Aquecimento global chega mais cedo que o previsto

Publicação: 2016-07-03 00:00:00 | Comentários: 0
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Melanie Hall
Deutsche Welle

O verão europeu deste ano teve um início torrencial, com severas inundações, que atingiram grande parte do continente. Pelo menos 18 pessoas morreram em maio, durante fortes chuvas, seguidas de enchentes, que atingiram França, Alemanha, Bélgica e Romênia. O rio Sena, na França, transbordou, quando suas águas atingiram os níveis mais altos em mais de 30 anos. Na Baviera, enchentes danificaram casas e carros, obrigando alguns moradores a buscarem segurança subindo em seus telhados.
ArquivoNível da água do Sena chegou a 6 metros acima do leito normal no início de junho, na maior cheia dos últimos 34 anos em ParisNível da água do Sena chegou a 6 metros acima do leito normal no início de junho, na maior cheia dos últimos 34 anos em Paris

Turistas que planejam férias na Europa começam a refazer seus planos, enquanto os moradores se perguntam se a mudança climática tem algo a ver com isso. Segundo os pesquisadores, a resposta, pelo menos na França, é: provavelmente.

Cientistas do programa de pesquisa World Weather Atrribution (WWA) analisaram as fortes chuvas e inundações na França e na Alemanha em maio para tentar saber a probabilidade de a mudança climática ter contribuído para os eventos. “Sabemos que o aquecimento global leva a mais chuvas em geral, mas, com esta análise, conseguimos relacionar diretamente o aquecimento global com as recentes tempestades na França, que provocaram tanta inundação e destruição”, explica Robert Vautard, cientista do Laboratório de Ciências do Clima e Meio Ambiente (LSCE), envolvido na pesquisa.

“Estas últimas inundações na Europa ilustram o impacto crescente de eventos climáticos extremos, inclusive em países desenvolvidos e bem preparados, como a Alemanha e a França”, frisa Maarten van Aalst, diretor da Centro de Clima da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.

Os resultados ainda foram conclusivos sobre a ligação entre as mudanças climáticas e as inundações na Alemanha. Mas o estudo é um dos mais recentes em um número crescente de pesquisas associando o aquecimento global mais diretamente às condições meteorológicas extremas, o que sugere uma diminuição da hesitação anterior de ligar os dois fatos.

Van Aalst afirma que esta mudança vem acontecendo gradualmente na comunidade científica ao longo dos últimos dez anos, essencialmente por pesquisadores que mudam sua abordagem. “A questão dez anos atrás era ‘será que esta onda de calor é um evento de mudança climática?’”, lembra van Aalst. Os cientistas pensam agora mais sobre a possibilidade existente de um fenômeno meteorológico ter sido causado pelas alterações climáticas. Desde então, mais pesquisas têm sido focadas em analisar os extremos climáticos através do crescente campo científico da “atribuição” das alterações climáticas.

Estudos de atribuição tentam determinar as causas de eventos únicos e incomuns, relacionados com o clima – e compreender como os seres humanos estão influenciando o clima, observando se a mudança climática tornou determinados eventos mais fortes ou mais prováveis de ocorrerem.

Para Kerry Emanuel, professor de meteorologia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), a mudança realizada no sentido de verificar a probabilidade de a mudança climática afetar um determinado evento climático é uma forma correta de abordar o problema.

“Não podemos e não devemos dizer que uma onda de calor em particular foi causada pelo aquecimento global”, frisa. “Mas podemos dizer que a probabilidade de um evento como esse agora é diferente atualmente do que era na era pré-industrial.”

Mas nem todos os eventos climáticos extremos estão associados a mudanças climáticas relacionadas com a atividade humana, e eventos extremos incomuns têm sido sempre uma parte variável do clima. O desafio para os cientistas é separar fatores naturais de fatores humanos.

“Há uma tentação de se atribuir todo evento extremo ao aquecimento global, assim como na década de 80 todos os eventos climáticos extremos eram atribuídos a El Niño”, destaca Emanuel, acrescentando que neste último caso, poucas dessas atribuições estavam corretas. “Esta tentação deve ser evitada.”

Para as pessoas que vão atrás do sol em suas viagens de verão na Europa, extremos climáticos ligados ao aquecimento global podem significar uma maior chance de chuvas intensas, mas também ondas de calor, em particular no Mediterrâneo.

Bate papo

Carlos Nobre
climatologista, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

‘Fenômeno La Niña seria muito bem-vindo ao Nordeste’

Até que ponto a crise de recursos hídricos vivida recentemente no Brasil está diretamente relacionada às mudanças climáticas do planeta?

Temos períodos de seca por razões que independem das mudanças climáticas. Mas o impacto de uma a seca similar (digamos, com 50% menos de chuva) há cem anos é diferente do de hoje, num planeta em que a temperatura já está um grau mais alta. Hoje, por conta disso, a evaporação da água é mais acelerada – isso é uma realidade em vários lugares do mundo. Então, o déficit de chuva pode ser o mesmo, mas o déficit de água no solo é maior. Este já é um efeito direto do aquecimento global, independentemente de não termos certeza absoluta de que o aquecimento já esteja induzindo a mais secas ou secas mais intensas.

Já existe algum lugar no Brasil onde esse cenário de extremos por conta do aquecimento já esteja ocorrendo?

Um lugar onde as pesquisas já indicam com alguma certeza científica uma mudança no regime de extremos é a Amazônia, onde, nos últimos onze anos (desde 2005) tivemos três secas severas e três inundações. Sendo que pelo menos duas dessas secas e duas dessas inundações foram recordes absolutos nos últimos 100 anos, desde que temos registros precisos para a região.

Teremos La Niña este ano? Quais serão as implicações?
O Pacífico está saindo de El Niño, e La Niña não se estabeleceu ainda. As previsões ainda são incertas, e algumas são contraditórias, mas a principal aposta é de que haverá La Niña de intensidade moderada se estabelecendo nos próximos meses. Se o fenômeno for de moderado a intenso, poderemos ter seca no Sul e chuvas acima da média no Nordeste. Para o Nordeste, essa seria uma ótima notícia, já que a região está enfrentando a seca há cinco anos – os reservatórios por lá estão nos níveis mais baixos já registrados em 80 anos.

O senhor é um dos maiores especialistas do mundo em aquecimento global e já estuda isso há um bom tempo. As previsões que vocês faziam, digamos, há dez anos, estão todas se concretizando dentro das expectativas?
O que vem surpreendendo muito é essa coisa dos extremos. Vinte, dez anos atrás não imaginávamos que os extremos climáticos estariam acontecendo já nesta década. Esperávamos esta situação para depois de 2030. Esperava ver as mudanças que estamos vendo hoje com um grau e meio ou dois de aumento. Em praticamente todas as áreas os impactos são mais visíveis do que era esperado com um grau de aumento. Outra coisa que surpreende são as tempestades oceânicas mais intensas, causando ressacas mais fortes em muitas partes do mundo, inclusive na costa do Brasil.

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