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TN Família
Atenção aos olhos dos pequeninos
Publicado: 00:00:00 - 06/02/2022 Atualizado: 12:00:16 - 05/02/2022
Tádzio França
Repórter

Estar atento é fundamental quando o assunto é retinoblastoma, câncer que atinge as células da retina e provoca a formação de tumores malignos. Por ser uma doença rara, mais comum em crianças nos primeiros anos de vida, sua ação é silenciosa e perigosa. O assunto ganhou atenção nacional após o jornalista Thiago Leifert e a esposa Daiana Garbin revelarem na semana passada que a filha Lua, de 1 ano e 3 meses, está com a doença. O exemplo dele é um grande alerta, já que 50% dos casos são identificados tardiamente, reduzindo as chances de cura.
Alex Régis
Exames e a atenção dos pais são fundamentais para o diagnóstico precoce. Quanto mais cedo a descoberta, mais leve o tratamento e maiores as chances de sucesso

Exames e a atenção dos pais são fundamentais para o diagnóstico precoce. Quanto mais cedo a descoberta, mais leve o tratamento e maiores as chances de sucesso

Segundo o Ministério da Saúde, há cerca de 400 novos casos de retinoblastoma por ano. Essa modalidade de câncer, em geral, atinge crianças com idades entre dois e cinco anos, sendo responsável por 2% a 4% de todos os casos de câncer em crianças em todo o mundo a cada ano. Os exames e a atenção dos pais são fundamentais para que haja o diagnóstico precoce da doença, pois quanto mais cedo a descoberta, mais leve o tratamento e maiores as chances de sucesso.

Em seu depoimento, o ex-apresentador do BBB contou que foi percebendo aos poucos os sinais de que algo estava errado nos olhos da filha. São sinais sutis, que podem passar facilmente despercebidos pelos pais. “O sinal de maior preocupação e urgência em levar a criança ao oftalmologista é a presença do reflexo branco, ou leucocoria, no centro da pupila, observado geralmente em fotografias”, ressalta o oftalmologista Márcio Florêncio.   

O segundo sinal mais comum é a presença do estrabismo, ou seja, um dos olhos pode estar desviado. Márcio afirma que os pais também devem ficar atentos a mudanças no comportamento visual da criança, como por exemplo, a criança começar a olhar de lado para assistir a televisão, fechar um dos olhos, coçar os olhos constantemente como se quisessem fazer isso com a intenção de enxergar melhor, e o olho ficar tremendo (nistagmo).

A melhor forma de diagnosticar a doença de forma precoce, segundo Márcio, é com a visita regular da criança ao oftalmologista ou pediatra.  “No primeiro mês de vida, todos os recém nascidos devem realizar o teste do olhinho, também chamado de teste do reflexo vermelho. Trata-se de um exame simples, rápido, indolor, que pode ser feito com a pupila dilatada ou não”, explica.

O conselho Brasileiro de Oftalmologia aconselha que o teste do olhinho deve ser repetido pelo pediatra ao menos três vezes ao ano nos três primeiros anos de vida da criança. O oftalmologista ressalta que 90% dos casos de retinoblastoma costumam ser diagnosticados antes dos três anos de idade. Decorre daí outro fato: as crianças muito pequenas não sabem como externar que algo está errado em seus olhos, aumentando a necessidade de os pais redobrarem a atenção.

O tipo de tratamento do retinoblastoma vai depender de vários fatores, como o tamanho do tumor, localização, a fase do diagnóstico, e a presença de metástases. “Quanto mais precoce o diagnostico, maior a chance de cura e menores serão as sequelas para a visão da criança”, ressalta Márcio. Entre os tratamentos mais utilizados estão a laserterapia com diodo, e a crioterapia como tratamentos focais.

A quimioterapia venosa com finalidade de redução do tumor para complementar com tratamentos focais citados; a radioterapia em casos refratários, e a retirada do globo ocular (enucleação), para casos de diagnósticos mais tardios.  As chances de curam podem chegar até 95% se a doença for detectada em estágio inicial.

Hereditária
A oncologista pediátrica Luciana Corrêa, do Hospital Infantil Varela Santiago, explica que em cerca de 30 a 40% dos casos a doença é hereditária, e necessita de duas mutações para ocorrer.  Nestes casos, os tumores podem ser unilaterais, multifocais ou bilaterais. “Em cerca de 60 a 70% das vezes, ele é esporádico. Esses pacientes apresentam tumores unilaterais, unifocais”, completa.

O diagnóstico tardio, além de deixar o tratamento mais difícil, também dá sinais de que a doença está avançada, ressalta a oncologista. “O tumor pode deixar de ser intraocular e passar a ser extra ocular, com disseminação para nervo ótico, e metástases. Pode haver a presença de uma massa orbitaria, com protrusão do globo ocular”, explica.  Segundo ela, pode haver disseminação para o sistema nervoso central, com sintomas de aumento da pressão intra craniana (vômito, cefaléia, irritabilidade, alterações de comportamento).

A médica ressalta que os tumores diagnosticados tardiamente acabam por exigir um tratamento mais agressivo, e existe uma chance maior de enucleação ocular e cegueira. O tratamento é feito através de cirurgia, quimioterapia e quando possível radioterapia. “A quimioterapia intra arterial é feita, com bons resultados, diminuindo a chance da retirada do globo ocular”, diz.

Enxergando além

Foi aos dois anos de idade que a visão do jornalista e escritor Fernando Campos escureceu para sempre. Ele desenvolveu uma retinoblastia bilateral. Na época, quase 30 anos atrás, falava-se ainda menos da doença. Em busca de um tratamento referencial, ainda inexistente no estado, a família de Fernando foi para os Estados Unidos. Foram 11 meses de quimioterapia e radioterapia, houve a cura, mas foi preciso fazer a operação de retirada dos globos oculares.  

A partir daí, teve início uma dura fase de aprendizado para ele e os pais. “Tivemos que começar a descobrir como seria nossa vida daquela forma. Meus pais nunca tiveram um filho cego e nem eu tinha nascido cego. E aprendemos vivendo”, conta. A luta contra o câncer motivou a família de Fernando a fundar a Casa de Apoio a Criança com Câncer Durval Paiva, instituição referência no País no tratamento de crianças e adolescentes com câncer.

O jornalista lamenta que a informação sobre retinoblastia ainda seja tão pouca entre as pessoas, e que a maioria dos diagnósticos surjam tarde por causa disso. Mas, assim como na história dele, de situações difíceis pode surgir algo maior para o bem de outras pessoas. “Eu fico triste pelos pais e pela criança estarem passando por isso, mas acho de extrema importância que alguém como o Thiago, que tem um alcance tão grande na mídia, esteja falando disso”, conclui.

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