Aureliano Medeiros fala sobre sentimentos reprimidos e masculinidade em novo livro

Publicação: 2019-11-06 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

O ilustrador e escritor Aureliano Medeiros estava de boa em casa lendo “15 Dias”, livro do amigo Vitor Martins, quando, ao terminar a leitura, sentiu vontade de chorar. Mas não chorou, não conseguiu. “Percebi que tinha um bloqueio. Então resolvi investigar minha vida. Foi quando descobri que isso de não chorar começou na infância”, conta Aureliano à TRIBUNA DO NORTE. Da experiência ele escreveu e ilustrou o livro “O menino que desaprendeu a chorar”, editado de forma independente. O lançamento será esta quinta-feira (7), das 17h às 20h, no Café Sr. Petita (Cidade Alta).

Aureliano Medeiros destaca forma acessível do livro: é para todas as idades
Aureliano Medeiros destaca forma acessível do livro: é para todas as idades

Uma das reflexões chave do livro é “Para onde vão as lágrimas que não nos permitimos chorar?”. Disso, Aureliano conduz o leitor em um mergulho profundo por sentimentos que desde cedo meninos aprendem que devem ficar guardados. E nesse mergulho  ele procura ir até o fundo, buscando a semente que origina essa espécie de homem que parece não querer sentir.

O livro toca num tema que vem sendo cada vez mais debatido, que é o da masculinidade tóxica – aqui abordado no sentido das consequências internas. “Tem estudos que mostram que a taxa de suicídio entre homens é quatro vezes maior que entre as mulheres. Acho que muito tem a ver com os homens não saberem se abrir, evitarem por pra fora seus sentimentos”, comenta o autor. “É algo importante e que precisa ser discutido”.

Embora seja um tema delicado, a história é narrada com texto acessível e o característico traço do autor, de modo que o livro é indicado para pessoas de todas as idades. “Acho que se comunica bem com crianças, adolescentes e adultos. Acredito que cada um dos públicos se relacionará de um jeito diferente”, diz Aureliano, que depois de tanto refletir sobre o assunto, produziu o livro de um fôlego só. “Escrevi o texto em março, numa noite, logo depois de pensar sobre essas coisas. Depois passei meses absorvendo aquilo, fazendo estudos e buscando referências, processando para ver como transformar aquela história em imagem. Quando cheguei aonde queria, levei duas semanas para ilustrar”.

“O Menino que desaprendeu a chorar” foi lançado inicialmente no Festival Mário de Andrade, em São Paulo, evento que contou com a participação de importantes nomes, como Fernanda Montenegro e Mia Couto. Além de lançar o livro, Aureliano compôs a mesa sobre “Escrever para internet”. Depois do lançamento em Natal ele já tem novo retorno a São Paulo agendado, mas antes passará por Recife, Rio de Janeiro e Ilha de Paquetá.

O peludinho sensível
Aureliano se tornou nacionalmente conhecido pela série de quadrinhos “Oi, Aure!”, sucesso no Facebook com quase 250 mil fãs, e no Instagram com perto de 60 mil seguidores. No centro das histórias está um garotinho pelado, barrigudinho e peludinho. Os quadrinhos são em maioria autobiográficos e tratam de questões referentes ao cotidiano, internet, saúde mental, corpo, mas sobretudo ao sentimento incômodo de desencaixe em toda e qualquer situação. Além dos temas, a abordagem sempre sincera e sensível gerou rápida identificação entre o público.

Obra trata de sentimentos que desde cedo o homem aprende a deixar guardados
Obra trata de sentimentos que desde cedo o homem aprende a deixar guardados

Nesses quatro anos com o quadrinho no ar, Aureliano recebeu todo tipo de mensagem privada. Desde comentários de ódio dos haters, até histórias cômicas. “Outro dia apareceu uma senhora que agradeceu por um quadrinho em que cito aquela música do Titãs, 'flores de plástico não morrem'. Ela ficou emocionada porque havia perdido o marido há pouco tempo. Mas ai vem a parte engraçada, ela lembrou que as flores que a empresa de velório utilizou foram de plástico, e que por causa disso estava 'processando esses CANALHAS!', disse com essas palavras”, lembra o autor.

Aure se despede
No entanto, o que toca muito Aureliano são as mensagens de gente com grande dificuldade de se abrir e que encontra nele espaço para expor suas dificuldades emocionais. “Muita gente veio falar comigo numa situação em que se encontra bem mal, já falando em tirar a própria vida”, conta. “Esse foi um dos motivo de eu me engajar tanto no Setembro Amarelo, a campanha de prevenção ao suicídio”.

Depois de quatro anos e aproximadamente 400 quadrinhos, Aureliano encerrou em julho a série “Oi, Aure!”. Segundo ele, chegou a hora de fechar um ciclo para abrir outro. “Não queria me prender num personagem. E essa situação não estava me deixando mais à vontade. Então dei um descanso ao 'Oi, Aure' para me dedicar a novos projetos”, explica.

Esta tirinha da série Oi, Aure foi a de maior alcance de Aureliano. Foram mais de 116 mil compartilhamentos no Facebook
Esta tirinha da série 'Oi, Aure' foi a de maior alcance de Aureliano. Foram mais de 116 mil compartilhamentos no Facebook

Serviço
Lançamento de “O menino que desaprendeu a chorar”, de Aureliano Medeiros

Dia 7 de novembro, às 17h

Café Sr. Petita (Rua Voluntários da Pátria, 672, Cidade Alta - por trás do Bardallos)

Preço do livro: R$ 25.

O que
“O menino que desaprendeu a chorar” é o terceiro livro de Aureliano Medeiros.  Ele iniciou a carreira literária em 2015 com o romance (também ilustrado) “Madame Xanadu”, a história de uma drag queen deprimida e profundamente natalense por entre as ruas do centro histórico da capital potiguar. Seu segundo livro, que reuniu os quadrinhos que tecia virtualmente, chama-se “Mercúrio Cromo” e foi devidamente costurado em 2017 pela Editora Lote 42 (SP). Entusiasta dos fanzines e experimentações gráficas, Aureliano também publicou trabalhos nos mais diversos em formatos, sempre incluindo suas famosas ilustrações.










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