As cismas de Vereda

Publicação: 2020-12-27 00:00:00
Woden Madruga 
woden@tribunadonorte.com.br

Na véspera do encontro de Júpiter com Saturno, visto do alto do Morro do Careca, caiu na minha bacia das almas mensagem do mestre Florentino Vereda que, por conta dessa pandemia desastrada, mantem-se recolhido em seu chalé nas margens da Lagoa do Bomfim cumprindo rigorosamente os protocolos do confinamento social, mas com a luneta aberta para o que acontece no resto da terra: “Algumas palavras que, espero, não lhe pareçam sombrias. São apenas reflexões de quem, como muitos, está se escondendo da vida para escapar da morte. Um abraço. Que se cuide! ”

Título da sua crônica: “Reflexões sobre a   vida e a morte”. Vai na íntegra:
“No filme O ÚLTIMO DESEJO  Jack Dods (Michael Caine), hospitalizado com uma doença terminal, recebe a visita do amigo Ray Johnson (Bob Hoskins) que vinha se despedir dele. Conversando sobre os velhos tempos, o amigo lamenta a doença e tenta consolá-lo. E ele diz: “ruim é pra quem fica”.

Está ficando ruim para nós que, por enquanto, ainda estamos ficando. Muita gente boa partindo. Aberta a caixa das saudades, não se consegue trancá-la novamente. A morte resolver dar o ar da sua desgraça. Cansou de ser banalizada em filmes de quinta categoria; de ser apenas dados estatísticos maquiados por governos incompetentes e corruptos; mera coadjuvante dos noticiários da TV; fonte de renda para empresários inescrupulosos. Em vez de tirar férias, como em “As intermitências da morte”, de Saramago, resolveu mostrar quem manda. 

Não se limitou a atuar no varejo, pescando com anzol. Jogou uma tarrafa que a cada lande arrasta um cardume de cadáveres. Não se veste de preto nem derrama sangue. Não quer ser confundida com abecedistas ou americanos. Prefere sufocar-se aos poucos, como uma metáfora ao desperdício do oxigênio destruído pelas matas queimadas, pelos rios transformados em esgotos, pelo plástico despejado nos oceanos, pelo CO2 dos veículos e das indústrias que jogam fumaça pelos céus e dinheiro nos bolsos dos donos. Também não usa mais uma fosse, para não lhe atribuírem alguma tendência ideológica.

Sua mortalha não tem bolsos, pois não precisa amealhar nada. Não dá nada a ninguém: apenas tira e joga fora o bem mais precioso eu ada um de nós tem e, quase sempre, desperdiça ao longo da vida. A morte não tem partido nem ideologia. A morte não tem partido nem ideologia. Não discute política, futebol ou religião. É soberana e implacável. A única que trata a todos democraticamente. Ninguém lhe escapa. Às vezes se descuida e leva muita gente boa antes da hora, enquanto canalhas – que nem deveriam ter nascido – conseguem se esconder por algum tempo. Mas que vão; vão.

E nós que ficamos: como ficamos? Trancados dentro de casa, acovardados ante um inimigo microscópico, precisando retomar a vida que se dizia normal. Sociólogos, cientistas, psicólogos, economistas e “autoridades” formulam teorias para prever como será o “mundo pós-pandemia”. Onde estavam antes, que não desconfiaram de nada? É muito fácil prever o futuro depois que ele acontece. Eu – mesmo com o risco de parece pessimista –não imagino um mundo mais solidário, um povo mais fraterno, mais humano. Até mesmo os dinossauros, se tivessem sobrevivido ao asteroide que os eliminou, continuariam a se devorarem uns aos outros. E olha que eles não conheciam a ganância, a desonestidade, a safadeza.

O sofrimento coletivo é inevitável para cada um. Salve-se quem puder. O impacto inicial é como uma pedra lançada à água, que prova ondas circulares. Quanto mais elas se afastam do centro, menos se sentem seus efeitos, até serem completamente ignorados. 

Quantos quartos desarrumados, quantos filhos já morreram, tanto pranto derramado. As estatísticas não medem o sofrimento. Limitam-se a meros números, como se fossem apenas cálculos matemáticos. O desemprego aumentou tantos por cento; o varejo está vendendo menos; a balança comercial apresentou déficit. Pequenas empresas fechando suas portas, famílias despejadas por falta de pagamento dos aluguéis. 

Numa guerra, pelos menos veem-se aviões despejando bombas, ouve-se o estampido das balas, sente-se o cheiro da pólvora. Trancados em casa somo como soldados dentro das trincheiras durante vários dias, temendo levantar a cabeça e olhar pra fora, arriscando-se a levar um tiro do inimigo. Até que, resistindo ao tédio e ao marasmo, resolvem sair a campo aberto, atirando para todos os lados, até serem atingidos no peito e morrerem.
Morte real; velório virtual. Sem a presença do amigo Ray Johnson. ”

Torto Arado
Depois de vencer em novembro o Prêmio Jabuti com o seu romance “Torto Arado”, o escritor baiano Itamar Vieira Junior volta agora em dezembro a ganhar outro importante prêmio, o Oceanos -  promovido em Lisboa - com o mesmo romance. Aliás, em 1918, também em Portugal e também com “Torto Arado”, que é o seu romance de estreia, ele subiu ao pódio para receber o Prêmio Leya.

“Torto Arado” foi umas minhas melhores leituras de novembro, dividindo esse grande prazer com “Redemoinho em dia quente” (contos) da cearense Jarid Arraes (entre os cinco finalistas do Jabuti), forte sotaque sertanejo do cariri do Padim Ciço.  Fecho o terceto com “Samuel Wainer – O homem que estava lá”, de Karla Monteiro, excelente biografia do grande jornalista. São 580 páginas, grande livro mesmo. 

A história contada em Torto Arado ocorre no sertão baiano (Chapada Diamantina). As irmãs Bibiana e Belonísia, trabalhadoras rurais, vão revelando a dura realidade do trabalho no campo, os preconceitos sociais e até raciais, mas conta também a alegria da sua gente quando do prenúncio do inverno que vai chegando. Transcrevo o trecho: 

“Semanas depois chegaram as primeiras nuvens de chuva, e da terra subiu um frescor que os trabalhadores chamavam de ventura. Diziam que poderíamos cavar um pouquinho o barro seco para sentir que a umidade iria chegar, para sentir a terra mais fria. Era o sinal de que o tempo da estiagem estava findando. Não tardou muito para as primeiras gotas de chuva caírem do céu, e mesmo com todo o desalento em que a nossa casa havia afundada com a partida de Bibiana, a minha mãe sorriu e colocou os tonéis para encherem de água. Vi as mulheres da fazenda entoarem suas cantigas com mais força pelos caminhos, enquanto levavam suas roupas para lavar no rio que crescia em volume, ou carregando suas enxadas para campinar e fazer a coivara no terreno onde fariam seus plantios. Os homens só puderam se juntar às mulheres depois de limpar o terreno onde plantariam as roças dos donos da fazenda.

A chuva a cada dia caía mais forte e se estendia por mais tempo, e com ela vinham as cores misteriosas do céu, dos animais e da gente que vivia em Água Nova. ”









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