Atividades diárias são discutidas e divididas

Publicação: 2020-11-25 00:00:00
Na ocupação, a dinâmica diária é feita a partir de decisões coletivas. Matheus Araújo relatou que todos os dias, as pessoas fazem uma assembleia à noite para definir as tarefas diárias de cada um. São criadas comissões para alimentação, limpeza das áreas comuns, limpeza dos banheiros e segurança. Todos participam dos cuidados do espaço, que foi limpo pelos ocupantes. Além de se revezarem para cuidar do ambiente, eles se alternam também para cuidar das crianças, que são mais de 30. Lucimara comentou que ter ajuda para conseguir os itens básicos para os filhos, como fraldas e leite, tem sido “um alívio” durante a pandemia. “Eles me ajudam bastante com as crianças. A equipe dos jovens acaba ficando com eles quando eu tenho que fazer alguma coisa. Quando preciso de um leite, uma fralda, o pessoal da coordenação consegue para mim por meio das doações... tudo é dividido pelas crianças, e assim vai. Graças a Deus, aqui não acontece de eles estarem precisando de alguma coisa e, por eu não ter da onde tirar, eles ficarem sem aquilo que precisam”, contou. 

Mariana, Lucimara e todos os demais membros da ocupação compartilham um sonho em comum: encontrar um local digno e definitivo no qual possam morar.  “Esse é o único objetivo que eu tenho: ter minha casa para poder trazer meus filhos para junto de mim”, disse Mariana. 

Atualmente, o MLB possui duas ocupações ativas na cidade: a da Faculdade de Direito, e outra na rua Doutor Barata, também na Ribeira. Matheus relatou que, no passado, o movimento chegou a ter mais ocupações ativas na cidade, mas que muitas conseguiram êxito em encontrar uma solução definitiva de habitação, como foi o caso do conjunto Leningrado, que surgiu a partir de uma ocupação do MLB. “O MLB atua aqui desde 2004, e conseguiu conquistar diversos conjuntos habitacionais. O Emmanuel Bezerra, conjunto habitacional no Planalto, o  Leningrado, que virou conjunto habitacional e agora lutamos para que vire bairro, o Djalma Maranhão, na zona Norte, o Village de Prata, no Planalto também...”, enumerou. 

Segundo ele, o objetivo das ocupações é chamar a atenção do Poder Público para a situação de déficit habitacional da cidade, a fim de pressionar por uma solução definitiva para as famílias. “A nossa ideia é sempre essa: abrir um espaço de negociação onde a gente possa pressionar o Poder Público a cumprir um dever que sempre foi dele e, ao mesmo tempo, fazer um debate sobre a função social do espaço”, disse Matheus. 

 Ele explicou que o debate não se resume às 60 famílias que hoje se encontram no prédio da Ribeira, e que envolve a própria lógica de funcionamento da cidade, que cada vez mais “expulsa" os mais pobres para longe dos centros. “Apenas na Ribeira, temos 133 imóveis abandonados. Uma coisa que sempre dizemos no movimento é que tem mais casa sem gente do que gente sem casa, e essa é a realidade. Basta dar uma volta pelo Centro, pela Ribeira. Depois das 18h você vai ver: tem gente dormindo nas praças, nas ruas, e vários imóveis completamente abandonados. Essa não é a cidade que queremos". 

O prédio
Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Geográfico (Iphan), o prédio hoje ocupado pelas famílias pertence à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Segundo a Pró-Reitoria de Administração da Universidade, a UFRN recebeu recursos destinados à elaboração dos projetos arquitetônicos de restauração do prédio, fase que já foi concluída e aprovada pelo Iphan. Atualmente, a Universidade espera a disponibilidade orçamentária pelo Instituto para poder dar início à licitação de execução da obra de restauro, processo que já se arrasta desde 2018.