Aquarela: hino não oficial de muitas infâncias

Publicação: 2019-10-22 00:00:00 | Comentários: 0
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Thiago Gonzaga
Escritor

Com certeza, você caro leitor, já ouviu, em alguma vez na sua vida, os versos a seguir:

 “Numa folha qualquer/Eu desenho um Sol amarelo/E com cinco ou seis retas/É fácil fazer um castelo/Corro o lápis em torno da mão/E me dou uma luva/E se faço chover, com dois riscos/Tenho um guarda-chuva/Se um pinguinho de tinta/Cai num pedacinho azul do papel/Num instante imagino/Uma linda gaivota a voar no céu”...

São da música “Aquarela”, grande sucesso de Toquinho lançado em 1983.

Toquinho, nome artístico de Antônio Pecci Filho, nasceu na cidade de São Paulo, em 1946. Cantor, compositor e violonista, ficou bastante conhecido pelas suas belas canções, em célebres parcerias musicais, sobretudo com o poeta Vinícius de Moraes, com quem lançou inúmeros discos e vários clássicos como "Tarde em Itapoã", "Testamento", “Como Dizia o Poeta", e “A Tonga da Mironga do Kabuletê”.

No início dos anos de 1980, já com uma carreira consolidada, com mais de trinta discos lançados e vários êxitos, Toquinho lançou um disco na Itália, denominado “Acquarello”, LP que obteve enorme sucesso naquele país, e fez com que ele recebesse um disco de ouro (foi o primeiro brasileiro a receber essa premiação na Itália).

Em seguida “Acquarello”, foi adaptada e lançada em território nacional, com o título “Aquarela” fazendo estrondoso sucesso e se tornou um marco na carreira do cantor. Na versão original, Toquinho entrou em parceria com o músico italiano Maurizio Fabrizio, criaram a melodia; a letra original ficou por conta de outro italiano, Guido Morra.

Quando resolveu adaptar a canção para o português, Toquinho creditou a letra a seu velho parceiro, Vinicius de Morais, que já havia falecido. Em uma entrevista, certa vez, Toquinho explicou que “Aquarela”, continha alguns elementos musicais, na primeira parte, de “Uma rosa em minha mão”, composta por ele junto com Vinicius, em 1974, daí o motivo da parceria póstuma.

Mas, voltando à letra de “Aquarela”, que é quase uma espécie de hino à vida, nos dá a sensação de que nos contassem uma história capaz de nos tocar profundamente, avivando a nossa memória, convocando-nos ao universo da nossa infância.

Diante de belíssimas passagens, ao final, uma possível chegada à vida adulta:

E o futuro é uma astronave/Que tentamos pilotar/Não tem tempo nem piedade/Nem tem hora de chegar/Sem pedir licença/Muda nossa vida/E depois convida/A rir ou chorar.

Como se tivéssemos de passar essa fase da vida aprendendo que muitas coisas que irão acontecer são inevitáveis, e que, muitas vezes, nosso destino não é só aquilo que desejamos; a vida adulta nos traz também responsabilidades e obrigações, que outrora não tínhamos.

“Aquarela” é uma canção atemporal que nos conduz ao imaginário infantil, em um retorno emocional aos primeiros anos de vida, levando-nos a lembrar, com nostalgia, daqueles momentos que não voltam mais. Evidentemente, além de passear pela infância, a canção também tem o poder de nos fazer refletir sobre a própria transitoriedade do tempo. Como tudo passa rápido, não é mesmo?

Com certeza, caro leitor, se você tem mais de trinta anos, alimentou um tanto da sua memória afetiva e descobriu um pouco mais sobre o “hino não oficial” da infância de muita gente, que se tornou marcante, também, por conta de um icônico comercial para TV.

Enfim, como diz essa bela canção:

Vamos todos/Numa linda passarela/De uma aquarela que um dia enfim/Descolorirá.

Felizmente ou infelizmente, essa é a verdade da vida. Portanto aproveitemos bastante a oportunidade que temos para ser felizes, agora.





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