Aquele abraço

Publicação: 2020-08-05 00:00:00
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Tádzio França
Repórter      

Há meses um dos gestos físicos mais comuns, simbólicos e carinhosos do mundo passou a ser um ato remoto: o abraço. A impossibilidade do contato deixou as relações pessoais ainda mais afetadas pela pandemia, principalmente em lugares que demandam afeto, como nos espaços que recebem pessoas da terceira idade. A partir disso surgiu a ação ‘Cortina de Abraços’, uma iniciativa da empresa Sodiê Doces pelo Brasil, que propicia abraços seguros através de uma estrutura de plástico desenvolvida especialmente para isso. Em Natal, os pontos escolhidos foram o Lar da Vovozinha e o Espaço Solidário, duas instituições que acolhem idosos. É o abraço possível no momento.

Créditos: Magnus NascimentoAção permitiu que idosos fossem abraçados apesar da pandemia de covid-19. Segundo estudos, quando alguém abraça por 30 segundos, o corpo produz um hormônio que proporciona bem estarAção permitiu que idosos fossem abraçados apesar da pandemia de covid-19. Segundo estudos, quando alguém abraça por 30 segundos, o corpo produz um hormônio que proporciona bem estar


A ação foi lançada nesta terça-feira (4) nos dois espaços adotados pelo projeto na capital potiguar. Pela manhã, a Cortina de Abraços mexeu com a rotina do Lar da Vovozinha, em Dix-Sept Rosado. Boa parte das 37 moradoras da instituição compareceu ao salão para finalmente, após quatro meses, sentir o aconchego de um abraço outra vez. A peça assinada pela artista plástica Diná Rocha é uma cortina de plástico resistente com aberturas para os braços de duas pessoas. Impede o contato da pele e respiração, mas garante o calor do abraço. A estrutura é higienizada após cada uso.

Abraçadas
A cortina não tardou a receber os primeiros abraços voluntários assim que foi posta no salão do Lar. Estela Lopes Cavalcante, de 76 anos, foi uma das primeiras a experimentar o abraço plastificado. “Achei muito bom ter esse contato de novo, principalmente agora que estamos há meses sem poder receber visitas”, diz ela, que não vê a hora de abraçar o filho de novo. Estela é viúva, nasceu em Cruzeta, mas mora em Natal desde os 18 anos. Está no Lar da Vovozinha desde janeiro. Enquanto não é possível receber o filho, ela ressalta que poder abraçar os funcionários do Lar já é um privilégio. “Agora eu quero abraçar todo mundo que quer ser abraçado”, afirma.

A natalense Janete Alves mora no Lar há mais de dez anos, portanto, é de casa. Estava aflita por não poder abraçar os funcionários da casa, que após tanto tempo de convivência, são pessoas bem próximas dela. A Cortina de Abraços veio na hora certa. “Eu adorei, porque sempre gostei de abraçar e beijar todo mundo, e por causa da pandemia estava só cumprimentando de longe. Agora posso abraçar de novo. Abraço é amor e consideração”, diz.


Créditos: Magnus NascimentoA ação foi realizada no Lar da Vovozinha e no Espaço SolidárioA ação foi realizada no Lar da Vovozinha e no Espaço Solidário


Amélia Tomás, 88 anos, era só sorrisos com a possibilidade de abraçar seus muitos amigos do Lar da Vovozinha novamente. “Estava sentindo muita falta de distribuir meus abraços, porque gosto de todo mundo por aqui. O abraço faz a gente sentir muita coisa boa”, diz ela, que está há três anos na instituição. Dona Amélia tem razão quanto aos benefícios do abraço. Segundo estudos, quando alguém abraça outro durante pelo menos 30 segundos, o corpo começa a produzir ocitocina, um hormônio ligado ao prazer e que proporciona bem estar.

A assistente social Paula Rubim, uma das funcionárias da casa, foi uma das mais abraçadas pelas moradoras. “O meu cotidiano é muito próximo dela, já que estou sempre junto, procurando saber se elas estão bem, portanto, acho natural que elas queiram tanto me abraçar. E eu adoro receber isso”, diz. Paula sabe que a maior queixa entre elas é a impossibilidade das visitas, que foram suspensas desde abril. Portanto, as interações com os trabalhadores da casa se tornaram ainda maiores.

A chegada da Cortina de Abraços permitiu que o abraço que não pode ser dado no visitante, possa ser dado pelos funcionários do lar. “Acredito que essa ação vai contribuir para elevar o astral delas. Elas ficam mais tranqüilas, mais felizes. É algo bom pra todo mundo”, afirma Paula. Ela afirma que, para quem tem família, é ainda mais difícil a falta de convívio. “Estamos fazendo vídeochamadas e ligações durante esse período de isolamento. Elas gostam, mas não é a mesma coisa do contato ao vivo”, diz. A assistente ressalta que ainda não há data para o retorno  das visitas.

Juliana Takemoto, proprietária da franquia natalense da Sodiê Doces, ressalta que a ação é resultado da percepção da empresa de que os idosos são o grupo que mais estão sofrendo com as conseqüências da pandemia. “Além de serem os mais vulneráveis ao vírus, sofrem duplamente com a falta do contato físico com as pessoas que amam”, afirma. Ela mesma pôde experimentar a sensação de poder abraçar alguém de novo. “É uma coisa maravilhosa. Faz tanta falta, e a gente só percebe isso quando está abraçando alguém pela primeira vez depois de tanto tempo”, diz.

A fundadora da Sodiê, Cleusa Maria da Silva, declarou que ação foi pensada para dar um pouco de amor e carinho para os idosos que estão fragilizados nesta fase de isolamento social. “Ser idoso no Brasil já é muito triste e ainda não poder receber um abraço de quem amamos há meses, é desolador”, disse. A marca Sodiê possui 316 lojas abertas no Brasil, e em Natal está há quase cinco anos, localizada na avenida Prudente de Moraes, no Barro Vermelho.