Atriz Alice Carvalho desponta como a cara do novo audiovisual local

Publicação: 2020-12-02 00:00:00
Tádzio França
Repórter

Alice Carvalho é jovem e tem a cara do novo audiovisual potiguar. Aos 24 anos, a atriz, dramaturga e roteirista é conhecida por se engajar em projetos que abordam temas delicados e contemporâneos. E é famosa também por ter vários desses projetos premiados ao redor do mundo. Recentemente, a série documental “Agô” foi premiada no Rio WebFest como o melhor projeto do ano em webséries, e  em “Septo”, a série na qual ela despontou, foi eleita melhor atriz pelo festival australiano Changing Face International. Mais uns para a estante.

Créditos: DivulgaçãoAlice Carvalho foi eleita a melhor atriz por “Septo”, o que trouxe as atenções do mundo artístico para elaAlice Carvalho foi eleita a melhor atriz por “Septo”, o que trouxe as atenções do mundo artístico para ela

“Nunca fui de fazer algo só pensando em prêmios, mas é inegável que dentro da cena audiovisual potiguar, com tantos colegas que ainda passam por dificuldades, sinto que é uma validação pra gente alçar vôos maiores, com relação a financiamentos, viabilização de obras, e novas ideias”, afirma Alice. “Agô” nem saiu do papel e já foi premiado. A obra concorreu numa categoria que analisa o potencial do projeto, vencendo como “Melhor Ideia” de 2020. O RioWebFest, no Rio de Janeiro, é considerado o maior festival de webséries do mundo.

“Agô” é a segunda série documental tocada por Alice, e seu mais novo capítulo pessoal pela busca de identidade. O filme apresentará a trajetória de uma mulher negra e nordestina em busca da sua linhagem ancestral ao redor do mundo, partindo do Nordeste brasileiro rumo a Europa colonizadora, e encontrando desfecho na África. O pontapé será a abertura do resultado de um teste de ancestralidade feito no laboratório Genera.

O exame analisa - a partir do DNA mitocondrial e do cromossomo Y - os caminhos percorridos pelos antepassados de Alice e de todo resto da equipe. O teste genético é capaz de rastrear uma estrutura familiar de até 50 mil anos, e será o mapa na busca de Alice pelo desconhecido. “Agô” é uma palavra que vem do yorubá e significa “pedir licença”, a chave para o desejo de dar espaço para o que transita e chegar até as próprias raízes ancestrais.

“Agô chegou a mim num momento de entendimento de minha própria identidade enquanto mulher negra, enquanto fruto de uma miscigenação que foi historicamente forçada”, afirma. Uma pesquisa intensa fará parte dos próximos passos da série, segundo Alice, já que ela pretende partir de sua experiência pessoal para debater assuntos gerais como racismo, auto-estima, políticas de embranquecimento, heranças coloniais violentas, e a busca pela identidade do povo brasileiro.

A auto-aceitação como pessoa negra às vezes faz parte de um processo difícil e doloroso, como foi para Alice, que tem a pela clara e costumava alisar o cabelo para se adequar aos padrões. “Raspei o cabelo após a primeira temporada de ‘Septo’ e fui deixando minhas características e fenótipo naturais ficarem mais evidentes. Quando assumi minha identidade negra, eu percebi da pior forma como eu era lida antes, e isso passou a me tocar de uma maneira muito íntima”, diz, ressaltando saber que mulheres negras de pele clara costumam ter mais privilégios e serem afastadas de sua negritude.

“Agô veio de um lugar muito pessoal, da necessidade de falar sobre como uma política de opressão afeta a vida dos indivíduos e como pode causar confusão nesse lugar de não pertencimento, principalmente entre indivíduos miscigenados”, analisa. A visibilidade trazida pela RioWebFest pôs “Agô” em contato com canais grandes de streaming e televisão que se interessaram pela série, contou Alice. O projeto está agora em fase de negociação e pesquisa para sala de roteiro.

Septo
A outra surpresa do mês foi a premiação de melhor atriz por “Septo”, websérie de 2016, com três temporadas, e que trouxe as atenções do mundo artístico para Alice Carvalho. “É um festival importante, de boa dimensão, respeitado nas maiores plataformas, e eu sei que isso tem um peso e responsabilidade muito grandes”, diz ela sobre o Changing Face International Film Festival, que acontece ao longo do ano em edições mensais, e que em dezembro fez um apanhado geral de cada destaque.

“Septo” vem acumulando premiações e indicações desde o seu começo. Foi vencedora do prêmio de "Melhor Websérie" no Buenos Aires Webfest 2017, "Melhor Elenco de Drama" no Rio Webfest 2017, "Destaque Audiovisual" no Troféu Cultura RN, além de ter sido indicada a prêmios em quatro categorias no Asia Web Awards 2017, e em três no Seoul Webfest 2017. Em 2018 representou o Brasil em festivais na Alemanha e Estados Unidos, tornando-se o primeiro projeto audiovisual potiguar a receber destaque em Hollywood.

A atriz acredita que “Septo” é uma série que vem tocando o coração das pessoas, há quatro anos, por suas características essenciais. “Por ser um projeto nordestino, LGBTQ+, protagonizado por duas mulheres não brancas que vivem um romance, e que desejam entender a própria identidade”, afirma. A trama conta a história de Jéssica, uma jovem triatleta de carreira promissora cuja vida é controlada pelo pai. Um dia ela passa mal em mar aberto e é salva por Lua, uma professora de surf com quem embarca numa relação de amor e autoconhecimento.

Nos palcos, nos streamings e na TV (a série da Globo “Segunda Chamada”), Alice Carvalho já discutiu gênero, sexualidade, violência contra a mulher, raça, e parece estar sempre pronta para atravessar a próxima fronteira. “Essa é a minha arte política, que parte de um lugar muito pessoal, mas sempre pensando numa transcendência coletiva, no empoderamento coletivo, que possa tocar a classe artística e também os meus pares, mulheres negras, nordestinas, LGBTQ+. Queremos deixar algo para as próximas gerações”, conclui. 











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