Banda Grafith 30 anos: Uma banda de alma popular

Publicação: 2018-11-18 00:00:00
A+ A-
Ícaro Carvalho
Repórter

Kaká Grafith estaciona seu carro esporte preto próximo a uma barraca de sorvete, numa rua asfaltada. Como de costume, o sol é alto no bairro de Santos Reis, zona Leste de Natal. Lá, carros, ônibus e motos passam em alta velocidade. Um menino, por volta dos seus 14 anos, e uma moça, acompanham a cena. O cantor desce e vai atrás dos outros irmãos, próximo à Vila do Sargento. Foi ali que Joãozinho, Carlinhos, Kaká e Júnior, junto com outros sete irmãos, passaram boa parte da infância e da adolescência. Em meio à conversa, os quatro caminham em direção à casa. Os veículos passam, buzinam, acenam. Alguns até se arriscam e gritam “Grafith”. Do outro lado da rua, vários garotos ao verem a cena, não se contém: “E duas almas se encontraram/ Taram Taram Taram/ Na porta do ‘Cimitério’/ Tério tério tério [...]”. Os meninos logo perdem a vergonha, atravessam a rua e vêm falar com os artistas, que prontamente atendem.

Créditos: Alex RégisBanda passou 12 anos tocando no clube Assem, entre os anos 1980 e 1990. Os shows eram aos domingos e atrairam cerca de 2.500 pessoas. O Grafith criou uma identidade forte com o clube, localizado no bairro do TirolBanda passou 12 anos tocando no clube Assem, entre os anos 1980 e 1990. Os shows eram aos domingos e atrairam cerca de 2.500 pessoas. O Grafith criou uma identidade forte com o clube, localizado no bairro do Tirol
Banda passou 12 anos tocando no clube Assem, entre os anos 1980 e 1990. Os shows eram aos domingos e atrairam cerca de 2.500 pessoas. O Grafith criou uma identidade forte com o clube, localizado no bairro do Tirol

Uma banda do povo para o povo. Essa é sem dúvidas uma boa definição para explicar o que é o Grafith para a sociedade natalense. Sim, uma banda que saiu de Santos Reis e conquistou o Rio Grande do Norte, com seu jeito eclético, bem humorado e sem vergonha de cantar músicas com letras em tom ambíguo e jocoso e, em alguns momentos, “falando de amor”, conquistou o povo natalense, com um som atravessando gerações e permanecendo vivo até hoje. Chegar a 30 anos de carreira, e ainda com pique e fazendo sucesso, não é fácil, garantem os artistas. Mas Junior Grafith, empresário e cantor, comenta: tem orgulho de ser uma banda popular.

“Não é fácil para uma banda chegar tocando 30 anos, vivendo um momento de sucesso. Eu para chegar em casa, em cada lugar que parei, inclusive, numa loja de design, o pessoal saiu de dentro do escritório, onde eu chegava o pessoal batendo foto. E não tem coisa melhor que isso: você estar dentro da sua cidade, ter esse reconhecimento, pessoas olhando para a gente, nesses anos todos, como se Grafith fosse um mito. De ter uma popularidade tão grande, uma presença tão grande, o povão mesmo, a periferia. Sempre falo: mais vale o humilde do que o rico. O humilde sempre será mais verdadeiro que o financeiro”. “O que sustentou a gente nos 30 anos foi a periferia. O que continua sustentando são os humildes mesmo”, acrescenta.

Se por um lado a alma da Nação Grafiteira é de origem humilde, o estigma acaba por trazer preconceitos e associações negativas à banda, como ligações com brigas, confusões e tumultos. No próprio Youtube, por exemplo, uma pesquisa rápida mostra vídeos de brigas generalizadas em aniversários da banda e em shows pelo Estado. Em 2014, um show em Mossoró acabou em tumulto e a discussão chegou à câmara de vereadores da cidade, conforme reportagem desta TN à época. Chegou-se a cogitar, inclusive, uma proibição da banda tocar em terras mossoroenses, o que não aconteceu. A situação irrita os músicos, porém, mesmo diante da polêmica, os grafiteiros garantem: não incitam violência enquanto estão no palco.

Créditos: Alex RégisDas ruas do bairro Santos Reis, a banda deslanchou e ganhou o mundo. Hoje, chega aos 30 anos de carreira, com pique e fazendo sucessoDas ruas do bairro Santos Reis, a banda deslanchou e ganhou o mundo. Hoje, chega aos 30 anos de carreira, com pique e fazendo sucesso
Das ruas do bairro Santos Reis, a banda deslanchou e ganhou o mundo. Hoje, chega aos 30 anos de carreira, com pique e fazendo sucesso

“Como a gente é uma banda popular, que toca para muita gente de requisição baixa, muitas vezes as pessoas criam aquele preconceito da banda só levar gente de periferia. E sempre a gente foi marginalizado por causa dessa galera que andava com o Grafith. Mas, você sabe que em festa existem pessoas ruins e pessoas boas. Não é porque estamos tocando para um pessoal da periferia que o pessoal seja ruim. Mas sempre acontecia as coisas com a gente, mas a gente não tinha nada a ver. Nunca fizemos apologia a crime, a essas coisas não”, comenta Kaká, vocalista da banda. “A gente sabe que a violência se estende de uma forma que, eu digo muitas vezes que o poder público perdeu esse domínio, e bota, muitas vezes, em certas situações, um bode expiatório. E um desses era o Grafith”, lamenta Junior.

Se a banda tem em sua raiz a alma popular, Kaká e os outros integrantes comentam ainda que o Grafith, com o passar dos anos, foi quebrando paradigmas e preconceitos e entrando de vez na cultura natalense, no momento em que a banda passou a fazer parte das formaturas e dos mais variados eventos, atingindo, inclusive, públicos distintos. “E muita gente, às vezes, coloca coisas, assim: se é Grafith, vixi, vai ter crime, vai ter morte, vai ter isso. Até hoje em dia o pessoal ainda fala. Mas graças a Deus que deu uma melhorada, de o povo chegar e foi gostando da banda. Quem não conhecia foi conhecendo. Foi quando a gente entrou nas formaturas, carnaval de Macau. Quando a pessoa vai ver, não, não tem nada a ver. [...] Se a gente vai na polícia tem grafiteiro, tem médico, juiz, advogado. Hoje o Grafith atinge os dois lados: tanto o lado da periferia, quanto o lado da elite”, garante Kaká.

Na pausa, hora do ‘alô’
Um recurso que chama a atenção nas músicas da banda é justamente a chamada que antecedem o começo das canções. “Gra Gra Gra Grafith”, uma voz mixada soa juntamente com o início das batidas. A ideia foi de Joãozinho, que viu o recurso numa banda de São Paulo e resolveu trazer para o grupo, como forma de identificar e marcar ainda mais o nome do Grafith.

Aliado a isso, ao escutar uma música dos grafiteiros, ou até mesmo um show da banda, é comum ver os integrantes mandando “alôs” para a Nação Grafiteira. É nesse momento que, além de reconhecer o público que foi ali para curtir a apresentação do grupo, a equipe faz ajustes nos equipamentos nesse momento de pausa. Junior atribui a invenção do “alô” a ele, quando ainda não eram a Banda Grafith, quando os irmãos estavam na banda Impossíveis. Mas garante: a ideia caiu nas graças do público com o Grafitão.

“João era muito detalhista e queria o timbre do teclado o mais parecido possível. Eu tocava teclado na época e tinha que parar a banda, enquanto a gente ajustava e filtrava o som. E eu ficava dando o alô, um abraço para fulano, sicrano do bairro tal. A galera se sentia enaltecida num show. Imagine você estar num show de 2, 3 mil pessoas e a galera citando seu nome? E aquele fã humilde, Ave Maria, o rico vai achar bom, mas o pobre mais ainda. Então, eu sabia que, estando com aquelas pessoas do meu lado, na periferia, os fãs mais humildes, são eles que dão essa assessoria até hoje”, conta.

A representatividade e a forte ligação com o povo, aliado ao fato de que já se afastava dos palcos para ficar de vez à frente da banda, levaram Junior Grafith a entrar na vida política. O empresário chegou a se candidatar três vezes a vereador de Natal, assumindo uma vaga na casa em 2013, como suplente e. em uma ocasião, a deputado estadual, neste ano. Mas revela: os irmãos nunca concordaram.

Créditos: Alex RégisNos anos 2000, a banda começou a comandar o trio elétrico do ‘mela-mela’ no carnaval de Macau, chegando a arrastar mais de 200 mil pessoas pelas ruas da cidadeNos anos 2000, a banda começou a comandar o trio elétrico do ‘mela-mela’ no carnaval de Macau, chegando a arrastar mais de 200 mil pessoas pelas ruas da cidade
Nos anos 2000, a banda começou a comandar o trio elétrico do ‘mela-mela’ no carnaval de Macau, chegando a arrastar mais de 200 mil pessoas pelas ruas da cidade

“Nenhum dos três nunca concordaram. O pessoal não queria que eu me envolvesse para não misturar, porque o nome da banda é bem visto. E politicamente, vamos lá: chega um empresário para ter aumento de passagem. E aí chega a população: não é pra aumentar não. E aí chega a classe e diz: ei é para aumentar. Aí você fica: vou pelos trabalhadores ou pelo povo? Eram nessas coisas. Então, tinham muito medo desse jogo político. Eu ficava nessa cruz [...] Não me arrependo de ter assumido, até porque o bom é você fazer uma coisa, entrar e sair de cabeça erguida”, conclui.

Do apelido “pichadores” surge nome da banda
As desconfianças em torno do grupo já era algo que a banda carregava antes mesmo de se tornar Grafith. Isso porque foi com uma associação a algo tido ‘marginalizado’ na época que surgiu o nome do grupo, lembram os músicos. Assim que se juntaram para formar de fato a banda, não tinham ideia de um nome. Antes, com os membros da banda tendo passado por outros grupos, os cartazes “lambe-lambe”, característicos em Natal e no Estado até os dias atuais, já marcavam a cidade com datas, horários e atrações dos shows. Em virtude de estarem sempre aparecendo nos cartazes, ganharam o apelido de “pichadores”, que logo se confundia com “grafiteiro”. A ideia surgiu, o nome colou e deu certo.

“Kaká na época disse vamos colocar Grafith. Mas quando o pessoal perguntar, Grafith por quê? Porque a gente já levou nome de pichador. Se você olhar desde a época dos Impossíveis, até hoje, se você passar nas ruas de Natal, todo final de semana tem um cartaz da Banda Grafith ou tem uma faixa. Na época, era demais, era Grafith, era Impossíveis, e o nome da gente sempre presentes nas ruas”, relembra, relacionando os dias atuais com o início da entrada dos natalenses na música.

Naquele período, era comum grupos musicais se chamarem “Os Terríveis”, “Os Impossíveis”, “Os Incríveis”. Aliado ao fato de tentar um nome diferente, a ideia era quebrar uma espécie de tradição.

“O nome também da gente foi mais por conta disso. Porque na época era Infernais, Impossíveis, Terríveis, Invencíveis, Feras. Só nome assim, esquisito. Era cada nome. Então vamos colocar Grafith, é um nome que soa mais bonito: Banda Grafith, olha que nome. Já que chamaram a gente de grafiteiros, vamos colocar”, relembra aos risos Carlinhos e Junior Grafith.

Se o Grafith ganhou seu nome e notoriedade por marcar as paredes das ruas de Natal, chegar a 30 anos de estrada não foi nem é uma tarefa fácil. Do bairro de Santos Reis para o mundo, o Grafith ultrapassou os limites de Natal e do RN e conquistou fãs e admiradores. Sobre até quando irá a banda, os grafiteiros garantem: querem tocar e cantar até quando a saúde e as energias permitirem. Se dependerem dos filhos de seu Christiano e dona Maria Otácia, a nação grafiteira ainda vai curtir os shows ecléticos e com um repertório vasto por um bom tempo, colocando a mão no coração, a outra na cintura e descendo até o chão, fazendo, após a dança, “o coração do Grafitão”.