jogadores mais experientes. Alguns tinham receio, mas eu abracei ele, conversando, ajudando na adaptação. Foi fundamental”, explicou Eugênio Gomes.

Veron e Eugênio trabalharam juntos, na base e no profissional, até meados de 2017, quando o atacante se transferiu para o clube paulista, onde brilha até hoje. No entanto, o atacante recorda do tempo no clube potiguar e da importância do jovem treinador na sua formação. “Minha passagem com Eugênio no Santa Cruz foi muito importante. Apesar de novo, é muito estudioso. Uma das mais importantes lições, foi quando ele repetia para que estivéssemos ali trabalhando com amor. Até por isso, sempre busco muito contato com ele para aprender, sei que ele quer o meu bem. A gente trabalhou junto e o trabalho de Eugênio é diferente. Torço por ele e espero que algum dia a gente possa trabalhar junto novamente”, comenta o jovem Veron, em contato com a TRIBUNA DO NORTE.

Para o jovem técnico, é motivador ver Veron ter o destaque que vem buscando. Eugênio tece elogios e garante que ele chegará ainda mais longe, sobretudo pelo foco que demonstra ter. “Eu sempre falo para ele que existem pessoas que nascem com o dom de ser grande, que são aquelas pessoas que tem algo diferente. O perfil, a postura, o foco. Ele tem tudo isso, creio que Veron tem tudo pra dar certo, se tornar um astro mundial e confirmar essa expectativa, pois ele já nasceu com essa característica, que só os grandes nascem com”, finaliza Eugênio Gomes.