Atento aos sinais precoces

Publicação: 2018-11-04 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

A passagem da infância para a adolescência é um processo naturalmente delicado, mas pode se tornar ainda mais difícil quando a criança apresenta sinais de puberdade precoce. As mudanças que surgem antes do tempo – em geral com menos de oito anos de idade - modificam a aparência de meninos e meninas, e trazem consigo a possibilidade de problemas psicológicos, sociais e de saúde. A identificação rápida do problema ainda é a melhor forma de reverter os sintomas, e garantir que os pequenos se tornem adolescentes em harmonia com sua idade.
As mudanças que surgem antes do tempo – em geral com menos de oito anos de idade - modificam a aparência de meninos e meninas e trazem consigo a possibilidade de problemas psicológicos, sociais e de saúde
As mudanças que surgem antes do tempo – em geral com menos de oito anos de idade - modificam a aparência de meninos e meninas e trazem consigo a possibilidade de problemas psicológicos, sociais e de saúde

Os primeiros sinais de puberdade precoce se manifestam de forma diferente conforme o gênero: para as meninas, é o aparecimento de mamas e/ou pelos pubianos com menos de oito anos de idade, e também menstruação antes dos nove anos; para os meninos, os sinais são os pelos pubianos e/ou aumento do volume testicular com menos de nove anos de idade. “Em ambos os sexos, quando o aparecimento for precoce, há a necessidade de investigação diagnóstica”, afirma Luís Eduardo Calliari, professor assistente da Faculdade de Ciências Médicas e Médico-Assistente do Departamento de Pediatria da Santa Casa de São Paulo, em entrevista ao FAMÍLIA.

O objetivo maior do tratamento é impedir que a criança chegue à puberdade antes do tempo, e possa manter o desenvolvimento cronológico compatível com sua idade óssea. Calliari afirma que na maioria das vezes não há uma causa identificável para a puberdade precoce, mas a investigação é obrigatória pois pode haver algo relacionado a tumores na região da hipófise (no cérebro), ou nas gonadas (ovário ou testículo).

Há também a associação com outras doenças hormonais. Pode haver causas genéticas, relacionadas a aumento de peso (obesidade) ou ambientais — e o uso abusivo de agrotóxicos vem sendo estudado como um dos possíveis fatores causais neste aparecimento. Um dado curioso na puberdade precoce é que o número de casos entre meninas costuma ser cinco vezes maior do que nos meninos. A medicina não sabe a causa desse fenômeno. Nos meninos é menos comum, mas as causas podem indicar problemas  no sistema nervoso central, testículos ou glândulas suprarrenais.

O maior problema da precocidade puberal está associado à redução da estatura final, que não acontece de forma adequada. Pesam também os problemas de ordem psicológica e adaptação social. O diagnóstico é realizado por um conjunto de informações a partir do histórico clínico da criança, exame físico e testes complementares, como dosagem hormonal e exames de imagem como raio X de punho para avaliação da idade óssea e sua comparação com a idade cronológica.

A endocrinologista infantil Taísa Macedo afirma que a puberdade precoce também impacta as meninas de forma mais intensa. “Imagine que ela está entre amigas, e menstrua antes de todas elas. Ela vai se sentir diferente, inadequada. O desenvolvimento precoce da mama também é negativo em vários aspectos. Por ser uma mama exposta de forma mais precoce ao estrógeno, o hormônio feminino, aumenta os riscos no futuro de desenvolver um câncer de mama, mais do que outras que tiveram um crescimento normal”, afirma.

Quanto aos meninos, Taísa afirma que o problema pode ser mascarado por questões culturais. “A nossa sociedade, no geral, acha bonito que o menino se torne virilizado muito cedo. Mas se esse distúrbio não for tratado, pode afetar a criança de várias formas – principalmente em seu tamanho”, diz. Luís Eduardo Calliari complementa, ressaltando que a puberdade precoce pode afetar a criança psicologicamente, promovendo isolamento, depressão e ansiedade.

Tratamento
O tratamento da precocidade puberal é medicamentoso. Um medicamento injetável que pode ser aplicado de forma mensal ou trimestral, e que reduz a produção dos hormônios pelo organismo. “É um tratamento já tradicional, não experimental. O objetivo é preservar o crescimento. O remédio age impedindo o avanço do osso, e preserva o crescimento adequado da criança”, explica. Um problema comum é que a medicação é cara, e muitas vezes não está disponível na Unidade Central de Agentes Terapêuticos – Unicat.

Taísa Macedo ressalta que a melhor prevenção é a avaliação clínica assim que houver a desconfiança de algo diferente no corpo da criança. “Claro que alguns procedimentos de cuidado com a saúde são sempre recomendáveis, como ter cuidado com o peso e ter uma alimentação adequada”, diz. Há sinais para se prestar atenção, como  por exemplo, se a mãe tiver tido a precocidade, a filha ter muita chance de ter também. E há também os mitos: “Assistir televisão e ver programas adultos não causa o distúrbio. Pode erotizar a criança mais cedo, e isso é errado, mas não desencadeia problemas biológicos em sua puberdade”, completa.

Atenção aos sinais
A enfermeira Kátia Lima sentiu que havia algo errado quando a filha de sete anos se queixou pela primeira vez de dor na região dos mamilos. “Estavam protuberantes, não parecia algo comum pra idade dela. Fomos ao médico, fizemos raio X e ultrassonografia. Descobrimos que minha filha estava prestes a menstruar, antes dos oito anos de idade. Começamos um tratamento rapidamente”, conta. A partir daí, foram dois anos e meio de tratamento, encerrados recentemente. A menina está com dez anos, e se desenvolve normalmente.

Apesar do tratamento em si ser simples, Kátia esbarrou na questão da falta de medicamento – e seus altos preços. “A medicação é super cara, e a Unicat passou quase um ano sem ela. Tiver que correr atrás por conta própria. Fico pensando em como deve ser ainda mais difícil para a família que não tem condições de fazer o mesmo”, lamenta. O tratamento foi tranquilo. A filha de Kátia não se queixou de nenhum efeito colateral, apesar de já ter ocorrido com outras crianças. “Algumas mães já me contaram dos filhos terem náuseas ou irritabilidade. Acredito que isso deve variar de pessoa para pessoa”, diz.  Com o monitoramento constante e tratamento adequados, a criança pode voltar a ter um crescimento e desenvolvimento compatíveis com sua idade cronológica.


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