Após enterrar filho, Benes Leocádio pergunta “a quem pedimos socorro?”

Publicação: 2018-08-18 00:00:00
Mariana Ceci e Luiz Henrique Gomes
Repórteres

A cidade de Lajes parou na manhã de ontem para dar o último adeus à Luiz Benes Leocádio de Araújo Júnior, de 16 anos. Morto durante uma troca de tiros em um sequestro-relâmpago na capital potiguar na última quarta-feira (15), “Juninho”, como era conhecido pelos habitantes da cidade onde cresceu e da qual seu pai, Benes Leocádio, foi prefeito por muitos anos, recebeu homenagens de centenas de moradores do município, que lotaram a Igreja Matriz e o Cemitério Público para se despedir do jovem.

Créditos: Adriano AbreuBenes Leocádio disse, após a missa celebrada para o filho, que é preciso tomar medidas urgentes contra a violência: aqui está um pai sofrido, de coração sangrandoBenes Leocádio disse, após a missa celebrada para o filho, que é preciso tomar medidas urgentes contra a violência: aqui está um pai sofrido, de coração sangrando

Benes Leocádio disse, após a missa celebrada para o filho, que é preciso tomar medidas urgentes contra a violência: ''aqui está um pai sofrido, de coração sangrando ''

A cerimônia, que teve início por volta das 8h da manhã, foi marcada pelas homenagens prestadas por amigos, familiares e colegas de escola de Benes Junior. Nas ruas adjacentes, poucas pessoas eram vistas, e o comércio estava, em sua maior parte, fechado. Nos discursos, um denominador comum: o apelo para a criação de uma cultura de paz, e pelo fim da violência no Estado que, este ano, já vitimou mais de 1,3 mil pessoas. “Juninho não está mais aqui, mas temos uns aos outros para tentar criar uma cultura de paz, onde possamos transformar essa realidade de violência e fazer com que prevaleça o sentimento de respeito à vida”, falou Isaías Leocádio, primo de Benes Júnior.

Para a família, a tragédia da morte de Benes, que estava indo até o carro buscar um pano de chão para ajudar na limpeza do comitê de campanha do pai quando foi abordado pelos dois sequestradores, deve servir como alerta para que as autoridades do Rio Grande do Norte tomem medidas relativas à situação da insegurança pública.

“Eu sei que não fui o primeiro. E o que mais me dói é saber que não serei o último pai a ter que inverter o curso natural da vida e enterrar seu filho. Muitos outros, infelizmente, farão parte dessa estatística cruel que só cresce a cada dia. Nós ficamos a nos perguntar: o que fazemos? A quem recorremos? A quem pedimos socorro para mudar essa realidade que desmonta famílias inteiras todos os dias? Eu acredito que isso pode mudar, mas algo precisa ser feito, com urgência. Aqui não há um pai amargurado, um pai revoltado. Aqui está um pai sofrido, de coração sangrando, que perdeu um de seus maiores tesouros, seu caçulinha”, disse o pai, Benes Leocádio, em seu discurso após a missa.

Após a celebração, que durou mais de duas horas, centenas de moradores fizeram uma fila que dava a volta na Igreja para abraçar a família Leocádio e dar adeus à Benes Junior. Em seguida, o caixão foi levado em cortejo pelas ruas de Lajes até o Cemitério Público, onde o corpo foi enterrado. Idosos, adultos e crianças se fizeram presentes ao longo de todo o trajeto. Nos discursos, falava-se da personalidade do adolescente: “amigo”, “companheiro”, Benes Junior sonhava em algum dia seguir os passos do pai e ser prefeito de Lajes.

“Ele sentou na cadeira da Prefeitura e falou: pai, um dia vou ser eu que vou sentar aqui e fazer o que você faz. Eu disse para ele que havia outro destino, outra carreira, que ele deveria seguir. Mas ele fazia questão de nos acompanhar em todas as atividades, e dizia que queria fazer isso para poder ajudar as pessoas”, relatou Benes Leocádio.

Créditos: Adriano AbreuPopulação de Lajes, onde Luiz Benes cresceu, compareceu de forma maciça ao sepultamento para homenagear o adolescentePopulação de Lajes, onde Luiz Benes cresceu, compareceu de forma maciça ao sepultamento para homenagear o adolescente

População de Lajes, onde Luiz Benes cresceu, compareceu de forma maciça ao sepultamento para homenagear o adolescente

Além dos moradores da cidade, que fica a cerca de 130 km de Natal, figuras políticas do Rio Grande do Norte estiveram presentes para prestar solidariedade à família. Dentre elas, o presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, Ezequiel Ferreira, e o ex-Ministro do Turismo, Henrique Alves, que discursou durante o enterro lembrando da amizade entre Benes Junior e seu filho.

“Juninho e Pedro Henrique nasceram no mesmo dia, na mesma maternidade. Convivemos lado a lado, nossos quartos eram conjugados. Cresceram juntos, estudaram juntos, nasceram juntos. Essa despedida é algo que dói para todos que conheceram e tiveram contato com esse menino, que era tão bom”, afirmou Henrique. Ao longo da semana, diversas entidades e órgãos manifestaram solidariedade à família pela perda, dentre elas a própria secretária titular da Secretaria do Estado de Segurança Pública e Defesa Social (Sesed), Sheila Freitas que, em nota de pesar, afirmou que “Vivemos em uma guerra sem tréguas” no Rio Grande do Norte.

As investigações a respeito das circunstâncias da morte de Benes Junior ainda estão sendo realizadas pela Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Benes foi vítima de um sequestro-relâmpago por volta das 16h da quarta-feira, em Tirol. Ele foi abordado por duas pessoas, ambos menores de idade, que ordenaram que ele entrasse no carro e dirigisse enquanto eles praticavam assaltos pela zona Norte da cidade. “Juninho sequer sabia dirigir. Ele nunca tinha dirigido um carro na vida”, conta o pai.

Após assaltarem diversas pessoas na zona Norte, eles foram interceptados por uma viatura da Polícia Militar, que estava ciente do sequestro. Na abordagem, houve uma troca de tiros, na qual Benes foi atingido duas vezes. Ele chegou a ser socorrido, e foi levado com vida à Unidade de Pronto Atendimento de Pajuçara, mas não resistiu aos ferimentos, e morreu no local. Além dele, um dos sequestradores também foi atingido na troca de tiros, e faleceu no Hospital Santa Catarina, também na zona Norte.

“Acreditamos que os policiais pensaram que ele estava no porta-malas, e talvez tenham confundido ele com um dos sequestradores”, disse Benes Leocádio. Nas investigações, a polícia vai ouvir os quatro PMs que participaram da ação para apurar a abordagem que foi feita ao veículo, e como se deu de fato a troca de tiros. Há, paralelamente, um Inquérito Policial Militar instaurado dentro da própria corporação, para apurar as circunstâncias da ocorrência. Ao longo das investigações, os PMs ficarão afastados das atividades de campo.

Sentenciado este ano
O adolescente Matheus da Silva Régis, envolvido no sequestro que culminou na sua morte e na morte do jovem Luiz Benes Leocádio Júnior, foi sentenciado por três atos infracionais, todos cometidos este ano. O primeiro ocorreu em março, no latrocínio da policial militar Caroline Plestch, de Santa Catarina. Antes das investigações chegarem ao seu nome, o jovem de 17 anos continuou realizando assaltos em Natal. Em abril, roubou um veículo a mão armada no bairro da Cidade Alta e, no mês seguinte, realizou um assalto semelhante, no bairro do Alecrim. Esse três crimes chegaram à Justiça, mas a participação em outros não é descartada.

Matheus foi sentenciado, primeiro, pelo assalto na Cidade Alta. Não tinha passagem na Justiça até então e foi considerado réu primário. Por essa condição e por não ter cometido crime contra à vida, a sentença foi de liberdade assistida. Logo foi julgado pelo outro assalto e teve a pena endurecida para a semiliberdade – neste caso, o interno sai do Centro Educacional somente se estudar ou trabalhar. Ao ser julgado pela terceira vez, desta vez pela participação na morte de Carolina Plestch, a internação definitiva foi decretada. O crime mais grave e o primeiro a ser cometido foi julgado por último porque exigiu uma investigação mais complexa. Outras três pessoas tiveram participação no latrocínio.

No entanto, a internação expedida pela Justiça à Delegacia Especial de Atendimento (DEA) não foi cumprida. Os motivos alegados são contraditórios. O juiz Homero Lechner, titular da 3ª Vara da Infância e Juventude, afirmou que o garoto estava foragido do regime de semiliberdade no dia 11 de junho deste ano, data do terceiro julgamento. Matheus estudava o 6º ano do ensino fundamental – com atraso escolar de cinco anos – e tinha condição de sair da Casa.

A delegada da DEA, Rafaela Dantas, tem outra versão. Segundo ela, quando foi sentenciado pelo crime de latrocínio de Caroline Plestch, Matheus estava internado na casa pelos crimes anteriores. Mas no dia 19 de junho, oito dias depois da sentença, ele foi colocado em regime de semiliberdade como uma forma de progressão. Neste caso, a Justiça não teria se atentado a um novo mandado de internação.

Apesar das diferenças, o que há em comum nas informações emitidas pelo juiz e pela professora é que o adolescente deveria estar, na data do crime contra o jovem Luiz Benes Leocádio, internado na Casa Educacional.

Além dos crimes que chegaram à Justiça, o adolescente confessou durante audiências fazer parte de uma facção criminosa  e ser usuário de maconha e cocaína. Em um primeiro momento, a delegada da DEA, Rafaela Dantas, afirmou que Matheus tem uma possível participação em um outro latrocínio, ocorrido em uma locadora de videogames da zona Norte de Natal. Mas a investigação deste crime é desconhecida. A DEA afirma que não tem responsabilidade para investigar o caso. A Delegacia de Homicídios e Proteção à Vida (DHPP), responsável pela apuração de crimes contra à vida, afirmou que não tem conhecimento da participação do jovem no caso.

Os pais de Matheus não aceitaram falar com a reportagem nesta sexta-feira (17), véspera do sepultamento. Na audiência do primeiro caso julgado pela Justiça, declararam que o adolescente não tinha participação em crimes e “era um menino bom e estudioso”. Quando o segundo crime foi apurado, a declaração foi de que “ele estava se envolvendo  com pessoas ruins” e “precisava melhorar”. Três meses depois dessas declarações, Matheus será sepultado.