As guernicas nas canções

Publicação: 2020-10-07 00:00:00
Alex medeiros 
alexmedeiros1959@gmail.com

Há poetas e compositores que suprem a incapacidade de produzir uma pintura, um desenho, uma colagem, utilizando soberbamente o talento literário em substituição ao dom para as artes gráficas. Fazem da linguagem o pincel que estampa nas telas a beleza das cores. Quem não lembra de Toquinho exibindo em letra e canto a sua aquarela? Ou de Patativa do Assaré com sua Triste Partida, um quadro a quadro da via crucis dos nordestinos fugindo da seca?

A primeira vez que eu me dei conta de que os artistas das palavras expõem belas molduras com suas canções e seus poemas foi em 1982, durante uma resenha de cerveja numa festinha eleitoral em Nova Descoberta, na casa de uma amiga que cedeu seu espaço para arrecadar uma grana para minha própria candidatura, que felizmente naufragou nas urnas e me desaguou dos mares obscuros da política. Ali, ouvi pela primeira vez o LP Cores e Nomes.

Foi uma garota de Caicó, por quem meu coração pulsava, que chegou com o novo disco de Caetano Veloso para me presentear e compartilhar a audição com a galera. Quando ouvi Trem das Cores, gritei: “caralho, isso é um quadro.”

A condição de candidato e dono da festa permitiu-me tocar o disco mais vezes, repetindo aquela canção que me fisgou instantaneamente. Na madrugada e na manhã seguinte, ouvi e cantei o suficiente para nunca mais esquecer a letra.

Impossível ouvir ou cantar Trem das Cores sem exercitar a construção das cenas que o compositor verbaliza; Caetano e seu trem imaginário nos lança numa viagem em que fantasiamos ao mesmo tempo as janelas e a paisagem.

O incrível é que pouco tempo depois daquela explosão cromática e poética do baiano, Elis Regina lançou o LP Trem Azul, onde a canção que deu nome ao disco também nos remetia a uma moldura de palavras do mineiro Lô Borges.

E se o trem de Caetano estimulava nas nossas redes de neurônios a imaginação de estações de cores, o trem de Elis descarrilhava na emoção as recordações de bons momentos. São letras como linhas e traços dos pintores.

Somente com o impacto visual na audição das duas canções de 1982 é que eu fui compreender a reação de encantamento do meu pai, anos antes, quando ele ouvia no rádio Gilberto Gil cantando Refazenda, música lançada em 1975.

Meu pai nasceu em Currais Novos no começo do século XX, que veio “tentar a vida” (se dizia assim) em Natal nos anos 1930. Sua relação com a música começou com os violeiros e depois estendeu a alguns ícones do cancioneiro.

Eu achava engraçado quando ele tentava cantarolar Refazenda, tamborilando os dedos nos braços da cadeira de balanço e batendo os pés. Não entendia um coroa das antigas curtindo uma canção de um ídolo dos filhos cabeludos.

Meu irmão me explicava que só podia ser pelo ótimo jogo de rimas e pelas imagens campestres e bucólicas que a canção exibia. Os anos se passaram e depois do disco na festa política eu acrescentei Gil como pintor de palavras.

Alceu Veloso é outro cantor que já repetiu Pablo Picasso em suas composições, e destaco entre algumas a letra de Girassol. A gente ouve e o pensamento vai cerzindo as imagens como num crochê de impulsos químicos.

Há duas canções que considero gêmeas nascidas com vinte anos de distância entre si: Sentado à Beira do Caminho, lançada por Erasmo Carlos em 1969, e Retrovisor, gravada por Fagner em 1989. São paletas sonoras de Picasso.

Assim com os traços de colagens da obra Guernica do pintor espanhol narra as agruras de um povo, as duas canções desenham em nosso pensamento as angústias de uma saudade amorosa e nos exibem a invisibilidade da ausência.

Outra Guernica maravilhosa da MPB é Coração Selvagem, do poeta Belchior, um pintor geracional. O corpo arrepia, a alma treme, enquanto vemos beijos no blusão, frases com cerveja e aquele amor que faz a gente colorir o mundo
Créditos: Divulgação
Lockdown
Para ser coerente, a decisão de alguns prefeitos, inclusive o de Natal, proibindo comícios, passeatas e reuniões políticas, açambarcando a legislação eleitoral, precisa se estender ao resto das cidades, fechando o comércio e serviços.

Previdência
Num quadro aterrador com oito estados no vermelho da pior nota, um D, o RN é um dos que comprometeram o futuro de aposentados e inativos. Fátima fazendo companhia a João Dória, Rui Costa, Flávio Dino e Wellington Dias. 

Bússola
Rodrigo Maia reatou namoro com Paulo Guedes, o Supremo autorizou a venda das refinarias da Petrobras, Sergio Moro quer fugir do País, Jair Bolsonaro ignorou o mimimi dos malucos e das maluquetes. Política é para profissionais.

Reformas
“A partir de amanhã precisamos retomar os trabalhos da agenda de reformas, que não vai parar independentemente das eleições. Sem as reformas, o país entrará numa crise econômica muito grave”. Aspas do deputado Rodrigo Maia.

Educação
A vereadora Eleika Bezerra já definiu uma candidatura para tocar seu legado em favor do ensino público. Uma colega de princípios e objetivos, Márcia Marinho, que construiu sua militância pela educação com Noilde Ramalho.

Debate hoje
O canal CNN transmite hoje, às 21h45, o debate das eleições americanas com os candidatos a vice-presidente. O republicano Mike Pence é formado em história e direito; a democrata Kamala Harris é formada em artes e direito.










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