Arquitetura se reinventa para o pós-pandemia

Publicação: 2020-05-31 00:00:00
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Tádzio França
Repórter     

Momentos de crise mundial ligados à saúde costumam promover mudanças profundas nas estruturas da sociedade - incluindo aquelas mais íntimas, onde as pessoas vivem e se movimentam. A arquitetura, seja nas casas ou nas ruas, recebe diretamente os efeitos das reorganizações impostas pelas novas necessidades. O planeta ainda está convivendo com a covid-19, mas as adaptações necessárias para driblar seus efeitos já estão influenciando o cotidiano e gerando projeções sobre o que virá nos próximos anos.

Créditos: CedidaA arquiteta e urbanista Nádia Sharapin afirma que quem trabalha com arquitetura deverá humanizar ainda mais seus projetos e se reinventar para oferecer soluções e adaptações para o pós-pandemiaA arquiteta e urbanista Nádia Sharapin afirma que quem trabalha com arquitetura deverá humanizar ainda mais seus projetos e se reinventar para oferecer soluções e adaptações para o pós-pandemia

Toda mudança faz parte de um longo processo. A arquiteta e urbanista Nádia Sharapin explica que muito dos ensinamentos e práticas obtidas para o design das casas contemporâneas surgiram após grandes epidemias. “As mudanças começaram do urbanismo para a arquitetura, porque as ruas antigamente eram becos estreitos com pouca iluminação e ventilação, carentes de infra-estrutura”, diz. Ao se pensar no espaço público das cidades, logo se passou a pensar também nas residências daqueles habitantes.

As epidemias contribuíram para moldar as cidades como se conhece hoje. Ao longo do tempo, doenças como peste negra, cólera, gripe espanhola, tuberculose, entre outras, estimularam mudanças positivas para as cidades, trazendo infraestrutura como melhor saneamento, fornecimento de água, atenção nos calçamentos, construções de parques, praças, e mais espaços abertos.  Nádia ressalta que foi fundamental para esse processo as evoluções da medicina e da ciência, e a atenção dos profissionais de arquitetura e urbanismo com o coletivo.

Casa limpa

Os lares foram se tornando ambientes cada vez mais preocupados com a saúde e o bem estar de seus ocupantes. São mudanças que foram incorporadas ao dia a dia, e que podem passar despercebidas por quem já está acostumado a conviver com elas. Nádia explica que uma das alterações mais visíveis foi a valorização de uma arquitetura minimalista. Vieram mobiliários mais práticos e bem definidos; espaços de transição nas entradas das residências, juntamente a um lavabo próximo. Além disso, uma preocupação maior com a ventilação, a iluminação natural, e a utilização de revestimentos e materiais de revestimento fáceis de limpar, principalmente nos banheiros e nas cozinhas.

É algo comum hoje em dia toda casa contar com armários nos dormitórios, cuja finalidade é concentrar a guarda de objetos num só lugar e facilitar a limpeza dos quartos; a adoção dos azulejos, que saíram dos hospitais do século 19 e foram para as cozinhas e banheiros, com a função de deixar esses ambientes mais bonitos, claros e asseados. Já os os lavabos tinham objetivo de evitar o compartilhamento do banheiro privado, além de dispor de uma pia para a lavagem das mãos.

Uma característica evidente das casas contemporâneas em relação às do passado, tem a ver com a ventilação, insolação e iluminação. Nádia explica que até o começo do século 20 era comum a existência de ambientes fechados e com pouca ventilação e espaços para receber luz natural. Alguns quartos nem tinham janelas. “E levando em consideração que também existiam ambientes com aglomeração de pessoas e baixa circulação de ar, esses lugares se tornavam cenários propícios para a propagação de doenças”, ressalta.

Lições do passado

Segundo a arquiteta, com o Covid-19, muitas lições do passado voltarão à evidência na arquitetura dos dias que estão por vir. “Todo projeto de arquiteto e urbanista precisará ser alinhado com as medidas sanitárias que voltarão a ser pauta, como questões de armazenamento, segurança e higiene no lar”, diz. Ela afirma que será importante valorizar uma arquitetura minimalista, com mobiliários práticos, revestimentos e materiais de fáceis limpeza e manutenção, mas lembrando de agregar junto a isso a funcionalidade, ergonomia, e os elementos que tragam vida pra casa.

A ocasião torna as pessoas mais aptas a avaliar suas necessidades, segundo a arquiteta. “É importante levar em consideração que passamos a maior parte do nosso tempo num ambiente corporativo ou no lar, e ao longo do dia eles acabam influenciando em nossa energia, no relaxamento, na produtividade, e na ansiedade”, diz. Então haverá mais atenção na influencia das cores, quadros, incidência de luz natural, barulhos, e vegetação natural. Tudo isso com objetivo de trazer equilíbrio e emoções positivas.

Os espaços comerciais, seriamente atingidos pela pandemia, deverão incorporar as adaptações por um bom tempo. “Mais do que nunca será importante mostrar ao cliente o quanto você se preocupa com a saúde e o bem estar dele”, diz ela. Os ambientes de trabalho também passarão por adaptações. Nádia explica que as empresas precisarão se programar para reduzir o adensamento geral em todos os ambientes.

A arquiteta e urbanista acredita que tudo ainda é uma questão de projeção para o futuro, e obedece a um processo que vai se desenrolando lentamente. “Serão novos comportamentos que deverão virar hábito. Não é possível ter certeza de todas as respostas, mas temos que nos preparar para o futuro e analisar a todos, independente de gerações, classes sociais e culturas, em todas as dimensões e usos. Será o novo normal”, diz Nádia, que está à frente da Almha Arquitetura. Quem trabalha com arquitetura deverá humanizar ainda mais seus projetos.

Há o pensamento de que o coronavírus não seja a última pandemia pela qual a humanidade vai passar. E a arquitetura deve se projetar para isso. “Que ela venha para fazer repensar a nossa sociedade e nos reinventarmos dentro do possível. E que possamos oferecer soluções e adaptações pra esse momento de pandemia e também para o pós, levando em consideração que os espaços construídos podem auxiliar no controle de infecções”, conclui.





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