Área de lazer pode ser demolida

Publicação: 2010-06-04 00:00:00
“Isso aqui não é somente um amontoado de barro. É também suor e o sonho desses jovens”. Dessa forma, Luciana Matos, moradora de Cidade da Esperança, resumiu o impasse entre a Prefeitura e a comunidade do bairro acerca de uma pista de bicicross e skate, localizada ao lado do Ginásio do bairro. Segundo os moradores, o projeto da Secretaria Municipal de Saúde é construir a nova Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) da zona Oeste onde hoje é a área de lazer e esporte da comunidade. Jovens e representantes de associações resolveram se unir para impedir a demolição da pista.

Os jovens do bairro utilizam as pistas de skate e bicicross para treinos e lazer e são contrários à demolição da área comunitáriaAmélia Freire, representante da  organização não-governamental S.O.S Esperança, explica que as pistas de skate e bicicross foram construídas em mutirão no ano de 1986, pela própria comunidade. Ela acrescenta que o terreno utilizado pertence à Secretaria Estadual de Trabalho, Habitação e Assistência Social. Sem apoio do poder público, os próprios usuários das pistas se mobilizam para fazer a manutenção do espaço. “Quando chove estraga a pista de bicicross e nós pedimos apoio de empresas e trabalhamos para compactar o barro novamente. Trabalhamos juntos para manter o nosso espaço”, diz Fábio Plínio, atleta de bicicross.

Em uma reunião no Conselho Comunitário, há alguns meses, com a prefeita Micarla de Sousa anunciou a construção da UPA. Na mesma hora, houve protestos pela demolição das pistas. A prefeita prometeu uma audiência para tratar do tema, de acordo com moradores, mas a promessa não foi cumprida e audiência nunca aconteceu. A comunidade só ficou sabendo da confirmação quanto a escolha do terreno no site da Prefeitura, através de uma notícia da Assessoria de Imprensa veiculada no dia 24 de maio.

“Não fomos consultados, o que é um absurdo”, diz Amélia, defendendo o princípio da participação popular nas decisões do poder público. O principal argumento para o protesto contra a construção da UPA no local da área de lazer é a ligação sentimental dos adolescentes do bairro com aquele espaço. Amélia Freire conta que, além de ser o local preferido para lazer, as pistas servem como área de treinamento para os atletas de bicicross e skatistas.

O bicicross é uma corrida de bicicletas em uma pista cheia de obstáculos, o que permite acrobacias e exige técnica e coragem dos atletas. Assim como o skate, não se trata de um esporte muito difundido e a quantidade de locais para treinamento é bastante limitada. Segundo Fábio Plínio, existem apenas duas pistas além da Cidade da Esperança: em Ponta Negra e Santa Catarina.

Já os pais dos usuários afirmam que o espaço de lazer e prática de esporte são uma ferramenta na prevenção do envolvimento com drogas e criminalidade. “Nosso bairro sempre foi associado a esse tipo de atividade, mas essas pistas são um instrumento para livrar esses jovens desse mundo. Quando eles passam a freqüentar e praticar o esporte, a vida deles muda”, afirma.

Um grupo de teatro de arena também funciona no local, o que aumenta a resistência dos moradores à construção da UPA naquele local. “Temos atletas de nível nacional e internacional aqui, que foram formados aqui. Apesar de que não é um espaço como o que gostaríamos, é o que temos”, complementa Fábio.

Moradores querem que UPA seja construída em outro local

Na opinião dos moradores da Cidade da Esperança, que estavam ontem na área de lazer, a Unidade de Pronto Atendimento anunciada para o bairro pode muito bem ser construída em outro local. E a área apontada por eles não é longe do terreno onde estão a pista de bicicross, o teatro de arena e a pista de skate. Fica mesmo vizinho. É a área e o prédio onde funcionava o Centro de Saúde do bairro.

Considerado, até alguns anos, um dos centros de referência na rede básica de saúde da capital, a unidade da  Cidade da Esperança vive, hoje, uma realidade completamente diferente. A maioria dos serviços oferecidos antes, como o de obstetrícia, foram desativados. O Pronto Socorro está fechado há dois meses e o atendimento ambulatorial com consultas marcadas – o único ainda aberto – só funciona nos dias uteis. Ontem, por ser feriado, tudo estava fechado. Nos fins de semana, as portas também  não são abertas.

Alguns moradores dizem não entender porque a prefeitura opta por construir uma nova UPA, demolindo um equipamento de lazer, e não reforma as instalações existentes e subutilizadas da antiga unidade de saúde do bairro. “Não somos contra a construção da Unidade de Pronto Atendimento aqui. É um serviço do qual nós precisamos. O bairro precisa, mas ela pode ser construída em outro lugar, sem demolir uma conquista dos moradores”, afirma Luciana Matos. Sem o atendimento na unidade do bairro, os moradores  têm que procurar a unidade de Cidade Satélite ou no PS do Clóvis Sarinho.

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