Artistas ocupam Casarão Guaporé

Publicação: 2017-04-05 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter do Viver


O município de Ceará-Mirim viveu tempos áureos da época do Império até o início do século XX. Foi uma fase patriarcal e escravocrata, de casarios modernos e festas pomposas, tudo bancado pela produção açucareira. Apesar da conservação de muitos prédios históricos no entorno urbano, na área rural a situação é diferente, onde alguns dos mais antigos engenhos da região estão em ruínas. Um dos que ainda resistem de pé, apesar da precariedade de sua estrutura, é a Casa Grande  do Engenho Guaporé, construída em meados de 1850.

Guaporé é parte importante da história de Ceará-Mirim
Guaporé é parte importante da história de Ceará-Mirim

De arquitetura neo-clássica, o prédio já abrigou o governador da província Vicente Inácio Pereira, foi casa de veraneio do Barão de Ceará-Mirim, Manuel Varela do Nascimento, e, depois da reforma de 1978, passou a guardar parte da história do Rio Grande do Norte na forma do Museu Nilo Pereira, desativado há 16 anos. Triste com a situação deplorável do casarão – tomado pelo mato, pichado, com portas e janelas roubadas, habitado por cobras, morcegos e outros bichos – um grupo de cinco artistas cearamirinenses resolveu agir. Autoproclamados Guerreiros do Guaporé, eles ocuparam o espaço e, desde o carnaval, vêm, aos fins de semana, organizando o prédio para voltar a receber a população.

“Encontramos o lugar em estado de miséria. Se tinha alguma coisa dentro roubaram. As paredes estão rachadas. De madeira nobre, só não levaram a escada e o teto porque são de material pesado. A madeira do piso de cima já foi. Era preciso fazer algo para salvar o prédio”, diz Fábio di Ojuara, um dos artistas do movimento. Conhecido pela intervenção “Toda Merda Agora É Arte”, em que propõe uma reflexão sobre o cenário atual da arte contemporânea em bienais e salões que consegue entrar de penetra, ele agora chama a atenção das pessoas para o estado de abandono de um pedaço da história potiguar. Nascido em Natal, ele reside em Ceará-Mirim desde o início dos anos 1990 e pode vivenciar o Museu Nilo Pereira aberto e com uma ativa programação cultural – o próprio artista chegou a realizar ações em um dos eventos. “O museu era frequentado, tinha exposições de arte, saraus, lançamentos de livro, fora o acervo que contava a história da cidade”, diz o artista em visita a TRIBUNA DO NORTE.

Foi Ojuara que atentou para a situação de abandono do Casarão. Dias antes do carnaval ele estava a caminho da praia de Muriú, onde alugaria uma casa para passar o feriadão, quando resolveu parar na estrada e ver de perto as condições do prédio antigo – o Casarão está cerca de cinco quilômetros do centro urbano do município. “Bateu a tristeza na hora. Porque conheço a história do museu, aproveitei o seu tempo áureo. Perdi a vontade de curtir o carnaval e convidei outros artistas para ocupar o lugar”, conta.

Os “guerreiros” de Guaporé pretendem manter o lugar
Os “guerreiros” de Guaporé pretendem manter o lugar

As primeiras ações foram de limpeza geral, que durou praticamente todo o carnaval. Depois, os artistas passaram para as paredes, onde, a cada fim de semana, eles tem pintado a história de Ceará-mirim, lembrando de lendas locais, a arquitetura de alguns prédios antigos, a religiosidade dos moradores e alguns personagens importantes da cidade. “Quando a gente está lá nos fins de semana as pessoas já visitam o espaço e nos dão apoio. A receptividade é ótima”, afirma Ojuara.

Mantido pela Fundação José Augusto (FJA) o Museu Nilo Pereira foi desativado há pelo menos 16 anos e seu acervo, trazido para Natal. Ojuara chegou a entrar em contato com a diretora da FJA, Isaura Rosado, que lhe disse não poder realizar nada no espaço enquanto questões jurídicas envolvendo o terreno não forem resolvidas. Quem também visitou o espaço foi o secretário de cultural do município e a presidenta da Academia Cearamirinense de Letras e Artes. Segundo Ojuara, ambos se entusiasmaram com a iniciativa e disseram ir atrás de viabilizar melhorias para o local. “Mesmo que as autoridades não venham a fazer nada pelo espaço, vamos continuar ocupando. O Casarão não vai ficar mais abandonado. Estamos dispostos a movimentar o lugar com exposições e atividades culturais. Ceará-mirim tem uma história importante, que remonta ao período do Império e à fase áurea da produção de cana-de-açúcar no estado. As pessoas são carentes de espaços culturais na cidade. A ocupação  acaba se tornando ainda mais importante”.


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