Ascendência da língua

Publicação: 2020-09-20 00:00:00
João Maria de Lima

Pois bem, é com lábios gaguejantes e numa língua estranha que se falará a esse povo! Is 28,11

Muitas são as curiosidades sobre a formação das palavras, que podem apresentar em sua estrutura os seguintes elementos mórficos ou morfemas: radical, afixo, desinência, vogal temática, vogal e consoante de ligação.

Não cabe aqui muita regra gramatical, por isso não detalharei esses elementos. Contudo, para refrescar a memória de alguns, direi, apenas, que as vogais e consoantes de ligação são elementos que unem determinados radicais a certos sufixos para facilitar ou, ainda, possibilitar a leitura de uma palavra.  É o caso de “paulada” (pau – l – ada), “floricultura” (flor – i – cultura), “gasômetro” (gas – ô – metro), “tricotar” (trico – t  – ar) e “abcdista” (abc – d – ista).

Interessante processo de formação é o hibridismo, que ocorre quando há combinação ou união de palavras em cuja composição entram elementos de línguas diferentes. A palavra “televisão” é formada por um radical grego, tele, que significa “longe”, e uma palavra portuguesa, visão. Portanto, significa “visão longe”. Outros casos são “surfista” (do inglês e do grego), “reportagem” (do inglês e do latim), “sociologia” (do latim e do grego) e “sambódromo” (do quimbundo ou umbundo e do grego).

Pouco conhecida na teoria, mas comum na prática, a palavra-valise é formada, tanto na linguagem coloquial como na variedade padrão, pela fusão de duas palavras; no processo, ao menos uma sofre truncamento. São exemplos “Flaflu” (Flamengo e Fluminense), “portunhol” (português e espanhol) e o extinto “showmício” (show e comício).

Outro modelo de formação de palavras, a siglonimização, ou seja, a redução de títulos a simples siglas, está cada vez mais generalizado. Observe estes exemplos: IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), CPF (Cadastro de Pessoas Físicas), RAP (Rhythm and Poetry, “ritmo e poesia”), Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Muitas vezes, as siglas passam a integrar o vocabulário, são flexionadas e formam novas palavras, como “rappers” (praticantes de RAP).

Grécia e Roma formaram a base de nossa civilização, isto é, as sociedades ocidentais modernas. Em muitos campos, elas se confundem e, por isso, tornaram-se conhecidas como cultura greco-latina. Essa confusão se estendeu à língua portuguesa. Muitas são as palavras formadas dessas duas origens (antídoto, bíblia e arquipélago, para citar algumas). Há, ainda, o fato de algumas pessoas empregarem prefixos ou radicais sinônimos como se fossem diferentes. Veja-se o caso do prefixo grego “hiper” (superior, excesso), que é equivalente a “super”, de origem latina. No Brasil, as pessoas acham que o hipermercado é maior do que o supermercado, quando, na verdade, os prefixos equivalentes transformam as palavras em sinônimas. Enquanto os gregos usam “anfi” para indicar duplicidade (anfíbio), os latinos empregam o prefixo “ambi” (ambiguidade). A lista é enorme e merece uma consulta.

Apesar de o idioma latino ser a maior influência da língua portuguesa, a palavra “alfabeto” nasceu na terra de Platão e Aristóteles, sendo formada por dois vocábulos, “alfa” (primeira letra do alfabeto grego) e “beta” (a segunda). Contudo, o latim não se rendeu e nos deu o “abecedário”, derivado de “abc”.  Nunca é demais lembrar que os gregos batizaram o alfabeto, mas não o criaram. Esse feito cabe aos egípcios. 

E, por falar em alfabeto, no hebraico e no árabe, os textos são escritos da direita para a esquerda. E tem outra: o alfabeto havaiano é o menor do mundo, com apenas 13 letras: cinco vogais e oito consoantes.

E, como o assunto ainda é alfabeto, diz a lenda que o compositor Lamartine Babo, autor de grandes clássicos da música popular brasileira, foi aos Correios a fim de passar um telegrama. O telegrafista bateu o lápis na mesa, em Morse, para um colega: “Magro e feio”. Lamartine, entendendo a linguagem, tirou um lápis do próprio bolso e bateu no balcão: “Magro, feio e ex-telegrafista”. Essa maledicência comprova que “A língua dos sábios destila conhecimento, a boca dos insensatos fervilha de estupidez” (Pr 15,2).





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