Ave

Publicação: 2020-02-14 00:00:00
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Dácio Galvão
daciogalvao@gmail.com

Um livro inacessível por ter nascido exíguo e consequentemente sem circulação encerra a curiosidade? Há quem diga que livro é para ser cultuado.  Editado pelo autor há mais de 60 anos, A Ave, emblematicamente tornou-se mais instigante com o passar dos tempos considerando a importância que teve para movimentos de vanguardas artísticas no Brasil.   Com versões de gráficos sobrepostos sua importância para determinados nichos de leitores passou a ser privilégio.  Falo do livro-poema de Wlademir Dias-Pino (A Ave) que reintegra o poeta “em seu tempo, na pesquisa construtiva de uma nova linguagem” conforme ratificou Augusto de Campos no clássico ensaio Poesia, Antipoesia, Antropofagia. Conheço fragmentos reproduzidos em publicações esparsas e vi um exemplar exposto no Museu de Arte do Rio na mostra “O poema infinito de Wlademir Dias-Pino”, celebrando somado a mais de 800 peças envolvendo desenhos, instalações, cartazística, vídeo-arte, fotografias, textualidades e objetos percorrendo a trajetória de quase 90 anos de vida do artista. A curadoria foi assinada por Evandro Salles. A Ave carrega no conteúdo seis frases-slogans. Uma aproxima ou focaliza forte indagação poética para um desenho geométrico base: “que tatear é o seu ContORno?”. Não há contorno. O campo gráfico avistando-se na horizontal a ave pousada, revela a elaboração de um desenho construtivo da ave em traços retilíneos. Móvel, gera vértices, pontos de encontros demarcatórios e vai formando preponderantemente vários (tri)ângulos. Inclusive alguns inconclusos. Uma ave incontinenti vai se iconizando. Constituindo-se em sequências numa forma contraída. É fruto de efetiva exploração para se atingir o plural desenho lúdico e geométrico: bico, crista, asas, pés, corpo, cauda, tudo em perfil e na superfície (em que chão e espaço?) abstraída e plana.

A arte de Wlademir Dias-Pino o consagrou por “sua seriedade um dos mais perspicazes pesquisadores do visual no Brasil” diria o filólogo e ensaísta Antônio Houaiss, tradutor de Ulisses, de James Joyce. Seu último projeto foi a inédita Enciclopédia Visual Brasileira, empreitada que o artista se dedicou trabalhando nos últimos 20 anos. É estruturada em 1001 volumes e paginadas em pranchas. Ele foi inicialmente referência de importância fundamental no movimento da Poesia Concreta. Depois da cisão entre os concretistas paulistas e os neoconcretos radicados no Rio de Janeiro foi mais intenso e fundante no Poema-Processo. Salto consciente e qualitativo levando a marca pessoal, mas intencionalmente transferível. Afinal, interessavam-lhe desdobramentos de tudo que produzia. Os leitores sendo intervenções e continuadores da obra artística. Na verdade, se constituindo em ações para mais assinaturas. O ato de ler impunha a construção de novos processos.

Elaborado no ano de 1954, A Ave seria lançado em abril de 1956 numa edição limitada em trezentos exemplares. Solitário, desafiava a leitura prospectiva. Trazia tecnologia artesanal onde os “traços geométricos e os dizeres da capa eram desenhados à mão pelo próprio autor, em cada volume” observou Campos. Companheiros de viagens poéticas e políticas Álvaro de Sá e Moacy Cirne, apontavam para as páginas que traziam transparências e mais “opacidade, relevo, vinco, dobras, texturas, dureza, corte, desdobragem, brilho, cor, elasticidade, flexibilidade”. É livro para se apreender buscando o manuseio de páginas “no tatear” permutável. Em ordem cardinal. Operando conjuntos. Objeto transcendente.  A relação e a organização interna implode a superada “existência de princípio, meio e fim, sem ser circular”, pois a escritura é desenvolvida em estruturas.

O fundamental nos gráficos superpostos do ponto de vista da teoria do Poema-Processo, é o resultado momentâneo de variáveis leituras da Ave. O poeta não encerra processos. Ao contrário, incita outros.  Neste caso específico, presumindo-se o aspecto autoral é ele mesmo quem está fazendo a versão. A primeira. Posição sobre a arte geométrica antecipava a arte computacional. Pontuou WDP: “através da geometrização do poema, eu acredito que nós tenhamos um nível de leitura eletrônica, não mais um tipo de leitura mecânica do cérebro”.

Se as palavras foram estrategicamente relevadas na elaboração de poemas visuais, numa radicalização sem precedentes, inversamente, a migração de códigos acima apontadas também levaria, contudo, ao inevitável retorno às tais palavras. À condição criativa visual de algumas situações se verifica imprescindível aos dados linguísticos. Se procedermos à análise dessa alternativa no interior criativo do Poema-Processo, seguramente vamos encontrar movimentos e cambiantes contradições. Mesmo constatando que no conjunto a proposta e a investida antiliterária funcionaram. Também é possível diagnosticar eventuais poemas que não inauguram novos processos formais. Naturalmente há poemas e... Poemas! Vários deles se compunham de palavras para compor títulos, negar títulos, indicar direções interpretativas, para descrever projetos de poemas e chaves léxicas orientadoras de leituras.

Na trajetória dura da censura especialmente entre os anos de 1969 e 1972 o ápice foi o poema gráfico e visual. Era mais fácil de driblar o aparato repressivo institucional. Junto com ele, o fechamento da pesquisa vinculada à palavra em si e a abertura de diálogos voltados à imagem.  Na vivência daquele anos a palavra esgotara-se modernamente e pertenceria a um curso do qual os poetas transgressores naquele contexto não mais a compartilhavam. Mesmo a palavra desarticulada, mallarmeana, invadida pelo branco do papel, ou fragmentada em letras formando fisiognomias cummingsianas. Os limites semânticos não desinteressavam ao Poema-Processo. Neste lastro, Dias-Pino bancava particular terminologia e repertório situando a utilização de procedimentos poéticos para além dos limites dos vocábulos. E reconceituava a visualidade na “distribuição de probabilidades”, de “frequências” e da “explosão tipográfica”. Também a “positivação dos espaços (o ponto)” e as “colunas estatísticas (a linha)”. Eram considerados os “pontos fixos no espaço (linha reta dirigida)” e o “limite de página (como expressão do material usado)”.

Foi frequente a interlocução produtiva que manteve com os poetas potiguares (Nei Leandro de Castro, Falves Silva, Anchieta Fernandes) e muito especialmente com o autor de Cinema Pax, Moacy Cirne, de quem era amigo fraterno e que me possibilitara entrevistá-lo nas alamedas do Museu da República-RJ. O que vem ocorrendo de certa maneira é a revisão de narrativas da história da arte brasileira. Em particular daqueles aportes estéticos que não encontraram maior receptividade exatamente por não ter compromisso mercadológico e primavam por adotar uma linha evolutiva.

Dias-Pino nasceu, em uma família de anarquistas e faleceu em 2018. Participou de inúmeras coletivas internacionais. Da 32ª Bienal de São Paulo e das edições de 1967 e 1977. Se preparava para fazer grandes exposições da sua arte a convite do Centro Georges Pompidou, em Paris e no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madri.






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