"As universidades estão vivendo momentos difíceis"

Publicação: 2017-08-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Mariana Ceci
Repórter

A educação superior brasileira passa por um período de crise e congelamento de recursos por parte do Governo Federal. Apenas na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), os recursos provenientes do Ministério da Educação foram reduzidos em 12%, considerando a inflação. O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação (MCTIC) também teve 44% dos recursos congelados, parte deles que seriam investidos nas universidades. Vinculada ao MCTIC, a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), é uma das empresas responsáveis por financiar o fomento de ciência, tecnologia e inovações, que engloba tanto universidades como empresas.
Wanderley de Souza, diretor de Desenvolvimento Científico e Tecnológico da Finep
Wanderley de Souza, diretor de Desenvolvimento Científico e Tecnológico da Finep (foto: ALex Régis)

Na UFRN, a empresa investiu R$ 50 milhões nos últimos dez anos, que foram investidos na construção de prédios, manutenção de laboratórios, equipamentos e pesquisas. Em visita ao Rio Grande do Norte para fazer um balanço dos investimentos realizados pela Financiadora, o diretor de desenvolvimento científico e tecnológico da Finep, Wanderley de Souza, conversou com a TRIBUNA DO NORTE a respeito das perspectivas para 2018, os cortes de investimentos na educação superior e as possibilidades que o novo cenário. Confira a entrevista:

Quais foram os principais investimentos da FINEP na UFRN nos últimos anos? As pesquisas financiadas correm o risco de serem interrompidas pelos cortes nos orçamentos das universidades públicas?

Em relação a Universidade, nós fizemos um balanço de todos os investimentos feitos. Foram quase R$ 50 milhões de reais ao longo dos últimos 10 anos, que vão desde a construção de prédios, infraestrutura de laboratórios para várias áreas do conhecimento e, mais recentemente, a questão da área de inovação, com foco no Instituto Metrópole Digital. Vimos tudo que foi feito, que está sendo feito e que precisa ser feito. Na última sexta-feira nós liberamos R$ 500 mil para ajudar na manutenção da infraestrutura do Instituto do Cérebro, e estamos acompanhando a construção definitiva da sede do Instituto.

O contingenciamento atinge todas as áreas: tanto de tecnologia como de educação. As universidades vivem momentos difíceis, mas temos que ter paciência e ir resolvendo caso a caso. O nosso orçamento é um orçamento relativamente pequeno e teve um contingenciamento grande, mas estamos conseguindo ir pagando as dívidas que temos do passado, apesar de que não na velocidade que nós gostaríamos. Mas nossos principais esforços estão para tentar impedir que as coisas em desenvolvimento sejam interrompidas.

O lançamento de novos projetos de pesquisa e estudos então estará suspenso?

Nós acabamos de contratar um conjunto de projetos país à fora. Um programa de R$ 200 milhões de reais, e estamos contratando um para a região Amazônica no valor de R$ 20 milhões de reais. Mas de fato, não estamos lançando projetos novos, porque estamos aguardando o cenário. Acreditamos na capacidade do ministro Roberto Kassab de, gradativamente, ir revertendo essa situação, para que nosso ministério vá recuperando o que foi cortado. Obviamente eu vejo com preocupação a série de cortes e contingenciamentos, mas acho que não é o caso de alarde. Dificilmente esse cenário de interrupção total de pagamento de bolsas de estudos, como está sendo divulgado, vai acontecer. No caso da FINEP, o nosso orçamento aprovado pelo Congresso é de R$ 1,2 bilhão. O que está livre para operação é de R$ 630 milhões. Então temos cerca de R$ 570 milhões que estão presos com o Governo, mas que acreditamos que progressivamente ao longo dos meses vão ser liberados em quantias menores, até que atinja o teto do nosso orçamento liberado pelo Congresso. Estamos trabalhando com a expectativa de que esse orçamento vai chegar em sua totalidade e será completamente utilizado.

Essa demora para a liberação nos recursos, no entanto, pode gerar atraso no pagamento de bolsas, por exemplo. Essa é uma situação que tem preocupado muitos estudantes no Brasil. Qual é a perspectiva do ministério em relação a isso?

De uma certa forma isso mostra para a sociedade e faz com que ela tome conhecimento de que a área de ciência e tecnologia, que não deveria sofrer cortes nenhum, está sofrendo, está participando desse esforço fiscal. Por outro lado, no Ministério, o ministro tem noção da gravidade disso e temos assegurado por ele de que não vai haver interrupção no pagamento de bolsas. Por outro lado, essa notícia deixa os alunos aterrorizados. A gente vê aí permanentemente pessoas preocupadas com a possibilidade de interrupção do pagamento de suas bolsas, mas garantimos que não é assim que vai acontecer.

Qual é a importância desse fomento à pesquisa, seja através de bolsas, de laboratórios ou prédios, realizado pela FINEP e por outras empresas públicas para o desenvolvimento do país?

 É possível avaliar isso por vários ângulos. O primeiro é que, se não houver pesquisa, os professores não estão atualizados. O professor não estaria procurando saber o que está acontecendo de novidades no mundo inteiro, e ele precisa fazer pesquisas para isso, para formar melhores alunos e melhorar o ambiente da universidade. Do ponto de vista dos resultados práticos para a sociedade, os resultados são muito evidentes. O Brasil, há 30 anos atrás, era um importador de comida, hoje nós exportamos, e a exportação de alimentos foi graças à ciência. Toda a soja que produzimos hoje em vários locais do país foi fruto de pesquisas para melhorar a qualidade do solo, utilização de fertilizantes... A agricultura é um exemplo muito marcante.

Cito outro exemplo marcante: o Brasil era um importador de petróleo. Há dez anos atrás, ninguém falava em petróleo do pré-sal, nem existia isso. Foi a pesquisa, e a FINEP teve um papel fundamental em financiar essa pequisa com o dinheiro de royalties do petróleo, que permitiu descobrir essa camada de petróleo que está abaixo da camada de sal, e que hoje já representa metade do total de petróleo brasileiro. A área médica também possui exemplos marcantes da importância de instituições como a Finep: se hoje nós vivemos mais, é porque a pesquisa possibilitou isso. O Instituto de Medicina Tropical na UFRN é um exemplo disso.

O Estado teve um papel fundamental no fomento à pesquisa no Brasil, especialmente nos últimos anos. Os cortes nessa área demonstram que entramos em uma nova fase, na qual o papel do Estado nisso será reduzido?

O Estado ainda tem que continuar cumprindo seu papel. Eu não imagino nenhuma situação nos próximos anos, no horizonte, na qual um empresário vá chegar do nada e tirar R$ 50 milhões de reais de seu bolso e colocar na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Isso não significa, é claro, que uma pessoa específica resolva fazer isso, mas não podemos tratar isso como uma regra. É o Estado que tem que continuar sustentando as universidades, sustentando a pesquisa básica. Não há país no mundo que seja desenvolvido no qual o Estado se abstenha de investir em pesquisa e tecnologia, podemos observar vários exemplos disso no mundo inteiro.

Para financiar as pesquisas em curso, no entanto, as Universidades vão ter que procurar outras alternativas? Parcerias público-privadas, por exemplo?

Tem muita coisa de pesquisa aplicada que vai gerar produto na qual o setor privado poderia entrar. Já vem entrando gradativamente, mas ainda é pouco. Visitei, na semana passada, a Universidade de Campinas, e pude ver cerca de 200 empresas que surgiram da Universidade de Campinas e que já estão localizadas no entorno. Hoje, essas empresas já possuem um fundo para apoiar as pesquisas realizadas na Universidade, porque é de interesse delas. Isso vai precisar começar a se disseminar pelo país. As iniciativas ainda são muito tímidas.

Você vislumbra essa possibilidade para o Rio Grande do Norte? Levando em consideração que ainda temos uma indústria tímida no Estado...

O Rio Grande do Norte é um estado em que a gente vê o lado acadêmico das universidades indo bem, mas o lado da inovação tecnológica é muito pequeno, muito tímido. Como nós classificamos isso? Quando um Estado é pungente, ele solicita muitos recursos de crédito da Finep, porque nós somos também um banco. Se uma empresa quer colocar recursos no desenvolvimento de produtos de inovação, ela pode pegar créditos para pagar em 4, 5, 6 anos, com uma taxa de juros bem mais baixa que no mercado e condições especiais. Nós temos um volume significativo de recursos para isso, e o que nós vemos é que no Rio Grande do Norte, a solicitação é cerca de 0,2% do nosso total. Pernambuco pega 2,7%. Isso demonstra que a economia do Estado ainda está muito na base da iniciativa própria, mas há um espaço aí na área de tecnologia da informação, na área do cultivo, da carcinicultura que pode ser muito explorada. Cabe ter visão disso para poder alavancar o desenvolvimento na região.


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