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Política
Após desistência de João Doria, PSDB pode ter novo impasse
Publicado: 00:01:00 - 24/05/2022 Atualizado: 23:49:19 - 23/05/2022
Uma ala do PSDB vai sugerir que o partido considere o ex-governador Eduardo Leite (RS) e o senador Tasso Jereissati (CE) como opções na disputa presidencial, criando um novo impasse na sigla após a desistência de João Doria. O pedido contraria um acordo firmado pelas cúpulas do PSDB, MDB e Cidadania de apoio à senadora Simone Tebet (MDB-MS) como cabeça de chapa, como defende o presidente da sigla tucana, Bruno Araújo. Tasso também é citado por parte do PSDB como candidato a vice da emedebista, de quem é próximo no Senado.
Uma reunião que aconteceria nesta terça-feira, 24, e sacramentaria o apoio tucano à pré-candidatura de Simone foi cancelada. Pelo roteiro planejado por Araújo, a ideia seria reunir a Executiva do PSDB nesta terça e anunciar uma aliança com Simone, que também contaria com o endosso do Cidadania.

VINICIUS NUNES/AGÊNCIA F8/ESTADÃO CONTEÚDO
João Doria, tendo ao lado a esposa Bia Doria e o presidente do PSDB, Bruno Araújo, anuncia desistência

João Doria, tendo ao lado a esposa Bia Doria e o presidente do PSDB, Bruno Araújo, anuncia desistência


O principal argumento do grupo que resiste a uma aliança com Simone neste momento é que a candidatura dela possa ser rifada pelo MDB no período das convenções, que vai de julho a agosto, o que deixaria o PSDB à deriva nas vésperas do início da campanha. O MDB contém alas regionais que apoiam o presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

"Temos que esperar a homologação por parte da Executiva do MDB do nome da Simone. Amanhã (terça-feira) o MDB se reúne, delibera sobre essa questão, não deixando nenhuma dúvida quanto a sua candidatura para que depois a gente faça isso diante da Executiva (do PSDB)", disse o secretário-geral do PSDB, deputado Beto Pereira (MS), ao Estadão. Mesmo com o adiamento da reunião do PSDB, a Executiva do MDB vai confirmar, nesta terça-feira, 24, a pré-candidatura de Simone Tebet à Presidência. As alianças, porém, devem ser anunciadas mais adiante.

Simone ganhou o apoio do ex-presidente do MDB Romero Jucá (RR). "O MDB precisa ter a condição de colocar para a sociedade brasileira o que pensa e o que defende na economia, na política, nos programas sociais. Partido que não disputa eleição não forma time", disse Jucá.
O ex-senador comemorou a possibilidade de o PSDB e o Cidadania apoiarem a pré-candidatura de Tebet, embora haja divergências nesses partidos sobre os próximos passos. "O apoio do PSDB e do Cidadania é muito importante. Portanto, temos aí a construção de um caminho alternativo posto pela sociedade brasileira", afirmou.

Há consenso dentro das Executivas do MDB e do Cidadania por apoio a Tebet, mas um grupo do PSDB, composto pelos ex-presidentes do partido Aécio Neves e José Aníbal, ainda tenta fazer valer a ideia de candidatura própria tucana. Aníbal citou Leite e Tasso como opções, mas admitiu que Tasso ainda precisa ser convencido a disputar o Planalto. Durante reunião do partido na semana passada, o senador disse que "não está no projeto de vida" ser candidato a presidente e nem a vice de Tebet. "Tasso tem muita resistência e até resistência da família, mas vamos esperar", afirmou Aníbal.

Já Araújo afirmou que o PSDB não deve ter candidato próprio à Presidência. "Claro que como presidente do PSDB eu gostaria muito que tivéssemos uma candidatura própria, mas há algo maior do que tudo isso, há algo maior que a vontade de João Doria, algo maior que minha vontade", disse em entrevista coletiva em São Paulo após o pronunciamento de Doria.

"O Brasil não precisa de mais divisão interna. O gesto de João Doria hoje nos obriga moralmente. Nos mostra que o projeto está acima de tudo, e quem fizer um movimento diferente desse está demonstrando que tem mais compromisso com si mesmo do que com um projeto de Brasil", completou.

Araújo chegou a ser escolhido coordenador da pré-campanha de Doria, mas passou a trabalhar contra a candidatura presidencial do paulista. A avaliação é que a rejeição de Doria atrapalharia os planos de reeleição do governador de São Paulo, Rodrigo Garcia (PSDB), e consequentemente tiraria um tucano do comando do maior Estado do País.

Já o senador Renan Calheiros (MDB-AL) minimizou o peso de eventual aliança do PSDB com Simone e disse que a legenda deve apoiar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou liberar os diretórios.

“O que significa o apoio do PSDB? O PSDB acabou de 'cristianizar' o candidato que legitimamente ganhou as prévias", declarou Renan ao Estadão, numa referência à desistência do ex-governador de São Paulo João Doria, após ser abandonado pelo partido. "Não tem nenhuma vinculação com essa questão de PSDB, de Doria. O MDB gostaria muito de ter um candidato competitivo, de modo a ajudar a alavancar os palanques estaduais. Qual o desafio? Mudar a fotografia das pesquisas. Se isso não acontecer não se justifica a candidatura", completou ele. O presidente do Cidadania, Roberto Freire, afirmou que o grupo que rejeita uma aliança com Tebet é minoritário e que uma aliança será anunciada formalmente amanhã.

"Nós tivemos uma reunião e fizemos um indicativo. Esse gesto de João Doria tem a ver com o indicativo que foi feito, ele julgou que ser a favor do Brasil neste momento é retirar a candidatura dele. Não fez isso para nada, não, para que a gente continuasse discutindo candidato", disse Freire ao Estadão.

Simone Tebet afirma que há 'pressa para unir o País'
A pré-candidata à Presidência Simone Tebet (MDB) afirmou que o ex-governador João Doria, do PSDB, "sempre foi aliado", após o tucano desistir de ser o nome indicado pela chamada terceira via para concorrer ao Planalto nesta segunda-feira, 23. A senadora disse, ainda, que tem "pressa" para unir o País.

"Vamos conversar e receber suas sugestões para nosso programa de governo. O Brasil é maior do que qualquer projeto individual Vamos trabalhar para unir todo o centro democrático", afirmou por meio de nota divulgada à imprensa logo após o anúncio do ex-governador.
Tebet disse, ainda, que gostaria de manter a aliança ao redor de seu nome com PSDB e Cidadania; as cúpulas das legendas já fecharam um acordo em torno do nome da senadora, mas ainda devem formalizar a escolha junto às direções partidárias, o que deve ocorrer nos próximos dias.

"Vamos unir o país e tratar de sua reconstrução moral, institucional e política. O povo tem pressa e precisamos semear esperança", destacou a senadora.

Tanto Doria quanto Tebet não abriam mão de representar o grupo na eleição presidencial. Vencedor das prévias do PSDB, o tucano era o candidato natural do partido, mas pressões internas o afastaram da cúpula da legenda e aumentaram o interesse da sigla em apoiar a emedebista.

Como mostrou o Estadão, Tebet foi beneficiada por uma série de fatores, inclusive ser mulher e ter menor rejeição que o tucano. Após contratar pesquisas internas que mostravam esse maior potencial de crescimento da senadora, os dirigentes do grupo rifaram Doria e endossaram o nome de Tebet às urnas. O tucano ameaçou judicializar a questão, mas acabou desistindo de concorrer ao Planalto.

"Me retiro da disputa com o coração ferido e a alma leve. Com a sensação inequívoca do dever cumprido e missão bem realizada. Com boa gestão e sem corrupção", afirmou, em pronunciamento emocionado nesta segunda-feira.

A desistência, contudo, não leva ao apoio automático do PSDB à Tebet. O partido ainda precisa referendar a decisão dos dirigentes e o grupo do deputado Aécio Neves (MG) defende que a legenda escolha outro tucano para disputar a Presidência: Eduardo Leite ou Tasso Jereissati. O movimento seria possível com a desistência de Doria, que desobriga o PSDB a homologar o nome escolhido nas prévias do partido.

‘Retiro com coração ferido, mas com a alma leve', afirma o ex-governador 
Diante da pressão de seu partido, o ex-governador de São Paulo João Doria (PSDB) anunciou ontem que decidiu desistir de sua pré-candidatura à Presidência da República. "Hoje, neste 23 de maio, serenamente, entendo que não sou o nome da cúpula do PSDB. Aceito essa realidade com a cabeça erguida", disse o governador em pronunciamento no início desta tarde. "O PSDB saberá tomar a melhor decisão no seu posicionamento para as eleições deste ano. Me retiro da disputa com o coração ferido, mas com a alma leve", declarou Doria. 

Apesar de ter vencido as prévias de seu partido, Doria vinha enfrentando resistência para alavancar sua candidatura. Nos últimos meses, sua legenda mostrava poucas esperanças no projeto do paulista. Uma ala do PSDB tentou fazer com que o ex-governador Eduardo Leite fosse o nome tucano para a corrida, mas o projeto não teve sucesso.

Em um dos momentos mais tensos da disputa interna do PSDB, Doria chegou a comunicar a aliados que havia desistido de concorrer à Presidência e avisar que não iria mais deixar o cargo de governador, como estava previsto. O anúncio, no decorrer do dia 31 de março, fez com que Bruno Araújo, presidente do PSDB, enviasse uma carta aos principais líderes do partido na qual defendeu o resultado das prévias pela primeira vez.

Bruno Araújo, que esteve ao lado do governador paulista ontem, coordenava a pré-campanha de Doria desde fevereiro deste ano, mas foi substituído por Marco Vinholi, que é o dirigente do partido em São Paulo, em abril, após dar declarações contrárias à pré-candidatura do ex-governador paulista.

Somou-se a essa pressão interna a união de partidos de centro para lançar um nome único ao pleito, conversa que incluiu o União Brasil, que decidiu desembarcar das negociações para lançar uma chapa pura. Durante as negociações, os partidos definiram que os resultados de uma pesquisa qualitativa e uma pesquisa quantitativa iriam definir quem seria o postulante ao Executivo. A balança pendeu para Tebet, mesmo com Doria tentando emplacar o resultado de outras pesquisas para sustentar sua viabilidade.

São Paulo
A resistência tucana na candidatura de Doria tem como pano de fundo a disputa pelo governo de São Paulo. Devido à rejeição do ex-governador, aliados de Rodrigo Garcia avaliavam que colar a imagem de Doria a dele minava as chances do Garcia continuar na Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.

Devido a isso, nas últimas semanas, o atual governador do Estado vinha ensaiando um distanciamento de Doria. "Fui vice do João Doria. Um é diferente do outro", declarou Garcia em entrevista ao Estadão.

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