“As estruturas do comércio já estão sufocadas”

Publicação: 2012-02-12 00:00:00
Sara Vasconcelos - repórter

O comércio vive uma nova fase de inclusão no mundo virtual. O uso de novas tecnologias e redes sociais deverá estreitar o relacionamento entre consumidores e lojistas. Esta é a tendência mundial, segundo o superintendente da CDL Natal, Adelmo Freire, discutida em janeiro, durante a maior feira internacional do comércio, realizada em Nova York, a 101ª NRF. Durante os dias de evento os participantes tiveram a oportunidade de conhecer as tendências do varejo para 2012 e para o futuro, viram como as conexões e novas tecnologias podem motivar os varejistas para a inovação e novas oportunidades de negócio. Esse é um dos assuntos que Freire aborda na entrevista a seguir, em que também estima que o recuo do setor em 2011 deve se manter durante este ano. O crescimento tímido conta com políticas de incentivo e redução de impostos para acontecer. “Iremos viver um momento crítico, sufocado por uma solução imediata, que ameniza o problema e volta a explodir em outro país”, analisa o superintendente. Adelmo falou ainda sobre a carência de mão de obra qualificada e a urgência em reverter este quadro para a Copa do Mundo. Confira a entrevista.
Adelmo Freire, Superintendente da CDL Natal: As redes sociais, (como Facebook, Twitter) podem e devem ser usadas para beneficiar a relação com o consumidor. O comércio eletrônico, realidade em outros países, ainda engatinha no país.
Que tendências e projeções para o comércio foram discutidas durante a Big Show - Feira Internacional do Comércio, em Nova York?

A Big show 2012, que reúne varejistas do mundo inteiro, cerca de 10 mil participantes, teve forte presença de brasileiros, mais de 2 mil que participaram não apenas para obter as informações e se atualizar sobre tendências do setor, uso de novas tecnologias, o que deve beneficiar o varejo. Voltamos com informações novas. Mas também nós brasileiros participando das palestras na condição de palestrantes. Três cases foram apresentados e debatidos com varejistas de todo o mundo. Sobre o crescimento nacional e até internacional de empresas como a  Riachuelo, o Pão de Açúcar e o Magazine Luíza. O Brasil nunca foi tão falado lá fora como agora. Nesse evento, nos Estados Unidos, o Brasil foi apontado como o que tem a melhor condição de ser o destaque, entre os demais emergentes Rússia, China. É o local das oportunidades. Mas precisamos nos preparar para isso. A região Nordeste é a mais aberta para estas oportunidades e Natal vem com dois grandes diferenciais, no momento: os projetos da Copa do Mundo e do Aeroporto de São Gonçalo.

Como redes sociais e o comércio eletrônico passarão a integrar o varejo, de forma mais eficaz?

Foi nos apresentado a necessidade de se valer dessas novas tecnologias para encantar o consumidor. As redes sociais, (como Facebook, Twitter) podem e devem ser usadas para beneficiar a relação com o consumidor. O comércio eletrônico, realidade em outros países, ainda engatinha no país. É preciso ainda discutir o melhor aproveitamento. Os celulares também. Hoje eles são quase um elemento da família e são usados como ferramenta de aproximação do lojista ao consumidor. Um novo aplicativo para celular e tablets, uma espécie de código barras, foi desenvolvido para conhecer o cliente, saber onde ele está localizado, a densidade de consumo, as exigências e as necessidades dele. É uma ferramenta que permite tanto ao lojista ter mais informação, quanto o usuário em relação à loja.

Pesquisas divulgadas pelo Sebrae e UnP apontam que o uso de novas tecnologias e até mesmo a informatização entre empresas do RN é baixo. Como fazer para torná-las ferramentas de trabalho?

Essa pesquisa mostra que este é um campo muito aberto. Há uma demanda muito forte no Brasil pelo comércio eletrônico. No mercado local, o consumidor ainda usa esses recursos como ferramenta de pesquisa. A compra em si ainda sofre uma certa resistência, devido ao grau de confiabilidade do sistema de internet. Essa invasão de hackers na última semana aos bancos esfria ainda mais esta relação. Não é a qualidade da relação, não é que o comerciante não saiba manusear, mas a confiabilidade no sistema. Hoje as compras pela internet ocorrem em produtos de baixo custo, como livros. O risco é menor.

E como é possível reverter isso?

Essas ferramentas têm sido usadas mais no sentido de conhecer o consumidor. São mais voltadas para que se saiba, de forma mais íntima, quem é o consumidor, o que ele deseja. A compra eletrônica não seria o principal objetivo. O lojista quer que esse movimento ocorra dentro da loja. Há uma necessidade dessa relação na loja, da venda direta. As grandes redes que já estão no mercado vão priorizar esse tipo de ação (comércio eletrônico) obrigando que os demais acompanhem o processo. Impondo um padrão nacional, as regionais se adaptam a essa realidade. A venda de confecções pela internet é o produto que enfrenta a maior dificuldade, porque não há como experimentar. Mais já há empresas, como a Renner, que fazem simulações, com provadores virtuais, e facilitam o processo de compra.

Como o senhor analisa o ano de 2011 para o setor? Foi um ano de perdas?

Em 2011 tivemos um recuo em relação a 2010, que foi um ano de grande euforia, com boas notícias, nada que assustasse o consumidor. Situação equilibrada, o Brasil dando acesso de crédito ao consumidor, facilidade de compras, sem notícias negativas lá fora. Tudo isso gerou um grande processo de consumo. O que começou a nos preocupar foi o descontrole disso. A reversão. A volta da inflação, porque a indústria pode acompanhar esse processo de consumo e esse volume. No finzinho de 2010, a bolha começa a explodir para o lado da Europa também. O consumidor passa a se preocupar e recuar. Há um comportamento de comprar somente o necessário, e o supérfluo é deixado de fora. O empresário por sua vez, sem saber as conseqüências da crise européia e americana, também puxa o freio. Houve recuo em 2011 se considerarmos o crescimento de 2010, uma vez que o crescimento de vendas nas datas promocionais e no Liquida foi pequeno.

A projeção para 2012 é que esse cenário continue ou ocorra crescimento?

A projeção é que ocorra um crescimento pequeno, nada comparado a euforia de 2010. Mas ainda não temos como dizer qual será o incremento, estamos trabalhando ainda no escuro. Nesta reunião nos Estados Unidos, dentro da perspectiva européia, foi amplamente debatido que esse momento de crise deve ser vivido por mais algum tempo. Ainda não há cura, solução. Iremos viver um momento crítico, sufocado por uma solução imediata, que ameniza o problema e volta a explodir em outro país.

Este crescimento, embora pequeno, deve ser puxado pelo quê?

Assim como no ano passado, o governo deve manter políticas de redução de imposto. O governo deve verificar as tendências de consumo, verificar quais setores poderão sofrer em consequência da crise financeira mundial e criar incentivos para que o impacto seja minimizado. Já fez e vem mantendo em relação a linha branca, quando abriu condições  de compra e venda, para não haver uma queda no consumo. As linhas de crédito não serão alteradas, havendo a queda de juros. Tudo para tentar criar uma influência mais positiva para o consumidor.

Como esse recuo se refletiu nas contratações no ano passado?

Como houve esse comportamento em 2011, no final do ano tivemos um crescimento pequeno dos empregos temporários, que são de 90 dias. Ficou em cerca de 5%. Geralmente se espera bem mais. As contratações efetivas (o número de empregos temporários que foram contratados ao final do período) foi inferior a 25%, quando em anos anteriores os temporários efetivados superam os 30%. Em números, em Natal, foram cerca de 750 empregos efetivados.

Dados do BNDES e do BNB mostram que é recorde o total de crédito concedido a micro e pequenas empresas, liderados pelo comércio. O setor ainda enfrenta  dificuldades para ter acesso ao crédito?

Apesar de haver uma facilitação por parte dos bancos, localmente o BNB, ainda há muita reclamação. Mas essa maior abertura e processo de desburocratização deverá ser mantido. Em relação ao consumidor, não há burocracia. Não houve o freio ainda.

Sobre inadimplência do consumidor no comércio, há uma tendência de crescimento?

Não há como afirmar. Ainda estamos sem projeções para 2012. Mesmo porque ano eleitoral tem um processo diferenciado, algumas informação ficam meio obscuras para não afetar o eleitorado.

Alguns setores como a construção civil tem carência de mão de obra qualificada. O comércio passa também por isso?

Mão de obra especializada é um problema nacional. O Brasil cresce muita rápido, mas a qualidade da mão de obra não acompanha esse ritmo. É um problema que a gente já está sentido agora e merece atenção e ação para que não se agrave mais lá na frente.

O que deve ser feito para minimizar este déficit?

É preciso que o poder público e a iniciativa privada também invistam em capacitação de pessoal. Quando o Sebrae cria programas nessa situação. A CDL junto a Fecomercio faz uma ação rápida para tentar viabilizar. Ou se importa a mão de obra, ou se resolve o problema internamente. E a solução passa por capacitação. Isso vai desde o trabalhador de funções mais básicas a mais sofisticada, é preciso ter conhecimento de novas tecnologias.

Como você avalia esse quadro de carência e má formação de mão de obra do setor  quando Natal se mobiliza para sediar uma Copa do Mundo?

O setor de comércio e serviço é o que mais emprega no Estado. A Copa do Mundo vai alterar rapidamente esse setor, que terá uma demanda maior na cidade. Isso já esta ocorrendo, antes mesmo da Copa. O profissional do comércio precisa de uma preparação mais diferenciada, para lidar com outro perfil de consumidor, que vai chegar na cidade, morar na cidade. Mudança no segmento imobiliário é porque haverá novos bolsões de moradias até lá. Só na marginal da BR-101, entre o viaduto de Ponta Negra até a saída de Nova Parnamirim, a previsão é de 10 mil novas moradias.. Isso vai demandar uma nova infraestrutura do comércio e serviços, com a instalação de farmácias, escolas, hospitais, padarias, supermercados. Toda a rede que atenda de modo mais imediato as necessidades do consumidor já que se deslocar para outros pontos reflete em perda de tempo, com o trânsito.

A Copa ocorre daqui a dois anos. É possível não só qualificar a mão de obra, como assegurar infraestrutura viável para instalação de comércio e serviços até lá?

Essa é a nossa grande preocupação. Isso já deveria esta acontecendo hoje, mas ainda está no campo da discussão. Quando se fala em Copa não se percebe o tempo, se pensa em algo distante. As estruturas do comércio já estão sufocadas. O trânsito já é caótico. É preciso investir em infraestrutura. Natal daqui a três anos, quando entra na faixa de um milhão, terá os problemas de um milhão. São outros problemas e Natal está entrando nessa fase.

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