Areias brancas e musicais

Publicação: 2017-11-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

O cantor e compositor potiguar Mirabô Dantas é um homem cheio de histórias. Foi gravado por nomes como Fagner, Elba Ramalho, Lecy Brandão e Terezinha de Jesus, além de parceiro de alguns poetas que marcaram a história da Música Popular Brasileira, como Capinam e Maurício Tapajós. Nascido em Areia Branca, em 1947, ele despertou para as artes logo cedo, por incentivo dos pais, que não gostavam de ver os filhos soltos na rua.

Mirabô em Ramos: A Cidade Alta, de frente pro Potengi

Em casa desenhava e ouvia bastante música. Ainda garoto, chegou a se apresentar na cidade como percussionista do Trio Hawaii, quando trios musicais eram populares no Estado. Tudo isso foi antes de chegar a Natal, com 14 anos, e entrar de cabeça na música.

Na capital potiguar ele aprendeu a tocar violão e a compor suas primeira músicas – muito mais na criação de arranjos do que letra. Em sua casa, na Praia dos Artistas, quando aquela orla era o grande point dos natalenses e turistas, hospedou os jovens Alceu Valença, Raimundo Fagner e Gonzaguinha. 

Quando os artistas nordestinos partiram para tentar a sorte na música no Rio de Janeiro, onde estavam as principais gravadoras do país, Mirabô foi junto. Ao lado de Elba e Zé Ramalho, Terezinha, Amelinha, Fagner, Geraldo Azevedo e Morais Moreira, o músico potiguar correu o RJ promovendo shows. Um pouco tímido e avesso a algumas características do mercado fonográfico, ficou à margem e passou a se dedicar ao sindicato dos músicos do RJ.

Lembranças no celular: Mirabô (à direita), com Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e colegas de música e sonhos no Rio
Lembranças no celular: Mirabô (à direita), com Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e colegas de música e sonhos no Rio

Depois de vinte anos na capital fluminense, retorna ao RN e vai justamente para sua terrinha do coração, Areia Branca, na Costa do Sal. Lá assumiu a secretaria de cultura do município, sendo responsável por criar a Fundação de Cultural da cidade. Hoje, Mirabô vive em Natal, no bairro da Cidade Alta, quase de frente para o Rio Potengi, na Rua da Misericórdia. De lá, ele vai à pé para a maioria dos lugares que precisa ir ao longo da semana, como o Sebo Balalaika, onde ensaia e dá suas aulas de violão. Nesta conversa com a TRIBUNA DO NORTE, o artista recorda histórias de sua carreira e a importância de Areia Branca na sua vida.

Partituras no chão
Venho de uma família de músicos, sou dos Dantas de Jardim do Seridó, que, dentre alguns nomes mais conhecidos, estão Tonheca Dantas, compositor de “Cinema Royal”, e o maestro Bembem Dantas, que tem um trabalho belíssimo com a Filarmônica de Cruzeta. Meu pai, Miraboux, era estivador e músico, trombonista, ensinou muita gente lá em Areia Branca. Aprendi música no chão, com ele riscando na terra as partituras.

Época de fartura
Areia Branca era muito visitada, recebia vários navios por causa do porto de sal. Corria muito dinheiro e a população acabava tendo contato com pessoas do mundo inteiro. Alguns até aprendiam inglês. Naquela época nossas escolas funcionavam muito bem. Talvez por isso muita gente boa que trabalha com as letras tenha saído de lá.

Os cinemas da cidade
Quando eu era garoto lembro que tinha dois cinemas na cidade, o Cine São Raimundo e o Miramar, que era mais moderno. Vi todas as chancadas da Atlântida e faroestes nos cinemas de lá. Hoje o São Raimundo virou uma agência bancária e o Miramar foi derrubado. Quando estive na fundação de cultura de Areia Branca, nos anos 1990, ainda pensei em restaurar mas não tinha dinheiro. 

Mais em casa que na rua
Fui criado em casa. Papai não deixava a gente ficar muito solto na rua. Pra você ter uma ideia, não aprendi a nadar, mesmo morando numa cidade com rio e mar. Meu refúgio foram a música, os livros e as artes visuais. Eu desenhava bastante naquela época. Depois deixei pra lá. Hoje tenho voltado a desenhar. No quintal de casa a gente montava um circo e cobrava três palitos de fósforo pela apresentação.

Porto Ilha
A construção do Porto Ilha, na década de 1970, foi uma das coisas que mais me marcaram na cidade. Com ele acabaram muitas das profissões relacionadas a produção do sal. Os barcaceiros, estivadores, conferentes, salineiros ficaram sem emprego porque as máquinas tomaram seus lugares. Marcou a quebra da salina manual para a fase industrial. Eu estava morando em Natal nessa época, mas sempre visitava meus pais e acompanhei o drama deles. Vi que os filhos de muita gente teve que busca trabalho longe dali.

Iniciação na música
Em Areia Branca eu tocava percussão. Cheguei a fazer parte de um trio musical. Só quando vim pra Natal que aprendi a tocar violão e comecei a compor. Naquela época Natal não tinha muita programação cultural. Eu tinha que ir arranjando lugares para tocar em restaurantes e bares.

Capinam, Terezinha de Jesus 
Comecei a compor depois que vi a música “Ponteio”, do Capinam e Edu Lobo, no Festival da TV Record. A canção me fez perceber que era possível compor músicas que tocavam em temas sociais. Antes disso, lembro de ter feito uma música para um poema que Newton Navarro passou pra mim. Capinam é um grande parceiro meu. Tenho 13 músicas com ele. Cinco foram gravadas por Terezinha de Jesus. Em cada um dos cinco discos dela ela colocou uma composição da gente. Terezinha foi a artista que mais gravou música minha.

Relação com as gravadoras do Rio
Fagner levou todo mundo pra gravar disco na CBS. Eu comecei a produzir o meu, mas com a chegada de um novo diretor as coisas mudaram. Eu tinha duas músicas gravadas e ele já quis lançar num compacto. Eu não quis. Todo mundo lançado LP e eu ia sair com um compacto? Sacanagem. Só voltei na gravadora de novo depois que acabou meus três anos de contrato. O compacto eles lançaram.

Mares Potiguares
Meu primeiro disco eu lancei em 2005. “Mares Potiguares”. Vendi minha casa de Areia Branca para produzir o álbum do jeito que quis. Foi um trabalho que contou com a participação da Rosa de Pedra. A música título é uma parceria minha com Capinam. Foi gravada antes por Terezinha de Jesus e, depois do meu disco, por Camila Masiso acompanhada da Orquestra Sinfônica da UFRN. Normalmente eu faço mais a música e os parceiros entram com a letra, mas por se tratar de uma música sobre Natal, eu que sabia falar da cidade e coloquei alguns versos.

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