Atalanta viu cidade ser epicentro da pandemia e agora sonha na Liga dos Campeões

Publicação: 2020-08-11 10:10:00
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Dividida entre a cidade alta e a cidade baixa, Bérgamo teve outro tipo de separação em 2020. Em março, a cidade da Lombardia chegou a ser o epicentro da pandemia do novo coronavírus na Itália, com o sistema de saúde em colapso após desprezar a implementação da quarentena. Hoje vive outra realidade. Com as medidas tomadas pelas autoridades de saúde, tanto Bérgamo, quanto o país, registraram queda acentuada no número de casos e de mortes pela covid-19. Agora, os holofotes também se voltam para o futebol.

A Atalanta, a equipe da cidade, fez grande campanha no Campeonato Italiano - terminou em terceiro lugar - e está nas quartas de final da Liga dos Campeões da Europa. Adversária do Paris Saint-Germain nesta quarta-feira, o time é a grande sensação do futebol italiano nos últimos anos e faz a sua estreia na competição europeia.

Por determinação da Uefa, todas as fases finais do torneio serão disputadas em Portugal. As quartas de final, além da semifinal e da decisão, vão ser realizadas em jogo único.

Por muito tempo, a Atalanta esteve longe das primeiras posições do Campeonato Italiano. No entanto, nos últimos anos, o clube passou por uma grande reformulação dentro e fora de campo e, atualmente, colhe os frutos de um projeto que exigiu paciência.

A diretoria direciona seus investimentos tanto para a base como também para reforços pontuais e pouco valorizados, que se encaixam no DNA da equipe. Desde que voltou para a elite do futebol italiano em 2012, a Atalanta realizou campanhas regulares nas cinco temporadas seguintes. A partir de 2017, o clube começou a ter desempenhos cada vez melhores.

A equipe passou a figurar na parte de cima na tabela de classificação e conseguiu vaga na Liga Europa em duas temporadas seguidas. No ano passado, o time foi vice-campeão da Copa da Itália e carimbou vaga na Liga dos Campeões pela primeira vez em sua história.

O que chama a atenção na Atalanta é o estilo de jogo ofensivo, reflexo da visão do técnico Gian Piero Gasperini. Mesmo sem contar com jogadores famosos, a equipe tem um dos ataques mais goleadores do futebol europeu, à frente da própria Juventus, campeã italiana.

O time italiano aposta na intensidade, na troca de passes e até na participação dos zagueiros na construção do jogo, dentre eles o brasileiro Rafael Tolói, ex-São Paulo. É devido à mentalidade ofensiva que a Atalanta vem recebendo elogios pelo desempenho em campo.

"Defender te faz invencível, mas se você quer vencer, você tem que atacar (do livro A Arte da Guerra). Você tem que crescer e melhorar, dia a dia, porque se você não melhora, você está perdido. Aqueles que param, eles estão perdidos", filosofou Gasperini em entrevista ao jornal inglês The Guardian.

"BOMBA BIOLÓGICA" EM ATALANTA X VALENCIA - Em sua primeira participação na Liga dos Campeões, a Atalanta fez boa campanha na fase de grupos e avançou para o mata-mata. No dia 19 de fevereiro, dois dias antes de a Itália registrar a primeira morte pela covid-19, a equipe italiana enfrentou o Valencia, em Milão - o estádio do clube está em reformas -, e milhares de torcedores do time viajaram para assistir a partida.

Um mês depois do primeiro óbito confirmado, o prefeito de Bérgamo, Giorgio Gori, disse que a partida "foi uma bomba biológica" e contribuiu para o aumento de casos e mortes do coronavírus. "Eu nunca irei me esquecer das sirenes que nós ouvimos no centro de Bérgamo, pelo resto da minha vida", disse Gasperini ao The Guardian.

Quem viu de perto o drama de Bérgamo foi Giordano Corti, morador da cidade e que trabalha com a família no setor funerário. Em entrevista ao Estadão, Corti relembrou a dor ao ver a cidade como epicentro da pandemia na Itália e destacou a importância da quarentena.

"Ver os tanques militares carregando centenas de caixões do cemitério foi um golpe no coração, especialmente para mim e minha família, já que trabalhamos com serviços funerários. A quarentena rígida em Bérgamo foi fundamental, além do respeito pelas distâncias e o uso correto de máscara. A vida está retornando ao ‘normal’, mas o medo e as lembranças do que aconteceu permanecem muito fortes", contou.

A pedido do presidente italiano, Sergio Mattarella, a empresa em que Corti trabalha doou à cidade um memorial para lembrar de todas as vítimas da covid-19. Enquanto a cidade tenta voltar à normalidade, os olhares se voltam nesta semana para o time da cidade na disputa da principal competição europeia. "Em Bérgamo, se você não apoia a Atalanta, não pode se considerar ‘bergamasco’. Uma cidade, um único coração azul e preto. Sim, estamos muito orgulhosos", destacou Corti.

Estadão Conteúdo