Autor relata experiências reais e mostra como identificar e se proteger do narcisista maligno

Publicação: 2019-10-06 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

O narcisista acha feio o que não é espelho. E isso pode ser um grande problema quando a admiração excessiva por si mesmo passa a prejudicar o outro. Após ouvir variados relatos de abusos cometidos por pessoas portadoras de um narcisismo patológico, o médico neurocirurgião Kurt Mendonça resolveu aprofundar seu estudo nesse terreno nebuloso, unindo experiências e leituras que resultaram no livro “Guia de sobrevivência para vítimas de narcisistas malignos”, já foi lançado em formato digital e estará disponível em formato físico no próximo dia 12 de outubro, às 15h, no Vila Park, Tirol. O livro já está entre os mais vendidos na Amazon em apenas 10 dias depois do seu lançamento virtual. 
Após ouvir muitos relatos de abusos, o médico Kurt Mendonça escreveu Guia de sobrevivência para vítimas de narcisistas malignos
Após ouvir muitos relatos de abusos, o médico Kurt Mendonça escreveu o "Guia de sobrevivência para vítimas de narcisistas malignos"

O que o médico define como Narcisista Maligno (Narc) é um indivíduo que se insere de forma manipuladora nas mais variadas e íntimas relações, sejam familiares, afetivas, de amizade ou de trabalho. São pessoas tóxicas cujas ações podem despersonalizar a vida de suas vítimas.

O neurocirurgião conta que sua observação dos fatos foi surgindo naturalmente, a partir de relatos dos pacientes. “Sou procurado para diagnosticar aneurismas, AVCs e tumores cerebrais, mas percebi que pelo menos 10% dessas pessoas não tinham nenhum problema físico. Era realmente algo de ordem psicoemocional”, conta em entrevista à TRIBUNA DO NORTE.

O incômodo registrado pelas pessoas vinha de algum ponto de suas relações pessoais. Em 2014 Kurt conheceu o livro “Assédio moral: a violência perversa no cotidiano”, da psiquiatra francesa Marie-France Hirigoyen, que ele considera sua referência primordial no assunto. “Comecei a postar trechos e estudos sobre assédio em grupos fechados na internet, e as pessoas passaram a me procurar, se identificando com os casos, relatando fatos semelhantes em suas vidas. E a coisa foi tomando um volume crescente”, diz.

Foi criado um grupo de apoio online a vítimas de narcisistas, onde Kurt recebia relatos e contribuía com seus estudos e orientações. Cinco anos depois, em 2019, o próprio grupo incentivou o médico a transformar suas vivências em livro. Elas mesmas a definiram como um “guia de sobrevivência”. “As pessoas tendem a justificar certos comportamentos abusivos de um pai ou colega. Eu aprendi estudando que existem pessoas que são ruins por convicção”, comenta.

Todo relacionamento com um narcisista é sempre algo de mão única, alerta Kurt. “Você tem que servir ao narcisista”, ressalta. “O narcisista maligno só se relaciona  com base no que tem a ganhar das pessoas, até mesmo um pai, uma mãe podem ser assim. O curioso é que quando você aprende o modus operandi do narcisista, parece que todos vieram com o mesmo manual de instrução”, diz. No livro ele descreve o círculo do abusador. Eles sempre chegam num momento de idealização, se mostrando de forma atraente, necessária.

“Eles vão dizer que são sua alma gêmea, seu companheiro perfeito, ou que tem um negócio muito bom pra você. Aí ele vai fisgar você, e quando fisga, ele vai predar”, descreve Kurt. Segundo ele, isso vale para tipos como o abusador psicoemocional, o financeiro (estelionatário), o mesmo os estupradores e   assassinos seriais. O médico afirma que o narcisista maligno tem muita proximidade com a psicopatia – é só uma questão de graduação. “Todo psicopata é um narcisista maligno, mas nem todo narcisista maligno é um psicopata. O psicopata é o extremo de malignidade do narcisista”, enfatiza.

Sinais de alerta


A falta de harmonia é um sinal comum às ações abusivas do narcisista. “Se você está lidando  com um narcisista no trabalho, numa relação familiar ou afetiva, todo mundo começa a desconfiar de todo mundo, pois ele é um manipulador que gosta de tratar as pessoas como marionetes. O narcisista condiciona as pessoas a não contrariá-lo. Se você contraria o narcisista, ele estoura ou te ignora. Você passa a ser acusado de coisas que o próprio narcisista faz. É comum um marido ou esposa narcisista acusar o outro de estar traindo, quando na verdade o traidor é o acusador. Ele projeto o mal dele no outro”, explica.

O neurocirurgião ressalta que se o indivíduo está lidando com uma pessoa que “liga e desliga” a afetividade como se fosse um interruptor, é sinal de problema. “Como uma pessoa mora na mesma casa e fica dois meses sem dirigir a palavra ao outro? Isso se chama tratamento de silêncio. Se você lida com alguém que trata todo o relacionamento como uma competição e não como uma equipe, é outra bandeira vermelha. Porque na cabeça do narcisista só ele pode brilhar, por isso ele sabota todos que convivem com ele”, alerta.

O narcisista tem plena consciência de seus atos – e se orgulha de ser manipulador. “O combustível narcísico é manipular as pessoas para ser adulado, porque ele posa de ser exemplar para receber elogios. Ele quer uma atenção positiva ou negativa de você. O que importa para o narcisista é ele se sentir no controle dos seus botões psicoemocionais”, explica.

Os exemplos são muitos, tanto do chefe que assedia o subalterno, quanto o empregado que calunia o chefe para prejudicá-lo; a truculência do homem abusador para com a mulher (que pode resultar até em feminicídio), ou a mulher que sutilmente utiliza mecanismos para abusar do cônjuge; pais que oprimem os filhos ou são oprimidos por eles.

Kurt Mendonça acredita que o narcisismo maligno não tem um tratamento formalmente conhecido. “Primeiro, porque o narcisista não é um doente mental. Ele tem uma perversão moral, um distúrbio de caráter. Ele tem consciência do que faz”, afirma.

“Eu atendo gente com demência, que faz coisas erradas,  mas sem ter consciência de ter feito. Já o narcisista sabe o que faz e se acha o máximo. Quando você confronta o narcisista ele vai dizer algo como 'eu nasci assim, sou assim, tudo que eu consegui foi sendo assim, aceite ou vá embora'. Então quem precisa de tratamento são as vítimas abusadas, porque o narcisista se acha perfeito”, atesta.

Para o médico, os narcisistas malignos são como “ciborgues” - robôs de aparência humana. Parecem normais, mas na verdade não têm sentimentos. “Existe um conhecimento empírico de que o narcisista é incapaz de sentir emoções de verdade. Estudos recentes de ressonância magnética  funcional demonstraram isso. A área da mente onde fica a empatia  não 'acende' para eles, só a da linguagem. Por isso eles aprendem a imitar os sentimentos, mas não a senti-los de verdade”, analisa.

Sair das relações


Ao perceber o elemento tóxico da relação, o melhor é deixa-la, afirma o neurocirurgião. “Tem que ser muito cuidadoso pra sair dessa relação, porque ele vai retaliar. O narcisista afirma que só ele tem o direito de descartar. É daí que  vem situações como a alienação parental. Quando você se divorcia de um narcisista, ele vai brigar pela guarda dos filhos, como forma de punir o ex, nem é por amor aos filhos. É uma forma de esticar o psicoterrorismo entre anos de processos e desgastes”, afirma.

O médico ressalta que o narcisismo é um sentimento tipicamente humano, e que em seus limites de normalidade é algo necessário e benéfico. “O narcisismo como sinônimo de autoamor, autoapreciação, é sadio. Para sermos pessoas psicologicamente saudáveis precisamos nos amar. Se não nos amarmos, somos doentes”, diz. Já o narcisismo maligno é a perversão desse sentimento. “O narcisista maligno é aquele que prospera afundando os outros, e à custa dos outros”, conclui.




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