Ave, palavra

Publicação: 2020-09-27 00:00:00
João Maria de Lima
Professor

O Eclesiastes esforçou-se por encontrar palavras adequadas e por expressar-se em termos muito exatos e verídicos. (Ecl 12,10)

De acordo com Platão, a retórica é uma técnica que poderia ser usada até mesmo para convencer os deuses. É o que afirma o pensador grego em sua obra Fedro. Segundo ele, a retórica é a utilização dos recursos discursivos para obter a adesão dos espíritos. Esta locução é, até hoje, muito lembrada, e exprime magnificamente o objetivo de advogados e promotores no tribunal do júri.

Em tempos de uma disputa eleitoral iminente – aliás ultimamente parece que estamos sempre em uma disputa dessas –, não tenho dúvidas de que podemos incluir os candidatos políticos como adeptos da retórica na arena eleitoral.

Neste cenário, em que a rede social se transforma em um importante instrumento de adesão às ideias, a palavra é o elemento maior da sedução. Escrita, articulada, pensada. Em todas as suas formas, a palavra pode nos transportar instantaneamente de um estado mental e emocional para outro.

Porém a comunicação propiciada pela palavra e os efeitos produzidos por ela não se restringem aos conteúdos objetivos. Na oralidade, por exemplo, fazem toda a diferença. Por isso, é fundamental levarmos em consideração o tom de voz, o ritmo das frases e o modo como são articuladas pelo falante.

Uma afirmativa infeliz pode causar muitos problemas. Um bom argumento no debate eleitoral apresentado em má linguagem pode voltar-se contra o político que o usou. Não se pode esquecer a história daquele político que, em plenário, defendendo um aliado, afirmou que o companheiro de partido “jamais pagou uma multa de trânsito”. A infeliz afirmativa foi depois usada pelo político opositor como indício do péssimo caráter social do indivíduo, que até a administração fraudava. Foi necessário que, na tréplica, o primeiro voltasse ao tema para, constrangido, explicitar que tentara dizer que seu partidário jamais fora multado, em vez de ser mau pagador.

Recentemente, durante a abertura do ano legislativo da Câmara Municipal de importante cidade da região Seridó potiguar, uma palavra no discurso do prefeito fez o auditório acender a luz de alerta, gerando polêmica e constrangimento. É que, em determinada parte do discurso, ao se referir aos munícipes, o gestor municipal os chamou de soteropolitanos (gentílico usado para quem nasceu ou vive em Salvador). O burburinho se instalou, e o prefeito foi acusado de plágio.

Outra curiosidade advém do “sic’, advérbio latino que significa, literalmente, “assim”. O termo é usado intencionalmente para indicar ao leitor que aquilo que ele acabou de ler, por errado ou estranho que pareça, é assim mesmo. Pois bem: lendo, em plenário, uma mensagem que havia sido preparada por um assessor, determinado político, ao se deparar com um “sic”,  traduziu para “segundo informações colhidas”. Resultado: ninguém entendeu nada.

Há muito tempo em Natal, na Câmara dos vereadores, um edil afirmou alto e bom som que “não houveram irregularidades”, no processo de contratação sem licitação de uma empresa. Após conceder um aparte a um colega atento à concordância verbal, ouviu o seguinte: “De fato, não houveram irregularidades, houve, houve irregularidades, vereador”.

Fato importante a se observar é que há sempre o que é dito e o que é realizado, a diferença entre o que é enunciado e a enunciação (o que se comunicou, de fato). Amazonino Mendes foi prefeito de Manaus por três vezes. Na última, 2009 a 2012, passou um sufoco em fevereiro de 2011 por ter esquecido aquela que a ciência política considera uma regra de ouro: ser entendido conforme se pretende. O político visitava uma comunidade em área de risco de desabamento na periferia, quando foi abordado por uma moradora, que disse a ele que não se mudaria dali porque não tinha dinheiro. O prefeito impacientou-se e, ante a reiterada resistência da mulher, adotou um tom de franqueza impensada, de quem alerta amigos chegados, capazes de entender entrelinhas: “Filha, então morra, morra!”.

Amazonino diz que foi mal interpretado. Teria sido só um jeito de falar. O "Então, morra!" subentenderia a intenção de dizer "Mas, se você não sair daqui, fará opção consciente de pôr a vida em risco". O político desculpou-se, dizendo que a expressão não retratava desejo ou praga. Filmado por uma TV, publicado no YouTube, o episódio virou bulha nacional. O então prefeito passou o carnaval tentando explicar-se. Até hoje não conseguiu.

Governar é fazer acreditar, disse Nicolau Maquiavel (1469-1527) em O Príncipe. O autor afirmou, ainda, que é fácil persuadir as pessoas de algo. Difícil é manter a persuasão. Bom texto/discurso é aquele cujo resultado programado foi de fato alcançado ao ser lido/ouvido, e se o que desejamos dizer foi interpretado como queríamos. Ser desatento a essa máxima (que implica cuidado na revisão do que escrevemos, por exemplo) pode resultar numa saia justa. O ex-prefeito de Manaus que o diga.  Assim está dito: “Por causa das tuas palavras, serás justificado; e por causa das tuas palavras serás condenado”. (Mt 12,37)

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