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As margens que ouvem e o coqueiro que dá coco
Publicado: 00:00:00 - 12/09/2021 Atualizado: 14:20:02 - 11/09/2021
João Maria de Lima 

O Hino Nacional Brasileiro, símbolo de exaltação à pátria, foi composto por Joaquim Osório Duque Estrada. O texto de linguagem rebuscada e de inversões sintáticas, que dificultam a compreensão da mensagem, é baseado no parnasianismo,  estilo literário, cujas principais características são vocabulário rebuscado; métrica regular com preferência pelo verso alexandrino (doze sílabas); gosto pelo soneto; rima regular, sendo essas rimas raras e artificiais; descritivo e narrativo. Um grande expoente desta escola é o conhecido Olavo Bilac.

Em 1939, surgiu aquela que seria o Hino Informal do Brasil: “Aquarela do Brasil”, canção de Ary Barroso. Lançada no Estado Novo, a canção se enquadrou perfeitamente na políticia cultural nacionalista de Getúlio Vargas. Externamente, também ajudou a vender para o mundo o lado mais solar e alegre de um país atrasado e repleto de contradições e injustiças.

Joaquim Osório Duque Estrada utilizou várias metáforas para enaltecer o Brasil, em nosso Hino Nacional, lançando mão de uma métrica parnasiana “salpicada” de características românticas. O arranjo musical foi feito por Francisco Manuel da Silva, em 1831, mas a letra só foi oficializada em 1922, cem anos depois da independência do Brasil.

Já Barroso abusou de termos datados – adjetivos como mulato “inzoneiro” (sem disposição), morena “sestrosa” (esperta) e “merencória” (melancólica) luz – e de assumidas redundâncias simplórias, como o “coqueiro que dá coco”. Apesar dessas ressalvas, a melodia e o ritmo arrebatadores garantiram o crescimento e a permanência de “Aquarela do Brasil” como o Hino Informal Brasileiro.

Voltamos ao Oficial, em cuja primeira estrofe “as margens plácidas (serenas) do Ipiranga” ouviram “o brado retumbante (forte, que ecoa) de um povo heroico”. Os dois últimos versos poderiam ser reescritos assim, para melhor compreensão: E o sol da Liberdade brilhou no céu da Pátria nesse instante em raios fúlgidos (brilhantes, luminosos). O uso de expressões ligadas à luz podem ser relacionadas ao Iluminismo, corrente de pensamento que defendia o poder pela razão.

Para Nelson Motta, produtor musical, roteirista, jornalista especializado em música brasileira, Aquarela do Brasil é o principal exemplo de um subgênero, o do samba-exaltação, que celebrava as beelzas do Brasil, suas fauna e flora, gente e geografia com linguagem ufanista e grandiloquente. Em 1942, a “Aquarela…” foi incluída num filme de animação de Walt Disney, “Alô, amigos”, em que também estreou nas telas o papagaio Zé Carioca. Era o que bastava para o samba de Ary dar suas pinceladas pelo mundo.

Por falar em exaltação, nosso Hino Oficial faz o mesmo. O país é um sonho realizado, como um raio de luz que traz às pessoas que aqui vivem amor e esperança. No céu belo, claro e que dá esperanças está a constelação do Cruzeiro do Sul, que brilha absoluta. A palavra risonho, neste contexto, é relativa a promessas e não a sorrisos: “Brasil, um sonho intenso, um raio vívido/ De amor e de esperança à terra desce/Se em teu formoso céu, risonho e límpido/A imagem do Cruzeiro resplandece”.

Devido à sua geografia e sua grande extensão, é um território bonito, que mostra resistência natural e é um gigante destemido. E terá nos dias que se seguem toda esta grandeza refletida.“Gigante pela própria natureza/És belo, és forte, impávido colosso/E o teu futuro espelha essa grandeza”. Será?

Ary Barroso foi criticado por um possível favorecimento ao governo ditatorial de Getúlio. Ele se defendeu alegando que o amor pelo país fê-lo esquecer os problemas e prestar uma homenagem à sua terra natal.  Para ele, prevaleceu um lindo sentimento: “Senti, então, iluminar-me uma ideia: a de libertar o samba das tragédias da vida, do sensualismo das paixões incompreendidas, do cenário sensual já tão explorado. Fui sentindo toda a grandeza, o valor, a opulência da nossa terra, gigante pela própria natureza”. Obrigado, Ary. 

Cantemos os nossos hinos, o complexo e o simples; o do povo heroico e do mulato inzoneiro, o das margens plácidas e o do coqueiro que dá coco. O Brasil e a nossa língua são ricos nessa profusão de misturas. 


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