Arquitetos investem na conservação de imóveis antigos

Publicação: 2018-07-01 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

Restaurar e conservar um imóvel antigo é manter a história viva. A história das cidades e também de si mesmo. O avanço do tempo costuma ser cruel – sobretudo em Natal – quando se fala em patrimônio histórico. Mas fora das áreas de preservação oficial, há iniciativas que procuram despertar a consciência da necessidade de conservar, e até mesmo mostrar que o objeto antigo também é questão de estilo, estética e cultura. As linhas entre o velho e o novo podem - e devem - habitar a mesma calçada.

Cara nova


Um antigo prédio térreo na esquina da rua Seridó com a avenida Nilo Peçanha, em Petrópolis, chamou a atenção do arquiteto Rodrigo Gurgel e de sua sócia no Dua Arquitetura, Rita Pinheiro. O local que por muitos anos foi uma loja de material de construção, foi convertido num elegante escritório de arquitetura. “Quando colocaram o prédio para locação, foi uma questão de honra manter o local e dar uma nova vida a ele, até como uma espécie de crítica à derrubada de imóveis antigos”, diz ele, se referindo ao belo conservatório de música vizinho que foi posto abaixo e transformado numa impessoal farmácia.
Fachada do imóvel restaurado em Petrópolis, onde funciona o escritório da DUO Arquitetura, recebeu grafite do artista Bones
Fachada do imóvel restaurado em Petrópolis, onde funciona o escritório da DUO Arquitetura, recebeu grafite do artista Bones

O arquiteto conta que foram mantidos na fachada todos os traços e esquadrias já existentes, recebendo apenas alguns vidros para manter a climatização interna. Uma porta que foi tapada com alvenaria no passado ganhou um grafite colorido para cobrir a emenda, dando um toque moderno e urbano. O prédio recebeu também novos gradis com design retro, além de uma iluminação de destaque na fachada, valorizando a construção à noite. Internamente, todo o piso foi mantido, além das portas de uma madeira já extinta. As paredes grossas foram descascadas, revelando os belos tijolinhos aparentes.

“O prédio recebeu algumas modernidades, mas ainda respira o antigo e o original”, afirma Rodrigo. Restaurar uma construção antiga é um trabalho cheio de peculiaridades. E demanda sim, mais tempo, pesquisa e dinheiro. “Às vezes sim, pode ser mais barato derrubar e construir algo novo, porém querer morar/trabalhar em um prédio antigo deve ir além do valor financeiro, e ver sim o valor afetivo pelo lugar, pela historia pela identidade de um bairro e cidade”, diz.

As construções de épocas passadas têm características que exigem um trabalho específico. Segundo o arquiteto, os prédios antigos eram mais resistentes, e estruturalmente são mais superdimensionados, porém muitas vezes os métodos construtivos eram diferentes, e qualquer intervenção deve ter o acompanhamento de um profissional para solucionar os problemas de forma mais viável. “A troca de toda parte elétrica é inevitável, sempre acontece”, ressalta. A equipe de construção também é variável de acordo com cada serviço.

Rodrigo Gurgel ressalta que é possível ter prédios antigos adaptados para uma realidade atual – desde que não seja tombado. Pode-se fazer mudanças internas sem modificar as características do mesmo. Muitas intervenções que unem o moderno com o antigo são grandes referencias arquitetônicas.  “O mais importante de enaltecer um prédio antigo, é saber que vai devolver a sua cidade um monumento arquitetônico, que muitas vezes é difícil reproduzir em dias atuais, onde as linhas quadradas e gélidas, imperam por toda cidade”, afirma.

Restauro apurado


Intervir numa obra antiga não é um trabalho convencional. O arquiteto Haroldo Maranhão, responsável pela obra da Casa da Ribeira – que verteu um centenário armazém em teatro – sabe bem disso. “Seja um palacete ou uma casa, tem que fazer  pesquisa histórica sobre o local, analisar o estado de conservação, e vários prospectos arqueológicos. Tudo isso para manter a integridade do edifício, ou seja, preservar suas características estéticas e históricas”, explica.

Haroldo admite que é preciso boas condições financeiras para tocar a obra, mas que isso também vai depender do comprometimento do edifício. “Uma coisa é recuperar a estrutura, e a outra é a manutenção. O restauro exige uma mão de obra qualificada para não danificar. É um trabalho com maior apuro técnico”, ressalta.

A Casa da Ribeira é um exemplo do apuro que o restauro exige. Haroldo conta que foi construído um novo telhado; as esquadrias foram substituídas por outras semelhantes (apesar do material diferente), o assoalho de madeira virou laje, e algumas paredes exibem os tijolos antigos. “Fizemos uma intervenção em função do uso contemporâneo, mantendo as referências da casa e qualificando seu uso para o teatro”, explica. Haroldo reclama que falta cultura patrimonial em Natal. “A gente sempre esbarra na falta de vontade política e articulação dessa área”, diz.

Desejo pelo novo


O arquiteto e professor universitário Paulo Nobre afirma que o “desejo pelo novo” é um traço cultural da capital potiguar, o que explicaria o pouco apreço pelas paisagens antigas. “Claro que ao lado disso há também desconhecimento e uma ignorância sobre a importância da preservação”, analisa.

Ele acredita que o interesse pelo imóvel antigo tem a ver com valor sentimental, familiar, ou bagagem cultural do indivíduo. “Nem todos têm a noção de que a construção antiga agrega valor. Ainda creio que é um público muito específico”, afirma. Paulo cita como bom exemplo a Galeria de Arte B-612, na Ribeira. “Um lugar bonito e refinado, instalado numa área que o poder público abandonou. É um investimento que vai na contramão”, diz. O professor ressalta que Natal poderia se inspirar em lugares Recife, Olinda e Salvador, onde o novo e o antigo souberam se harmonizar.

Desenhos de rua


O projeto de extensão “Ribeira Desenhada”, do curso de arquitetura e urbanismo da UFRN, é uma dessas iniciativas que procura repensar o espaço histórico diante dos avanços do tempo – e do descaso com isso. O professor e arquiteto José Clewton do Nascimento sai uma vez por mês com seus alunos para desenhar e conversar sobre o patrimônio antigo da velha cidade baixa. “Discutimos espaços culturais, locais que se relacionam com a história local, abandono, decadência”, diz.

José Clewton ressalta que a ideia não é criar soluções, mas provocar a discussão, gerar a possibilidade de ações. O projeto começou em março e irá até dezembro. Até o final será realizada uma exposição com os desenhos e um documentário. A inspiração veio dos Urban Sketchers, uma organização global e independente que se conecta através de desenhos que contam a história dos ambientes.

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