Apodi e outros tararás

Publicação: 2019-07-28 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

O ator e diretor Dionízio Cosme – ou melhor, Dionízio do Apodi, com é mais chamado – nunca conheceu também bem sua cidade de origem como nos últimos anos. O artista, embora nascido em Apodi, passou a maior parte da vida longe da cidade. Começou e trilhou sua carreira em Mossoró, sendo um dos fundadores do grupo O Pessoal do Tarará, em 2002. Com a trupe dirigiu e atuou importantes peças na “capital do oeste” e circulou pelo Nordeste. Também participou várias vezes do elenco do espetáculo Chuva de Bala – na última edição interpretou Lampião. Depois de um período importante em São Paulo, onde ampliou sua vivência teatral, ele retornou ao Rio Grande do Norte para um projeto novo em sua terra natal. Seus últimos anos são de um mergulho profundo nas expressões culturais de Apodi, de onde ele tem pescado ideias que vem implementando pouco a pouco, ajudando, assim, a dar visibilidade a artistas e mestres da cultura popular local. Em paralelo, o ator também tem planejado reativar o grupo Pessoa do Tarará. Enquanto isso não acontece, Dionízio lembra de sua trajetória e destaca o que de mais instigante tem em sua querida Apodi.
Ator Dionízio do Apodi
Ator Dionízio do Apodi

Começo no teatro
Nunca tinha ida a um teatro oficial até os 18 anos. Mas era algo que me fascinava. Eu pegava os cartazes dos grupos de mossoró e guardava. Até hoje tenho alguns. Meu envolvimento mesmo só aconteceu em 1998, quando entrei na UERN, em Mossoró, e reativaram o grupo de teatro universitário. A presença de João Marcelino também foi muito importante pra mim. Ele ministrou oficinas na universidade e a partir dali ganhei um mestre para toda vida. Me indicou livros, espetáculos e filmes. Isso me marcou muito. Me apresentou os clássicos universais e nacionais. Ele me deu um norte. Três anos depois da UERN nosso grupo saiu da universidade por entender que era importante ser independente, e então criamos o Pessoal do Tarará.

Pessoal do Tarará
O que mais nos provocava era estar perto um dos outros estudando, fazendo experimentos, indo pra rua. Depois vimos que precisávamos formalizar como um grupo. Assim iniciou o Pessoal do Tarará. Queríamos fazer acima de tudo teatro, tanto faz se na rua ou no palco. A necessidade nos indicava a rua, principalmente com os grandes espetáculos tomando de conta os teatros de Mossoró. E nosso grupo é formado por pessoas de camadas populares. Então fizemos um caminho inverso, primeiro cativando nosso público na rua até levá-lo para as salas de espetáculo.

Teatro na Baixinha
Instalamos nossa sede em uma comunidade periférica, a Baixinha. É um local cheio de problemas como tráfico de drogas e prostituição. Mas fomos não para resolver, mas para debater. Apesar dos problemas, era uma comunidade com poesia. Tinha escola de samba, urso de carnaval, quadrilha junina, terreiro. Era rica em manifestações culturais. Criamos um vínculo forte. Passamos mais de cinco anos lá. Tínhamos uma casa com quintal enorme, promovíamos atividades  nas praças e na rua. Um dos grandes talentos de Mossoró hoje, o ator Maxson Ariton, saiu da Baixinha. Encontramos ele num circo que percorria os quintais da comunidade.

O Tarará hoje
Com o Tarará tivemos várias experiências. Chegamos a passar três meses em turnê pelo Nordeste. Depois tivemos um momento que onde nos transferimos para São Paulo. Desenvolvemos projetos por lá. Tivemos uma experiência o mestre Cacá Carvalho, em uma casa laboratório. Foi uma experiência arrebatadora que ainda não sei entender a dimensão. Hoje o Pessoal do Tarará está num momento em que cada um está fazendo uma coisa diferente. Precisávamos desse espaço para que cada um fosse cuidar de uma coisa que tivesse vontade.

Feira livre como espetáculo
Apesar de levar Apodi no nome, passei a maior parte da minha vida fora da cidade. Em Apodi fiquei mais durante a infância. Mas foi vivendo longe que lembrei do quão importante a cidade era pra mim. Por exemplo, minha forma de ver teatro vem da infância, de quando eu via na feira os cantadores, os emboladores de coco, o teatro de mamulengo, o cordel.

Retorno as origens
Quando estava em São Paulo, vim passar uns dias de férias em Apodi, fiz algumas coisas e o prefeito me convidou para ficar e desenvolver projetos culturais na cidade. Fiquei balançado. Tinha a necessidade de fazer algo onde nasci. Quando cheguei me deparei com uma cultura popular linda, cheia de mestres.

Mestres da cultura popular
Temos uma senhora na Lagoa Rasa, uma comunidade rural, Dona Célia, ela tá com mais de 60 anos. É contadora de dramas, causos e cantigas. Aprendeu com a mãe e guardou tudo na memória. Tem também Seu Raposo dos Pastéis, que vende pastel na feira do Apodi. Ele é guardião de um tipo de brincadeira, os congos, que datam das décadas de 30 e 40 lá em Apodi. O pai dele brincava e quando foi na década de 70 ele resgatou. Fez os bichos, jaburu, onça tem tudo guardado, assim como as canções e os passos da dança. Na comunidade do Córrego temos outro mestre, Seu Augusto. Brincava de Papangu. Em Apodi, esses papangus são diferentes daqueles de carnaval. É mais semelhante com o Boi de Reis, tem a burrinha, o boi, a pinta, mas com o vestuário diferente, com pano de estopa. Temos andado de cima pra baixo com ele por Apodi para que mostre o que se tinha na cidade nas décadas de 60. A nossa identidade cultural é fortalecida nesses mestres e nessas expressões. E estamos trabalhando na cidade para trazer isso de volta.

Paisagem urbana e rural
Apodi é metade zona urbana, metade zona rural. E a parte urbana é fortemente influenciada pela rural. O clima é de conversa na calçada. Temos uma feira livre onde as pessoas vão vender o que plantam no quintal de casa, onde se encontra contador de história.

Tapuias paiacus
Onde você estiver na cidade você tem a vista da Lagoa de Apodi lá embaixo. Essa paisagem diz muito sobre a cidade. Não deixo de caminhar pela Lagoa. É onde a cidade foi formada, onde os índios tapuias paiacus pescavam e viviam. O RN precisa voltar mais os olhares para o Apodi. Temos uma identidade cultural indígena fortalecida na cidade. Há cinco mil anos já tinha gente pintando as pedras do Lajedo Soledade, uma arte de reproduzir arara, homem, peixe, tudo antes de Cristo. Tem um centro histórico indígena que funcionava dentro da casa de Lúcia Tavares, indígena, batalhadora, conseguiu um pedaço de chão próximo da Lagoa para um próximo espaço.

Povo contador de histórias
Chapada do Apodi, um dos solos mais ricos do mundo, o lajedo soledade com seus desenhos de mais de 5 mil anos. A Barragem de Santa Cruz, segunda maior do RN e a maior barragem de concreto da América Latina. Mas o que gosto mais de Apodi é povo contando seus causos, rindo, sendo feliz.

A importância das comunidades rurais
Em Apodi só temos um equipamento cultural, uma casa de cultura que funciona de forma capenga. Então nossa cultura é manifestada mais na rua, na feira, na lagoa, nas comunidades rurais. Creio que tenham mais de 200 comunidades dessas no município, uma mais diferente que a outra, algumas com base na agricultura, outras na pesca. Elas são bem organizadas. Tem a Aurora da Serra, uma ruazinha cheia de casas, lindíssima, na Chapada do Apodi, com mulheres altamente politizadas e tomando conta da organização. Tem também a comunidade do Córrego, cheia de cooperativas. Semanalmente gosto de visitar essas comunidades, vou apresentar um poema, às vezes um espetáculo.

Aproximando gerações
Um dos nossos projetos é uma casa de taipa. Uma instalação, de frente pra igreja, com terreiro, casa mobiliada. A programação de São João é em frente a casa de taipa. Em Apodi você pode nunca ter vivido numa casa de taipa, mas certeza que tem um avô ou uma tia que viveu. Então esse projeto tem despertado muitas lembranças nas antigas gerações e grande curiosidade nas novas.

Teatro dos Surdos Além das Mãos
Quando cheguei em Apodi vi que tinha um grupo que se comunicava em Libras. Eu me propus apresentar meu trabalho para eles, com a ajuda de um intérprete. A partir dai eles despertaram para o teatro, primeiro assistindo, depois participando. Esse teatro não é em Libras, ele é numa linguagem universal para qualquer pessoa compreender. É um teatro que se dá pela linguagem do corpo. Esse projeto é recente, apresentamos pela primeira vez no fim do ano passado. Mas já deu uma mexida nas pessoas. Logo estaremos realizando um trabalho semelhante em Mossoró. Está se alastrando. Fomos até São Paulo, tivemos uma reunião emocionante com o Itau Cultural, maior referência de cultura inclusiva no Brasil, onde mostramos nossa história. Vamos ver no que pode dar. Sou otimista.



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