“Aqui, estamos instalando as maiores torres”

Publicação: 2014-06-15 00:00:00
O Rio Grande do Norte assumiu posição de destaque em 2014 na geração de energia eólica e tem ampliado cada vez mais sua participação nesse mercado nos leilões de energia. Mas para garantir bons resultados no setor, é preciso desenvolver a cadeia como um todo. Há aproximadamente dez dias, entrou em operação no estado uma fábrica de torres de concreto para parques eólicos da companhia espanhola Acciona. Situado em Areia Branca, a fábrica que hoje emprega 400 funcionários será responsável pela fabricação de 110 torres de concreto, que serão utilizados em um complexo eólico da Voltalia na região.

Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o diretor da Acciona Windpower Brasil, Christiano Forman, conta um pouco sobre o investimento da companhia em solo potiguar, fala sobre as dificuldades da implantação de um empreendimento como esse no nordeste e mostra o que o estado e o Brasil tem a aprender com mercados consolidados como a Europa, por onde passou e atuou.
Diretor de empresa que monta torres para parques de energia fala sobre implantação da fábrica em solo potiguar
Quando a fábrica da Acciona começou a operar no RN e quais as atividades vem sendo desenvolvidas?
Nós inauguramos a aproximadamente dez dias as operações que são da fábrica de torres de concreto, em Areia Branca. Ela vai produzir torres eólicas do nosso primeiro projeto no Rio Grande do Norte, que é da Voltalia. Hoje temos assinadas com a Voltalia 110 torres, que é o número de aerogeradores que vão ser instalados nos parques da Voltalia, que ficam em Areia Branca e São Miguel do Gostoso. Foram gerados 400 empregos diretos com a fábrica.

Há planos de incluir outros itens na produção do estado, além de torres de concreto, como aerogeradores?
Hoje, o que a gente tem é fabricação dos cubos na Bahia. As pás a gente fabrica com uma empresa parceira do Ceará. O Rio Grande do Norte é um estado muito importante para nós, então dependendo, se nossos clientes continuarem com projetos no Rio Grande do Norte, vamos avaliar as possibilidades. Hoje não tem nada. Mas sempre tentamos manter a produção o mais perto possível de onde temos um maior volume de negócios.

Por que direcionar a produção para torres de concreto no Rio Grande do Norte?
As torres tem uma vantagem logística muito grande de serem produzidas perto do destino. É uma tecnologia passível de se montar fábrica num espaço relativamente curto de tempo. Esses dois fatores aliados, além do fato de o Rio Grande do Norte manter as condições necessárias, com mão-de-obra e insumos, materiais, isso tudo faz com que seja mais interessante fazer esse tipo de fabricação. Basicamente, a grande vantagem da fábrica é que, pelo fato de estar próxima dos parques, isso reduz muito o custo logístico de transporte das torres e como as torres que estamos instalando no Rio Grande do Norte são as maiores do Brasil, com 120 metros, isso para nós é uma vantagem muito grande.

Como funciona o processo de fabricação e instalação dos equipamentos? É a Acciona que monta as torres com os aerogeradores? Já foi entregue alguma peça?
A produção é continua. A fábrica está em constante produção e já temos muitas peças sendo produzidas e várias entregues. O processo funciona da seguinte maneira: a Acciona produz as aduelas, que são as seções da torre. Essas aduelas são produzidas na fábrica, são montadas essas estruturas internas dentro da fábrica e as aduelas são transportadas para o parque. E aí, no parque, essas aduelas vão sendo montadas para formarem seções da torre, que são montadas uma em cima da outra. É um processo também feito pela Acciona, de pré-montagem.

A Acciona sentiu alguma dificuldade para a instalação da fábrica no Rio Grande do Norte?
Sempre há desafios, mas acho de maneira geral o Rio Grande do Norte tem todas as condições de receber empreendimentos desse porte. O que sempre pode melhorar, e isso é um processo de melhora contínua e que nós queremos colaborar, são questões logísticas como estradas para o transporte das peças, mas de novo: acredito que o estado tem todas as condições de receber um empreendimento como esse. E nós acreditamos que, quanto mais nós vamos produzindo no estado, mais ele também vai desenvolvendo mão-de-obra especializada em maiores quantidades. São coisas que vão sendo otimizadas com o tempo.

Com relação a mão-de-obra, os funcionários da fábrica são todos do município ou foi preciso trazer pessoas de outros estados? Há funcionários de fora do país?
A gente tenta recrutar o máximo possível de pessoal do próprio município ou da própria região, mas às vezes a gente não encontra a quantidade de mão-de-obra necessária e acaba tendo que trazer gente de outras localidades. A maior parte é do próprio nordeste, do estado ou de estados vizinhos, e uma parte muito pequena vem de fora do país, para transferência de tecnologia. Como é nossa primeira fábrica no estado, uma das primeiras no Brasil, a gente traz pessoas de fora para fazer essa transferência. É menos de 10% dos funcionários.

Qual o tipo de mão-de-obra necessário para o desenvolvimento dessa área de equipamentos para eólicas?

De mão-de-obra direta, precisamos de muitos ferralheiros, pedreiros, mas também precisamos de muitos líderes de produção, pessoas que saibam justamente coordenar o ambiente produtivo, também engenheiro de produção, já que o ambiente fabril requer esse tipo de profissional, então são esses três níveis.

A Acciona é uma empresa espanhola e que está inserida em um contexto que tem mais experiência com a geração de energia eólica. Quais são as diferenças da produção de lá em relação ao Brasil e ao Nordeste?

Acho que na Europa, como já tem a geração de energia eólica há mais tempo, as empresas já estão mais acostumadas a trabalhar com esse segmento de mercado. Portanto, são empresas que são mais adequadas ao fornecimento nos padrões de qualidade e ritmo de produção necessários, já existe mão-de-obra especializada na produção de componentes eólicos e como a indústria no Brasil é bem mais jovem, nós ainda estamos em formação nesse sentido. Mas acho que é uma questão de tempo para o Brasil para ter tempo de formar essa experiência, essa capacidade e ter o pessoal plenamente capacitado para isso.

O que nós temos a aprender com o contexto europeu de energia eólica?

Acho que esse aprendizado se dá em todos os níveis. Na esfera empresarial, é entender que a energia eólica e a fabricação de equipamentos de energia eólica requer parcerias. As empresas que querem fazer parte desse mercado tem que olhar no longo prazo, então é fundamentalmente desenvolver parcerias para otimizar o valor da cadeia eólica no longo prazo, ou seja, fazer os investimentos na capacidade de produção de componentes, que gerem produtividade a longo prazo, com formação de pessoal, com melhorias de processos de produção, com parceiras de médio e longo prazo entre fornecedores para otimizar a cadeia de energia eólica. Acho que do ponto de vista industrial, a indústria funciona assim, com eficiência. Quanto mais eficiência a indústria tem, mais competitiva fica a energia eólica e mais nós podemos gerar um potencial de longo prazo para ser ofertado.

Então, é buscar eficiência de todos lados, não só em equipamentos, mas na gestão de pessoas. É trabalhar de mãos dadas com os fabricantes para justamente encontrar essa eficiência e trazer o poder público para cooperar e tornar a energia eólica mais competitiva.

O senhor trabalhou na GE e passou por outros mercados, como Estados Unidos e Itália. O senhor poderia contar um pouco dessa trajetória?
Comecei há quase dez anos nesse mercado e, na verdade, tinha uma carreira anterior em outros setores, mas vi no mercado eólico um oportunidade não só de ter uma carreira interessante e apaixonante, mas também de dar uma contribuição. Eu acredito muito que a energia eólica como forma de contribuir par ao desenvolvimento sustentável.

Então, eu comecei trabalhando na GE, nos Estados Unidos, na época que teve um boom muito grande por lá. Então foi muito interessante entender como é que uma indústria amplia sua capacidade de produção em tão pouco tempo, um fenômeno que hoje está acontecendo no Brasil.

Depois disso, também trabalhei coma GE na Europa, e foi interessante ver um mercado mais maduro e ver uma série de lições que podemos trazer para o Brasil. Um exemplo disso é o conceito de parceria com fornecedores. E quando eu decidi voltar para o Brasil, em fevereiro de 2012, foi para trazer essa experiência para cá e dar essa contribuição para o setor aqui.

Quais as perspectivas para energia eólica no Rio Grande do Norte e quais as possibilidades de investimentos da Acciona nesse contexto?
O Rio Grande do Norte para nós é um mercado chave, até porque a nossa tecnologia se encaixa muito bem com o Rio Grande do Norte. O fato da torre ser a mais alta do Brasil, essa questão da produção local das torres, isso tudo para nós encaixa muito bem, então nós esperamos que esse mercado continue sendo muito importante para a Acciona. Mas para isso, o Rio Grande do Norte tem que ser um mercado interessante para o nosso cliente, que é quem na prática constrói os projetos. E para isso, acho que é preciso atentar para a transmissão no Rio Grande do Norte, que não pode se tornar um gargalo. É preciso melhorar as condições de transmissão dos projetos eólicos do Rio Grande do Norte, que é uma questão que já está sendo tratada. Então, resolvendo a questão da transmissão, o Rio Grande do Norte toda a possibilidade de ser um dos protagonistas da energia eólica do Brasil e nós temos condições de sermos os protagonistas dentro do Rio Grande do Norte. Estamos com a produção, vamos ter em breve oferta de operação e manutenção e queremos que o Rio Grande do Norte continue sendo a nossa casa.

Em que situação está a construção de centro de manutenção da Acciona em Mossoró?
Vamos ter contratos com os parques que estamos trabalhando agora de operação e manutenção. Como vamos pega um volume importante na região, estamos fazendo esse centro para atender toda a região e já pensamos até em expansões futuras. Ele com certeza vai estar pronto este ano.

A Acciona também gera energia em outros países?
Fora do Brasil, a Acciona é uma das maiores geradoras de energia eólica do mundo, mas no Brasil a Acciona trabalha apenas coma fabricação de componentes. Foi uma decisão de investimento do grupo. Por enquanto, os investimentos de geração estão sendo feitos fora do Brasil.