BC mantém Selic em 2% ao ano, mas derruba barreira técnica que impedia aumento de juros

Publicação: 2021-01-21 00:00:00
A inflação mais elevada no Brasil fez o Banco Central eliminar a barreira técnica que o impedia de subir os juros nos próximos meses. A autarquia decidiu na noite desta quarta-feira (20), pela quarta vez consecutiva, manter a Selic (a taxa básica da economia) em 2% ao ano. Com isso, a taxa se manteve no menor nível da série histórica do Copom, iniciada em junho de 1996. Ao mesmo tempo, o BC deu fim ao chamado "forward guidance" (ou prescrição futura, na tradução do inglês) - uma indicação técnica de que os juros não subiriam desde que a inflação seguisse em patamares baixos.

Créditos: Marcello Casal Jr/Agencia BrasilTaxa Selic está em 2% ao ano, menor nível da série histórica do Copom/BC iniciada em 1996, desde agosto do ano passadoTaxa Selic está em 2% ao ano, menor nível da série histórica do Copom/BC iniciada em 1996, desde agosto do ano passado

A eliminação do "forward guidance" ocorre na esteira da escalada de preços no Brasil, puxados pela alta dos alimentos e dos combustíveis. O BC segue afirmando que esse "choque" inflacionário é de curto prazo e tende a ceder nos próximos meses, mas as projeções do mercado financeiro e da própria autarquia já colocam o IPCA - o índice oficial de inflação - em patamares próximos das metas perseguidas. Ao mesmo tempo, o Banco Central admitiu que os choques inflacionários se revelaram "mais persistentes" do que o esperado.

Após a inflação encerrar 2020 em 4,52%, o BC informou nesta quarta que sua projeção está em 3,6% para 2021 e em 3,4% para 2022. Como as metas perseguidas são de 3,75% e 3,50%, respectivamente, o fato é que as projeções já estão muito próximas do alvo. Assim, manter os juros tão baixos poderia representar um risco para a inflação, em especial no ano de 2022.

Em tese, ao retirar o "forward guidance" de sua comunicação, o BC abriu espaço para elevar os juros nos próximos meses. O próximo encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) da autarquia está marcado para 16 e 17 de março.

No comunicado de ontem, o próprio BC lembrou que "o fim do "forward guidance" não implica mecanicamente elevação da taxa de juros, pois a conjuntura econômica continua a prescrever, neste momento, estímulo extraordinariamente elevado frente às incertezas quanto à evolução da atividade".

Embora a inflação mais alta no Brasil seja uma preocupação, o BC também demonstrou apreensão com a atividade econômica. A autarquia alertou que, com o aparecimento de novas cepas da covid-19, a mobilidade em outros países diminuiu e a atividade deve ser afetada no curto prazo.

O BC afirmou ainda que, no Brasil, os indicadores econômicos referentes ao fim de 2020 "têm surpreendido positivamente", mas eles "não contemplam os possíveis efeitos do recente aumento no número de casos de covid-19". Na prática, a instituição demonstra receio com a recuperação econômica, em um cenário de alta do número de mortes e dificuldades de vacinação.

Mercado
A expectativa de elevação de juros em 2021 já é uma realidade para uma parcela considerável das instituições financeiras. De um total de 58 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, todas esperavam pela manutenção da Selic em 2% ao ano ontem. "Para o fim de 2021, porém, as casas projetam desde uma Selic estável em 2% até um aumento dos juros a 4,75% ao ano.

Para o economista-chefe do BNP Paribas, Gustavo Arruda, os juros voltarão a subir a partir de junho, fechando o ano em 4,5%. Já o economista-chefe da Necton, André Perfeito, prevê alta de juros de 0,25 ponto porcentual já na próxima reunião do Copom, em março, apesar dos avisos do BC de que isso não aconteceria simplesmente porque o "forward guidance" caiu.

Perfeito alerta para possíveis dificuldades na área fiscal - um fator que levaria o BC a elevar os juros mais rapidamente. "O clima político adverso tornará mais difícil, para não dizer impossível, o controle dos gastos. Basta apontar a recente queda de popularidade do presidente da República para sabermos dos desafios existentes", afirma o economista. "Isso sem contar uma segunda onda de covid-19 ainda mais persistente, que vai aumentar a demanda por serviços públicos e tornar o clamor pelo retorno do auxílio emergencial um tema politicamente sensível."









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