As ideias e os vícios

Publicação: 2019-09-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

É pouco provável que nesses tempos de agora um debate possa caminhar saudável na discussão das ideias. A sociedade, em todas as dimensões - e não só aqui - ganhou tão graves vícios, incendiados pelo jogo retórico do presidente da república, que a deformação virou uma regra mitigada pelas ablações do autoritarismo. É hoje estamos tão distantes que há muito já ferimos os princípios da formulação crítica. As ideias viraram anátemas, de um lado e outro.

No caso do Plano Diretor não é diferente. Quem defende posição em favor da cidade vira comunista, ou, no mínimo, petista; se contestar, pior: é da direita bolsonarista. O embate dito de ‘esquerda’ versus ‘direita’ retornou e desta vez na versão talvez mais medíocre que se poderia imaginar. Alcançamos um nível desastroso e extremado que só beneficia - dai ser possível suspeitar ser estratégia - Jair Bolsonaro e Lula da Silva, como se fossem referências.

Condenado duas vezes e hoje preso por culpa dele mesmo, ficou naturalmente fácil encarnar Lula no papel do mal e, por exclusão, vestir em Jair Bolsonaro os trajes do bem. Com dois bons atores revezam facilmente os papéis do mal e do bem. Como em todo processo maniqueísta, não é fácil quebrar a polarização. A não ser - seria a saída? - se ocorrer o efeito da criatura contra o criador: o ex-juiz Sérgio Moro, no papel de Fênix, ressurgir das cinzas. 

Ora, como acreditar em debate racional entre ‘esquerdistas’ e ‘direitistas’, falsos pela  representação improvisada e despreparada, com as exceções naturais? Discussão crítica não pode ser travada com ódio e amor, se o próprio ódio é um amor enlouquecido, e se o amor, muitas vezes, esconde ambições pessoais. As paixões - perdoem os donos das verdades ditas de ‘esquerda’ e de ‘direita’ - as paixões, às vezes, também dilaceram o amor e sopram ódio.

O que se assiste é a uma discussão viciada e estéril encenando o pobre espetáculo que só não chega a ser mambembe por envolver grandes interesses em nome do desenvolvimento, esse cataplasma que esconde a nossa falta de arrojo numa derrota coletiva cercada de vitórias individuais. Derrota nascida da ausência de líderes e muitos presidentes. Temos presidentes de tudo e para tudo, em todos os níveis, e até hoje não presidimos o nosso próprio futuro.

É bom lembrar que há mais de um século fizemos o até hoje único Hospital Infantil de atuação geral, clínica e cirúrgica, o Varela Santiago. Há cinquenta anos, o Walfredo Gurgel. Nunca fizemos um novo porto, e, no entanto, em meio século, Pernambuco, Paraíba e Ceará fizeram Suape, Cabedelo e Pecém. Não temos hospital terciário voltado para a complexidade, como os três estados citados, e perdemos a liderança industrial e turística para todos eles.

GRAVE - Um petista, de olhos embaciados pela névoa do poder, não acredita e é por isto que a coluna repete: a situação da segurança pública sem recursos, pode se agravar muito mais.

OVINI - O trade oficial anuncia: dia 19, quinta, ‘Seminário de Formalização e Fortalecimento das Instâncias de Governança’. Só Deus, primeiramente, e os turistólogos, sabem o que é isso.

AGENDA - Racine Santos avisa: dia 19, 19h30, na Academia de Letras, vai reunir as tribos e remanescentes dos anos sessenta e autografar seu novo livro “...de susto, de bala ou vício...”.

AULA - A crônica de Joaquim Ferreira dos Santos, em O Globo - “Hoje não tem Bolsonaro” - é uma aula de texto. Como dizem os críticos, de uma arquitetura impecável como metáfora.

OMISSÃO - As pesquisas para sondagem eleitoral em Parnamirim estranhamente omitem os nomes de Carlos Maia, suplente de deputado, e de Airene Paiva, que é tabelião. Um mistério.

MEADA - O novo livro de Ivan Maciel já tem um belo título para sua capa: ‘Fios da Meada’. Uma seleção de 110 artigos sobre temas literários publicados por ele na Tribuna do Norte.

EDIÇÃO - Ivan aceitou o convite do editor José Correia, da Caravela, e pediu que Sheila Azevedo fizesse uma pré-seleção. Feito o projeto gráfico, o livro fica pronto em três meses.

REGABOFE - Do profeta do Grande Ponto vendo o RN conquistar o mundo: “Depois de Japão e China, chegamos à Alemanha. É como dizia Ademar de Barros: “Desta vez vamos!”.
FILTRO - Um dia os políticos, autoritários e o povo em geral vão descobrir que o único filtro da sociedade é a própria sociedade. Ninguém tem procuração para censurar. Aliás, foi por isso que o Supremo mandou o governador João Dória devolver as cartilhas que retirou das escolas.

ALIÁS - Essa história de decidir o que a sociedade deve ou não deve ler e, aquela outra, de querer regulamentar a liberdade, só ocorrem em sociedades de baixo nível civilizatório. Aqui ainda florescem esses monstrengos, arautos da falsa moralidade. Mas a sociedade está atenta.

AVISO -“Comunista é o pseudônimo que conservadores saudosistas do fascismo inventaram para designar todo sujeito que luta por justiça social”. A frase, acredite, é de Érico Veríssimo. Retratos verdadeiros são vivos e sempre retornam à galeria dos personagens contemporâneos.





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