As poucas palavras

Publicação: 2020-03-29 00:00:00
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Lívio Oliveira
Advogado público e escritor/livioalvesoliveira@gmail.com

A VIDA em quarentena, em confinamento, é um mundo ilusório, enganador, que apaga (mesmo que temporariamente) todas as demais ilusões. Passa-se a relativizar e até mesmo a diminuir a importância de projetos que são adiados ou que caminham mais lentos. O cérebro parece anestesiado. Cabe não permitir que esse vazio invada toda a cena. Importante criar pausas meditativas ou se impor tarefas para delimitar e mesmo frear o espaço de crescimento dessa lacuna, desse buraco no pensamento. A força mental para isso requer leveza e não peso. A convicção e a determinação virão com o novo desenho e o correto desempenho na arte de não se deixar cair.
 
2. TODO DIA observo a mudança das nuvens por trás da ponte. As formas, os acréscimos de cor, as posições na paisagem, as direções que tomam, levitando em lentidão. Cada uma das fisionomias da paisagem traz a representação do tempo que se vive. Há dias em que a luz atravessa o algodão da nuvem causando sensação gloriosa, o universo se expandindo e avançando em busca da perenidade. Noutros dias, percebo um cinza, algo arroxeado nos contornos, como se as nuvens se queixassem de uma dor universal, uma mágoa infinita. Nessas ocasiões, sinto que se impõe um silêncio grave, um olhar suspenso, para que eu possa chorar, sintonizado com o sentido e com o sentimento do mundo.
 
3. O MEU EXÍLIO PESSOAL eu o quero em meio a essa gente: desse tipo de mentalidade e de coração sangrando pelo bem, pelo caminho onde se constrói o amoroso discurso, lá onde ficam os meus escaninhos de guardar crenças, manter fé, erguer passos edificantes, para não me abandonar e nem abandonar minhas dolorosas conjunturas e estruturas pessoais que já chegam acompanhadas dos seus lenitivos específicos, como um livro de poemas para cada dor. A rosa branca aparece em meio à poça de sangue que se transforma em fonte. Fronte ferida, mas rija. E são rijas as pernas das bailarinas imaginárias que me trazem suas danças cheias de transparências, fazendo-me o encanto que me salva da descrença usual.
 
4. AO REDOR há o silêncio. Busco pintar o cenário com outras cores, mas esse silêncio traz o cinza e desbota. Não me oponho à redução dos ruídos e da algaravia. Aliás, isso me acalma. Mas não me agrada que o silêncio seja imposto pela dor. O certo é quando a gente cala por querer próprio, nem por mando de ninguém e nem das circunstâncias melancólicas ou por angústias. Alimenta-me, então, a esperança do grito explosivo, catártico, da alegria reconquistada. Quando ela vier, quero estar inteiro, com todo mundo inteiro ao meu redor, para continuar ouvindo a música entre os silêncios que me darei de presente, sem a dor de calar por vontade ou circunstâncias alheias.
 
5. O PAPA, homem e santo tão solitário no centro da Praça de São Pedro vazia e molhada, aponta-nos um horizonte. Vejo isso nas imagens históricas passadas na TV. Francisco nos mostra o quanto é importante alimentar a fé e a coragem. O importante é caminhar e crer, independentemente da definição que se tenha de fé. Ao mesmo tempo, Francisco expõe o quanto são frágeis as nossas vaidades, as nossas tão pequenas egolatrias que contaminam metrópoles e províncias com a mesma intensidade que um vírus terrível: “Com a tempestade, caiu a maquiagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso ‘eu’ sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos.” As palavras de Francisco bastam para a compreensão do momento que vivemos.

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