As patrulhas da insensatez

Publicação: 2021-03-07 00:00:00
Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com


Em julho do ano passado, um grupo de quase 200 intelectuais, entre eles figuras célebres como Noam Chomsky e Margaret Atwood, publicou um manifesto denunciando o ambiente de intolerância que estava prevalecendo principalmente na guerra dicotômica direita-esquerda, onde a restrição do debate era uma constante e a ânsia por linchamento público virara um protocolo de insensatez. Depois, a “cultura do cancelamento” foi incorporada.

O termo em aspas é um conceito adotado pela esquerda identitária, predominante no movimento comunista mundial e que impôs sua porra-louquice ideológica em substituição às clássicas doutrinas do marxismo que sempre conduziram os partidos esquerdistas. Surgiu em meados da segunda década deste século XXI e consiste em desconstruir uma imagem, física, jurídica ou cultural, através de um boicote em cadeia até atingir sua anulação.
Em resumo, o cancelamento significa o fim da reputação pessoal ou a anulação do processo histórico de um acontecimento ou de um símbolo, como os monumentos, e a reedição de trechos literários ou narrativas conjunturais.

Um exemplo no Brasil tem sido o patrulhamento em livros e músicas, exemplificado nos casos de obras de Machado de Assis e marchinhas de carnaval do passado. O ponto mais ridículo está no uso do próprio idioma.

Os arautos das aberrações estão em briga também com o cinema, tentando censurar filmes do século XX, como já ocorreu com E o Vento Levou... um dos maiores clássicos da sétima arte e entre os dez mais de toda e qualquer lista.

Encontram êxito em alguns casos, graças à presença de seus militontos nas estruturas de governo e de empresas, como agora na Turner Classic Movies, cujo slogan “Let's Movie” corre o risco de ser mudado para “Let’s Cut”.

O grupo americano, presente no Brasil, inicia este mês uma série de exibições de filmes clássicos que vêm sendo criticados por serem supostamente ofensivos para determinados grupos, e que serão avaliados por um comitê.

A rede que tem o canal TCM, especializado em filmes antigos, é de propriedade da WarnerMedia e lançou um projeto com o título Reframing, que significa “reenquadramento”, uma ridícula satisfação aos novos torquemadas.

"Todos os filmes desta série são clássicos lendários, mas quando os vemos hoje, fazemos isso em um contexto cultural diferente", explicam os responsáveis num comunicado carregado de cumplicidade com a patuleia.

Para selecionar os filmes, os apresentadores do TCM se revezarão numa mesa redonda que acompanhará cada filme. E então as questões pertinentes à programação serão debatidas e tratadas. Nem cineclube foi tão chato assim.

Será uma espécie de audiência de custódia travestida de análise das joias de acetato do século XX dentro de uma perspectiva das frescuras do XXI. Eles ainda enfatizam que o objetivo nunca é censurar, mas apenas contextualizar.

O projeto já começou com o primeiro filme violentado, E o Vento Levou. O clássico de Victor Fleming, lançado em 1939, foi descrito como racista em várias ocasiões pelos locutores da tesoura ideológica do cancelamento.

A primeira grande marca da indústria cinematográfica a tocar no assunto foi a HBO Max, que postou dois anúncios afirmando que com sua “visão nostálgica” o filme “nega os horrores da escravidão e o seu legado de desigualdade”.

A TCM vai revisar Sete Noivas Para Sete Irmãos, de 1954; Festim Diabólico, de 1948; As Quatro Penas Brancas, de 1939; Bonequinha de Luxo, de 1961; e até A Maior Aventura de Tarzan, de 1959. Acho que a pandemia merece um reforço do asteroide. Ô tempos chatos!

Créditos: Divulgação

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