Autônomas relatam dificuldades durante isolamento social

Publicação: 2020-05-24 00:00:00
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Não é apenas nos serviços domésticos que os trabalhadores informais têm sentido o peso da crise econômica provocada pela pandemia. No Rio Grande do Norte, são 586 mil trabalhadores informais, sendo 45% mulheres. Com isso, têm-se no mercado 322.300 homens e 263.700 mulheres atuando na informalidade, sem carteira assinada, de acordo com a PNAD Contínua do primeiro trimestre de 2020 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A autônoma Sandra Araújo Cid, de 60 anos, é uma das que está sentindo diretamente o impacto na renda doméstica. Sandra, que vive sozinha, tem na venda de cosméticos de empresas como a Natura e Avon sua principal fonte de renda. Recebe, além disso, apenas um complemento fruto de uma pensão do ex-marido, que não é suficiente para pagar todas as contas e colocar comida na mesa. Sua atividade, que dependia muitas vezes do contato direto com as clientes para quem revendia os produtos, foi diretamente afetada e, desde o início do isolamento, ela busca maneiras de contornar as dificuldades provocadas pelo distanciamento social para conseguir se manter.
Créditos: Adriano AbreuAutônoma Sandra Araújo Cid, de 60 anos, tem na venda de cosméticos sua principal fonte de renda. Com o isolamento, busca maneiras de contornar as dificuldadesAutônoma Sandra Araújo Cid, de 60 anos, tem na venda de cosméticos sua principal fonte de renda. Com o isolamento, busca maneiras de contornar as dificuldades
"As vendas estão horríveis, caíram muito, muito mesmo. Muitas das minhas clientes foram demitidas, e eu tenho buscado formas de contornar o distanciamento, como usar o aplicativo para fazer com que os produtos sejam deixados nas casas de quem continua podendo comprar", diz Sandra.

Todas as autônomas com as quais a equipe de reportagem da TRIBUNA DO NORTE entrou em contato relataram uma situação semelhante, de efeito dominó da crise: com a demissão dos patrões ou clientes, acabaram perdendo, por tabela, a renda que obtinham a partir desses grupos. 

Diferente deles, no entanto, por trabalharem de forma informal, muitas não podem entrar com pedidos de Seguro-desemprego ou outros benefícios para compensar a renda durante a pandemia. O auxílio emergencial ainda é aguardado por muitas, que continuam com os processos pendentes em análise, apesar da grave situação financeira, que piora a cada dia, de acordo com as entrevistadas. 

No caso de Sandra, as vendas caíram entre 30% e 40% no último mês, de acordo com ela, e a manutenção dos poucos clientes que continuam a comprar encontram outro obstáculo: a falta de produtos e dificuldade de envio. "Eu vou, passo o catálogo para pessoa, mostro as promoções, e quando vou fazer o pedido, vejo que está indisponível. A entrega também está demorando muito e, quando chega, às vezes faltam produtos. Eu nunca havia tido esse tipo de problema antes, nunca houve uma falta tão intensa", relata.

Sandra é outra que faz parte dos grupos de risco com chances de desenvolver um quadro grave de Covid-19: possui diabetes e faz tratamento de câncer há dois anos. Antes da pandemia ela estava, inclusive, com uma cirurgia para retirada de uma calcificação da mão esquerda marcada e, agora, o procedimento está sem data para acontecer. "O momento é muito difícil, estou tentando lidar como posso. Até mesmo para sair e receber o dinheiro é uma dificuldade, porque, além do medo de não ter aquela renda, que se tornou mais importante que nunca, há o medo de sair e ser contaminada", conta.

Na saúde, as mulheres são maioria

Levantamentos feitos pelo Observatório do Nordeste para Análise Sociodemógrafica da Covid-19 (Onas) revela que as mulheres são maioria na linha de frente de combate à pandemia no Nordeste, e correspondem a cerca de 80% das trabalhadoras que atuam nos serviços diretamente relacionados à doença. Elas estão, em sua maioria, nos serviços de mais baixa remuneração, como técnicas de enfermagem, assistentes de serviços gerais, enfermeiras e recepcionistas. Até o dia 16 de abril de 2020, mais de 8 mil profissionais da saúde já haviam sido afastados por apresentarem sintomas da doença, a maior parte deles, nos serviços que contam com a maior presença das mulheres.
 
De acordo com a Secretaria do Estado de Saúde Pública (Sesap) do Rio Grande do Norte, até o dia 16 de maio, 784 casos de Covid-19 foram confirmados entre os profissionais de saúde do Estado, a maior parte deles (426) em instituições públicas. As categorias que apresentam maior incidência são: técnicos e auxiliares de enfermagem (281 casos), médicos (92 casos) e enfermeiros (84 casos). Com exceção dos médicos, as demais possuem majoritariamente presença de mulheres atuando nos serviços. 

Além de estarem concentradas nos serviços com as remunerações mais baixas do setor de saúde, as mulheres encaram, ainda uma disparidade salarial em relação aos companheiros homens que exercem as mesmas funções. Na região Nordeste, o Onas aponta que, enquanto um técnico de enfermagem recebe, em média, R$ 1.665,86, os salários médios das mulheres são de R$ 1.595,72. O mesmo acontece em outras categorias: enquanto um médico homem recebe cerca de R$ 9.767,03, o salário médio de uma mulher é de R$ 8.951,57, 8,3% a menos.

Independente de estarem em hospitais direcionados ao atendimento de Covid-19 ou não, os profissionais da saúde encontram-se, em geral, sobrecarregados, como relata a enfermeira Mariluce Souza da Silva, de 47 anos. Ela atua há 25 anos no Estado como técnica de laboratório, atualmente no Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, o maior do Rio Grande do Norte. 
Créditos: CedidaMariluce Souza da Silva, técnica de laboratório, é chefe de famíliaMariluce Souza da Silva, técnica de laboratório, é chefe de família
Lá, até o dia 20 de maio, 37 casos suspeitos de Covid-19 haviam sido notificados, apesar da unidade não estar destinada ao tratamento da doença. Desses, 6 foram confirmados, e 4 pacientes vieram a óbito, enquanto 2 encontram-se hospitalizados. Outros 7 casos continuam em investigação, o que tem aumentado a tensão entre os profissionais que atuam na unidade, que teve que criar estruturas improvisadas para garantir o isolamento dos pacientes com suspeita da doença. “Sempre tivemos casos de bactérias muito perigosas no Hospital, então sempre tivemos muito cuidado em nos paramentar, ao menos no laboratório, mas, com o advento do Covid-19, isso foi muito intensificado”, conta Mariluce. 

Agora, os profissionais devem utilizar a máscara N-95, que também não está disponível em grande quantidade entre às unidades de saúde no RN. “A orientação foi para que trocássemos a cada 15 dias, o que se torna um problema porque, se temos contato com alguém que teve Covid-19, a troca tem que ser imediata para evitar o risco de contaminação. Há uma carência de EPIs em quantidade para os profissionais”, diz Mariluce. 

A gestão e o dia-a-dia do hospital foram completamente transofrmados, e todos os conceitos de biossegurança precisaram ser revistos diante da pandemia. “Passamos o dia preocupados, limpando portas, janelas, com medo de levar a doença para casa e para os pacientes”, relata a enfermeira. 

De acordo com ela, a tensão existente dentro do hospital, que já era grande antes da chegada da Covid-19, pelo fato do HWG ser a principal unidade de referência de traumas no Rio Grande do Norte, cresceu muito, e não se encerra fora das portas da unidade. Mariluce é a chefe de sua família, e vive com a filha, de 21 anos, estudante universitária, e a mãe, idosa e portadora de enfisema pulmonar. 

“O fato de eu estar saindo para trabalhar e de minha filha saber que estão morrendo muitos profissionais da saúde em todo país está gerando uma tensão muito grande em casa”, diz. Dentro de casa, os quartos foram separados para que o contato de Mariluce com a mãe e a filha seja mínimo: a filha passou a dormir na sala, enquanto a avó foi para o quarto de Mariluce, que ocupou o quarto de sua filha. “Não podemos nos abraçar. Minha filha passou a dormir na sala, em um colchão. Tudo que você imaginar de proximidade de família, a gente não está podendo fazer. Quando chego do trabalho, tenho que usar máscara para preparar os alimentos. Dia 7 de maio foi aniversário da minha mãe, e eu não pude beijá-la. Tudo mudou”.

De acordo com ela, muitos dos profissionais ocupam os serviços mais mal remunerados na saude e que são chefes de família, tanto homens como mulheres, e que possuem alguma comorbidade e chances de desenvolver um quadro grave de Covid-19 não solicitaram afastamento pela necessidade do recebimento das gratificações, parte importante da renda familiar. “Há mães e pais solteiros que precisam dos adicionais noturnos para sobreviver, por exemplo. Muitos têm que trabalhar em mais de uma unidade para ter um salário razoável e manter a família, e estão optando por arriscar a própria vida porque não podem deixar de colocar comida na mesa”, destaca. 

Dentro de casa,  casos de violência doméstica crescem

Nos primeiros quatro meses de 2020, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o RN teve aumento de 34% no número de boletins de ocorrência relativos à violência doméstica em relação ao mesmo período de 2019. 

Os dados oficiais da segurança pública relativos ao mês de março no Rio Grande do Norte demonstram que o aumento da violência doméstica foi expressivo no Estado desde o começo das medidas de isolamento social. Enquanto, no mês de fevereiro, o RN registrou 354 denúncias de violência doméstica, no mês de março, o número foi de 385, 8,8% a mais. 

O confinamento, no entanto, dificulta o acesso das vítimas aos canais de denúncia existentes, o que levou as autoridades de segurança pública e do setor legislativo a pensarem estratégias para facilitar a denúncia nesses casos. A Polícia Civil do Rio Grande do Norte deu início à campanha "Você não está sozinha", com a presença de delegadas, agentes e escrivãs, que fizeram um vídeo para difundir os canais de denúncia existentes entre a sociedade.

Segundo cartazes, às policiais trazem frases como “Mesmo distantes, podemos ajudar. As Deams [Delegacias Especializadas em Atendimento às Mulheres] são a porta de entrada para te ajudar e romper o ciclo da violência. Estamos com vocês em qualquer situação, ainda que nesse momento não possamos lhe dar às mãos”.

Dentre os canais de denúncia disponibilizados, estão o 181, Disque denúncia da Polícia Civil, o 190, para casos de urgência, e o 180, da Central de Atendimento à Mulher.

No dia 20 de maio, o Projeto de Lei Nº 97/2020, de autoria da deputada Isolda Dantas (PT), foi aprovado por unanimidade na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. Ele institui a Delegacia Virtual em Defesa das Mulheres, que pretende ampliar os canais de denúncia existentes para àquelas que se encontram em confinamento e não podem se dirigir às delegacias.







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