Bate-papo: Cipriano Maia

Publicação: 2018-10-31 00:00:00 | Comentários: 0
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Cipriano Maia, coordenador geral do Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva (NESC) e responsável pelo apoio técnico do projeto “Sífilis Não”

Cipriano Maia

O que é o projeto “Sífilis Não”?
É uma iniciativa nacional do Ministério da Saúde (MS), desenvolvida em parceria com a Universidade Federal do RN e coordenada pelo LAIS (Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde). O apoio técnico do NESC envolve as equipes de pesquisadores e os 52 apoiadores que atuam em 72 municípios de todo o Brasil. Em breve esse número de apoiadores será ser ampliado, para atender os 100 municípios considerados prioritários pelo MS – selecionados conforme tamanho da população, incidência de casos da doença, e regiões críticas como zonas de fronteiras. Aqui no RN, no momento, há um apoiador atuando em Natal e Parnamirim. O projeto terá duração de três anos (até 2020), e o orçamento inicial, que também inclui a remuneração dos apoiadores, é de R$ 160 milhões.

E como funciona na prática?
A equipe de apoiadores do projeto auxilia a execução de ações, e o enfrentamento dos gargalos, dificuldades e problemas encontrados nos municípios no sentido de controlar e combater a sífilis. Esse trabalho inclui a conscientização dos gestores quanto à priorização do tema, e o incentivo para a mobilização de recursos para se buscar melhores resultados. Também são coletados dados que alimentam uma plataforma digital, utilizada para a produção de pesquisas na área. Essa é uma das dimensões do projeto, pois ainda é preciso garantir a disponibilidade da penicilina, do teste rápido para diagnóstico e tratamento, e a adoção de uma campanha de educação da população.

A incidência de sífilis no Brasil pode ser vista como epidemia?
Sim, sem dúvida. É uma problema mundial, mas a situação do Brasil é extremamente desconfortável: os números são assustadores, e sabemos que, mesmo com os dados que temos, considerando as subnotificações, a incidência da doença deve ser bem mais grave. As medidas de combate que vinham sendo implementadas não conseguiram conter o avanço da doença. Um dos propósitos é justamente investigar por que as ações não estão contendo o aumento dos casos.

Há explicações para esse avanço?
Desde entraves burocráticos, e a falta de disponibilidade do medicamento para tratamento, até a não priorização do combate, e a falta de informação. Alguns dados são bem absurdos, como quando um paciente busca tratamento em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) que não aplica a penicilina e encaminha a pessoa para uma Unidade de Pronto Atendimento – chegando na UPA é feita uma nova consulta mesmo já tendo uma prescrição médica. Outra situação é quando uma gestante é diagnosticada e não se trata o parceiro para interromper o ciclo da contaminação. É um tema complexo, que as práticas de saúde e de gestão precisam priorizar, pois a sífilis não teve um movimento social como teve a AIDS, e há uma visão equivocada de que é uma doença “de pobre” – mas que qualquer pessoa pode se contaminar.

A gestão do novo governo Federal pode afetar o projeto a partir de 2019?
É uma questão que teremos que enfrentar, pois quanto mais se reprimir a sexualidade e a discussão dos problemas associados, pior para todas as doenças sexualmente transmissíveis. De qualquer forma os recursos já estão alocados na UFRN, isso nos dá uma garantia em termos de continuidade, mas a nova equipe do Ministério da Saúde pode dificultar a execução das ações. A UFRN sozinha não tem autonomia, e o sucesso do projeto depende dessa articulação com o MS. O diálogo é decisivo para o sucesso das ações.



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