'As políticas públicas ainda são primitivas', diz neuropediatra

Publicação: 2018-04-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Confira a entrevista com o neuropediatra Sávio Caldas, em que ele fala sobre o autismo em relação aos sintomas e diagnósticos. Leia abaixo:

Quais são os primeiros sintomas que podem identificar uma criança autista?
Tenho que pensar em algumas alterações no desenvolvimento. A principais delas são as dificuldades na comunicação. São crianças que tem um padrão de atraso no desenvolvimento da fala, comunicação verbal e não verbal. E apresentam um padrão repetitivo e restrito de interesse, ou seja, gostam de brincar com as mesmas coisas repetidamente e sem ter uma funcionalidade no brincar, a dificuldade do faz de conta, de perceber que a repetição acaba atrapalhando o outro e o  funcionamento do dia a dele. Isso tudo deve ocorrer no período do desenvolvimento infantil, sobretudo nos primeiros 6 anos de idade. O diagnostico pode ser dado a partir de 1 ano e 6 meses, no entanto, o padrão comportamental da criança dessa idade ainda é muito incipiente, inespecífico. Geralmente a conduta imediata é que em identificando algum atraso ele encaminhe para profissionais para começar a estimulação.

O diagnostico é baseado apenas em observações clínicas ou existem exames complementares como uma ressonância ou de sangue?
Não existe nenhum exame complementar para diagnosticar o autismo. É uma condição neuro biológica geneticamente programada. Mas a gente não tem, ainda, o isolamento total de todos os genes, que são mais de 800. É como procurar uma agulha no palheiro no escuro. Não existe um padrão, como a Síndrome de Down. Temos que fazer observações clínicas através  das avaliações, consultas, saber como é o dia a dia da criança no ambiente familiar. Eventualmente como a criança funciona fora de casa e comparar com as crianças ditas típicas o desenvolvimento.

O diagnóstico precoce pode ser um grande diferencial para a vida da criança e dos pais?
É tão importante que as vezes a gente intervém sem ter um diagnóstico exato. Durante os seis primeiros anos de vida temos uma janela de estimulação que é muito importante. A possibilidade de mudar o cérebro de qualquer criança, sendo autista ou não, nos seis primeiros anos, é interessante. Quanto mas cedo o diagnostico representa uma possibilidade muito maior de perceptivas para que ela se torne funcional.

O estado brasileiro ainda é muito carente quando se trata de políticas públicas voltadas para os autistas e suas famílias?
Quando se fala em inclusão, se pensa muito no deficiente físico. Se fala muito em rampa, elevador, adaptações físicas na infraestrutura da cidade. Quando falamos em inclusão com pacientes neuropsiquiátricos tem dificuldades de encontrar porque são mais complexas. As políticas públicas para autistas ainda são primitivas e pouco eficazes para a inclusão. Existe legislação, mas  na prática os pais precisam lutar muito intensamente para assegurar os direitos dos seus filhos, desde a inclusão escolar. O SUS tem profissionais mas o número ainda é muito pequeno. Os pais precisam contar com a teia de suporte no serviço privado e não tem condição de pagar, porque é algo a médio e longo prazo. O mais importante é entender que a gente precisa criar na nossa sociedade um olhar de menos preconceito e achar que por ser um paciente autista ele não seja capaz de se desenvolver e ser incluído na sociedade.


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